O Internacionalista n°3 / maio de 2023

Editorial

As contradições objetivas empurram as massas
para luta, no mundo e no Brasil


As mais diversas manifestações da luta de classes em toda parte expressam as profundas tendências que brotam no interior das massas, fruto das contradições objetivas do capitalismo em sua fase última, de decomposição, e metido numa crise econômica que não dá sinais de que possa ser contornada em um curto prazo. As forças produtivas, que puderam se recompor por décadas após a grande destruição da 2ª guerra mundial, mostram o esgotamento desse processo, que se manifesta na redução e tendência à estagnação/recessão gerais da economia mundial, desde meados dos anos 2000.

Essas lutas que se expressam em greves, grandes protestos e manifestações, e principalmente, a guerra, ainda que em diversos países e por diversas causas, assim como as tendências de ataques às condições de vida e trabalho das massas em favor do parasitismo do capital financeiro, têm um elemento geral em comum. Esse elemento é o profundo retrocesso da participação das potências imperialistas na produção industrial e agrícola mundial, em contradição com o avanço econômico principalmente da China, e, em menor grau, da Rússia pós Ieltsin. Conforme afirmara Lenin, na época do imperialismo, o crescimento das forças produtivas só pode acontecer em um país ou região à custa do retrocesso dessas mesmas forças em outras partes. O salto chinês, de ocupar 5% da indústria mundial há duas décadas, para os atuais 31%, se deu à custa da retração industrial nos EUA, Europa e Japão. Particularmente os EUA, despencaram, dos 42% do pós 2ª guerra, para os atuais 15%. A Europa pouco acima disso, e o Japão caiu a 5%. A tendência à desindustrialização corresponde à montanha de capital financeiro exportado, isso Lenin já tinha previsto.

Os profundos ataques às condições de vida e trabalho das massas, de forma a desviar recursos para o sustento do parasitismo financeiro, esmagam ainda mais esse elemento constituinte das forças produtivas, a força de trabalho. As medidas dos governos, no sentido da precarização da força de trabalho e da eliminação de direitos, somente servem de paliativos diante da dinâmica da crise mundial.

Para o imperialismo, é preciso destruir as forças produtivas chinesas e russas. Essa liquidação abriria fôlego para a reconcentração de mercados e capitais nas mãos das potências capitalistas, e abririam uma nova fase de recomposição, semelhante à do pós 2ª guerra mundial. Por isso, formam-se os cercos militares, de um lado, sobre a Rússia, pela OTAN; de outro, sobre a China, por uma aliança ainda não formalizada entre os EUA, Japão, Austrália, Coreia do Sul e Filipinas. A guerra na Ucrânia foi a resposta da burocracia russa ao fracasso de suas manobras diplomáticas, que pretenderam conter o avanço do imperialismo sobre suas fronteiras. Os EUA, sob as bandeiras da OTAN e da ONU, lideram uma frente de 32 países contra a Rússia. Usam a Ucrânia como um enclave militar, alimentando-a com o maior volume de armas já juntado na História contra um só país. A defesa das economias nacionalizadas pelas revoluções proletárias obriga a defender a derrota militar da OTAN na Ucrânia, sem apoiar os métodos burocrático militares, nem o governo de Putin.

O cerco à China tem por meta primária a separação de Taiwan do país. As provocações dos EUA são várias. A China se vê espremida entre a necessidade de preservar a unidade territorial e ao mesmo tempo as relações comerciais com o mundo todo. Não pode formalizar sua aliança militar com a Rússia, embora os exercícios militares conjuntos o atestem. Mas os EUA não podem permitir que a rota histórica de sua desintegração econômica e avanço chinês se completem. Tem de atacar, mais cedo ou mais tarde, seu maior adversário no plano mundial. Tudo indica que fracassará na Ucrânia, e isso fecha as portas do Oeste chinês. O deslocamento de porta-aviões e demais forças militares para a região vai acumulando elementos de guerra.

O Oriente Médio e a África têm dado passos para maior aproximação econômica com China e Rússia. O que obriga os EUA a contestarem a reforma judicial de Netanyahu em Israel, de forma a não agravar as contradições com os países árabes. Irã e Arábia Saudita fecham acordo, à margem dos EUA. Os países africanos se endividam com a China e fecham negócios com os russos.

Na Europa, as necessidades dos gastos militares e de sustento do capital parasitário levam os governos a atacar as massas. A reforma da Previdência na França, que foi imposta ditatorialmente por cima do parlamento, enfrenta a resistência das massas, que já começam a perceber que suas reivindicações se chocam com o apoio francês à guerra na Ucrânia. Na Alemanha e Inglaterra, os movimentos se levantam contra a inflação que corrói os salários, e parte já se coloca contra a guerra. Outros países também são palco dessas lutas.

Na América Latina, onde os chineses têm avançado em acordos comerciais e investimentos nos setores estratégicos, a alta do custo de vida, a precarização profunda do trabalho, a miséria, o desemprego e a fome levam as massas às ruas. A resistência ao golpismo no Peru, as manifestações de massas na Bolívia, etc. tudo isso aponta para as mesmas tendências gerais mundiais.

E por que no Brasil as massas ainda não se movimentam? Apesar de alguns movimentos isolados (greves no metrô/SP e MG), a grande maioria dos movimentos está contida pelas direções que, na sua quase totalidade, apoiam aberta ou criticamente o governo Lula/Alckmin, e não quer movimentos que se levantem contra ele e suas medidas. O pretexto mais utilizado é a necessidade de estar ao lado do governo contra as “ameaças fascistas”. Essas, que não puseram o pé fora de casa no dia 31 de março, para defenderem o golpe militar. Em nome desse pretexto, atuam contra as tendências de luta que possam vir a se manifestar.

Dessa forma, a real independência de classe acaba sendo uma condição para a defesa consequente das reivindicações das massas. Ou se está apoiando um governo burguês de Lula /Alckmin, montado sobre uma frente ampla burguesa e apoiado pelo imperialismo de toda parte, governo que por seu caráter tem de atacar as massas, como o faz quando fixa o salário mínimo de fome para este e para o próximo ano; ou se defendem as reivindicações, que se chocam com esse governo, e por isso só podem ser defendidas em oposição a ele. É por meio da real independência de classe, a ser defendida em cada movimento e organização, que poderemos dotar as massas de unidade para enfrentar a burguesia e todos os seus governos. A subordinação da defesa das reivindicações à unidade governista colabora para a derrota dos explorados diante dos exploradores. Traduzimos a necessidade da real independência de classe como “Oposição Revolucionária ao Governo Lula/Alckmin”.