
O Internacionalista n°2 / abril de 2023
Editorial
A tarefa central do momento:
Lutar pela real independência de classe dos movimentos
e organizações das massas
Ainda nos primeiros 90 dias de governo Lula/Alckmin, já se manifestam as consequências da subordinação das direções sindicais à frente burguesa que o elegeu, que vêm desde antes das eleições de 2022. Temos visto a suspensão de greves de cima para baixo, os acordos que expressam muito mais as políticas do governo que as necessidades das bases, e sua capacidade de mobilização e luta. As direções se subordinam espontaneamente à centralização governamental, apesar de não terem quase nenhuma possibilidade de interferência nas decisões sobre as políticas governamentais. A consequência é um alto grau de estatização das organizações das massas, comparável às da época de Vargas, da Ditadura Militar e certamente ainda maior que durante os primeiros governos do PT, neste século.
A subordinação é tamanha que arrasta não apenas as direções, mas também as oposições sindicais de esquerda. A unidade eleitoral entre situação e oposição para as eleições na Apeoesp mostra como a subordinação ao governo Lula/Alckmin anula a possibilidade de antigas oposições sindicais travarem a luta ao redor da real independência de classe, defesa das reivindicações mais sentidas pelas massas, e dos métodos de luta e democracia sindical. O caso do Sinpeem (S. Paulo), com suas particularidades, vai no mesmo sentido. Nesse caso, a particularidade é que o sindicato é dirigido pelo partido burguês Cidadania (Cláudio Fonseca), e a oposição, pelo PSOL, e ambos são base de sustentação de Lula/Alckmin.
Não é possível defender de fato as reivindicações mais sentidas das massas quando se está pelo apoio e sustentação do governo que encarna a necessidade burguesa de atacar os salários, empregos e direitos. Diante dos interesses contraditórios antagônicos, é preciso tomar posição de um dos lados. A conciliação joga em favor do governo, e em detrimento das necessidades das massas.
A aprovação pelas direções sindicais, por cima das bases e das assembleias, do reajuste de 9% no funcionalismo federal, quando as perdas dos 4 últimos anos são de pelo menos 27%, mostra bem o papel que jogam hoje as direções que sustentam o governo federal. Agem como porta-vozes e agentes do governo no interior dos movimentos.
A recente plenária da CNTE também ilustra bem a que serve a unidade para apoio ao governo: não se levantam as reivindicações mais sentidas para arrancá-las dos governos. Levantam-se pontos a serem negociados no parlamento ou com os governos, não se organiza o combate unitário, exige-se a negociação permanente, de forma a realizar a conciliação permanente.
A ausência de uma política de real independência de classe por parte das direções e da maior parte da vanguarda coloca os assalariados à mercê dos ataques dos capitalistas e de seus governos. As anunciadas férias coletivas de mais de 7 mil trabalhadores no setor automotivo, com perspectivas de demissões, não são respondidas com a organização e a luta de classes em defesa dos empregos e salários. Os sindicatos de todo espectro político, da direita à esquerda, estendem suas mãos amarradas aos trabalhadores da base.
O governo Lula/Alckmin anuncia um novo método para conter gastos e garantir o sustento da dívida pública, leia-se parasitismo financeiro. A tal da âncora fiscal vai substituir o falido teto de gastos pela inflação. Mas a sua flexibilidade estará condicionada pela garantia ao capital financeiro internacional. Daí, não sairá nada de favorável às massas. Assim como não sairá nada favorável com a pretendida redução da taxa de juros. As centrais chamaram uma manifestação na Avenida Paulista, para pressionar o Banco Central com esse objetivo. Aos assalariados não interessa travar uma luta em torno da taxa de juros ou sobre a inflação. O que de fato interessa é que os salários acompanhem fielmente os aumentos de preços, e que haja emprego a todos.
O capitalismo se encontra em uma crise econômica mundial. Expressa sua degeneração como sistema econômico de produção. Para tentar minimizar suas perdas, os capitalistas pressionam os governos a agirem com ataques às massas, despejando a crise sobre seus ombros. Na Europa, observam-se grandes mobilizações contra esses ataques. Na América Latina, as lutas no Peru e Bolívia indicam as tendências de agravamento da luta de classes. Esse é o caminho a seguir por aqui também.
A burguesia semeou ilusões nas massas em relação às possibilidades de melhora do país e de suas condições de vida e trabalho por meio da eleição de um governo “democrático”. Os meios de comunicação se perfilaram na sua maioria sob essa linha. As direções burocráticas sindicais reforçaram essas ilusões, como coadjuvantes desse teatro.
As massas terão de recorrer novamente ao método do Programa de Transição, a fim de dar passos para superar a crise de direção, que se agravou. Por enquanto, estão arrastadas na sua maior parte pelas enganações do governo e das direções. Mas as suas reais necessidades vão desenvolver contradições com os interesses capitalistas garantidos pelos governos e apoiados pelas burocracias sindicais. A defesa das reais necessidades das massas, de suas reivindicações mais sentidas, com os métodos próprios da luta de classes, as levará a estabelecer a real independência de classe em relação aos governos, partidos e instituições da burguesia. Terão de contar com a intervenção dos que defendem sob as atuais dificílimas condições as suas verdadeiras reivindicações, seus métodos próprios de luta e a real independência de classe. São os que constroem o partido internacionalista do proletariado e empunham a estratégia da revolução e ditadura proletárias.
