O Internacionalista n°1 / MOVIMENTOS / março de 2023

Colaboração de classes se intensificam com novos governos burgueses eleitos


Um histórico recente

Já não é de hoje que as burocracias sindicais têm aprofundado sua política de conciliação de classes, contribuindo abertamente com os governos, sejam mais à esquerda como os governos Lula e Dilma, ou mais à direita, com Bolsonaro. O que muda é somente a forma dessa conciliação. Agora, com Lula, que terá de seguir as diretrizes do capital financeiro, e terá de continuar trilhando o caminho de Bolsonaro, com as contrareformas. Cabe à vanguarda orientar os explorados a buscarem a independência de classe diante da burguesia e de seus partidos, e enfrentar a postura traidora das direções.

Em 2015, por exemplo, na crescente crise do governo Dilma Rousseff, saiu dos sindicatos dos metalúrgicos do ABC a falaciosa Proposta do PPE, “Programa de Proteção ao Emprego”. A MP, proposta pelo governo Dilma, com indicação do próprio sindicato na época, foi uma cortina de fumaça para não se travar a luta em defesa dos empregos, num momento em que a crise começava a jogar na rua milhares de trabalhadores. Foi nesse mesmo ano que o governo Dilma, por meio de seu ministro Joaquim Levi, indicado pelos banqueiros, impôs as medidas 664 e 665, que atacavam abertamente os explorados, e já descarregavam a crise econômica.

Quando o governo golpista de Temer impôs a Reforma Trabalhista, a Reforma do Ensino Médio, a ampliação das terceirizações, junto das privatizações e do aumento do desemprego, as burocracias fizeram de tudo para controlar e isolar a insatisfação das massas, que se ergueram nas greves geraisl de 2017, para lutar contra tais medidas. As burocracias agiram fortemente para enterrar as greves, isolar as lutas, e deixar o caminho aberto para a burguesia brasileira e o imperialismo agirem. Passaram a defender a bandeira de “Diretas Já”, não compreendendo que o impeachment ou os golpes militares são parte da estratégia da burguesia para impor suas necessidades, de garantir as taxas de lucro, diante de crises políticas e econômicas recorrentes.

Quando Bolsonaro foi eleito, a “Frente Povo Sem Medo” lançou o slogan midiático de “ninguém larga a mão de ninguém”. Apenas encenação ideológicadiante da derrota eleitoral das esquerdas, pois, no campo prático, esta Frente agiu com a política de conciliação de classes. Bolsonaro conseguiu impor a Reforma da Previdência, num cenário de retrocesso das lutas. No primeiro ano do governo direitisita, ocorreu um Congresso Nacional da CUT, em Praia Grande, no litoral de São Paulo. Em uma das dalas, uma liderança da burocracia cutista de São Paulo afirmou que “não havia como conter a destruição dos postos de trabalhos com a indústria 4.0”. Esse tipo de fala legitimava o período anterior, de Reforma trabalhista e ampliação da terceirização, ao mesmo tempo, que revelavao grau de apodrecimento da Central, que se ergueu no período pós ditadura, com as greves por reajuste salarial, com as bandeiras de redução das jornadas sem redução salarial, com a organização dos comitês de lutas para enfrentar a Ditadura, já em declínio. Diante dos ataques mais gerais da destruição das forças produtivas, o papel de uma Central sindical é de, no mínimo, defender a força de trabalho, a partir dos métodos das lutas e não justificar a demissão, a destruição de empregos e a “inevitabilidade” da situação de ataques dos governos e dos capitalistas.

Em plena pandemia, assimilando a política burguesa do “fique em casa”, com a MP 936 de Bolsonaro, a esmagadora maioria das burocracias sindicais fez de tudo para frear as lutas que emergiram diante dos fechamentos das fábricas, como o  da Ford, ou o da LG. Em alguns casos, as burocracias usaram as assembleias virtuais, em aberta colaboração com o patronato, para impor o trabalho home office ou layoff, com redução salarial. Em uma das assembleias de Taubaté, por exemplo, contra o fechamento da FORD, os burocratas culpabilizaram os metalúrgicos, alegando que estehaviam votado em Bolsonaro. O que dirão agora, com as demissões e os fechamentos que, inevitavelmente, continuarão no governo Lula, que não poderá resolver, num passe de mágica, a crise estrutural do capitalismo, que se manifesta no processo de desindustrialização do país?

Outros sindicatos, dirigidos pela Conlutas/PSTU,  se lançaram no mesmo lamaçal da colaboração e na traição da classe operária, ainda que guardem diferenças com as demais burocracias. Acompanhamos parte desse processo, na assembleia dos Metalúrgicos da GM de São José dos Campos, quando os dirigentes da Conlutas aprovaram a proposta da empresa, com o argumento de que “seria o acordo possível”: a redução do piso salarial dos metalúrgicos, e a aceitação do banco de horas. Em outra ocasião, quando Bolsonaro tentou entregar a Embraer à Boeing de mão beijada, as lideranças do PSTU organizaram um ato, no qual a palavra de ordem era “Veta Bolsonaro”. Essa palavra de ordem mostrava que aqueles que se diziam à esquerda da CUT e da Força sindical haviam assimilado sua mesma política de não organizar a ação direta, e tentar costurar acordos rebaixados com os governos e o patronato. Na mesma época, a Embraer impôs mais de 900 demissões, que foram aceitas pelo sindicato, sem chamar uma assembleia com todos os turnos para defender os empregos a todos.

Esse breve e sintético histórico é importante para mostrarmos que a política sindical da CUT foi sendo assumida pelas correntes que se diziam à esquerda. O PT, com sua política reformista, de colaboração de classes, funcionou e funciona como um campo gravitacional que atraí as ditas “esquerdas” que, aos poucos, também abandonaram a independência de classe, colaborando cada vez mais com os governos e os patrões. Foram seguindo cada vez mais a política de pressão jurídico/parlamentar, em substituição aos métodos da ação direta. Nesse sentido, a pandemia e a eleição de Lula atuaram para que a burguesia disciplinasse as correntes e as ligasse diretamente ao PT, apodrecido na conciliação de classes, e oligarquizado como os demais partidos burgueses. A posição do PSTU, do PSOL, do PCO, etc., em defender Lula na Frente Ampla, se unindo com partidos da direita, como PSDB, PSD, MDB e União Brasil, é a consolidação desse processo.

Essa política é encoberta sob a afirmação das esquerdas de que o governo Bolsonaro seria um governo “fasscista”.  O governo Bolsonaro é burguês de extrema direita, com tendências fascistizantes. Se, de fato, o governo Bolsonaro fosse fascista, o combate não poderia ser apenas por meio das eleições burguesas, conforme pregaram as esquerdas durante todo esse governo. Mas a partir dos métodos de ação direta. Ao contrário, a resposta foi sempre a mesma em todas as situações, para a pandemia, para o fechamento de fábricas, para o desemprego, a fome a misérias crescentes: “derrotar Bolsonaro nas urnas”. Na Apeoesp, dirigida por cutistas, mas com ampla participação das esquerdas, não foi diferente, o governo Doria/Rossiele aprofundou os ataques, e a burocracia, com a conivência da maioria das oposições, caiu na inércia, impondo sua política de pressão jurídico/parlamentar, em oposição aos métodos da ação direta.