
O Internacionalista n° 1 / INTERNACIONAL / março de 2023
EUA
Pontos sobre a situação econômica dos EUA
Duas tendências opostas estão marcando a economia norte-americana, neste início de 2023: de um lado, a tendência à alta dos juros pelo FED (Banco Central dos EUA) que, supostamente, deveria “conter” a inflação do país, que atingiu, em setembro de 2022, percentual semelhante ao de 40 anos atrás, cerca de 8,2% ao ano; e, de outro, um crescimento do PIB nos últimos dois trimestres de 2022, e dos empregos, o que, aliás, levou a que o resultado de janeiro de 2023, em 3,4% de desemprego, fosse o “melhor” dos últimos 50 anos.
Economia política burguesa e as tendências históricas
As duas tendências revelam-se “opostas”, na aparência, porque a lógica, apresentada pelos editoriais econômicos burgueses, é de que o aumento dos juros significaria menor consumo; menor consumo levaria à menor produção; assim, haveria um processo recessivo, e, por fim, aumento do desemprego. É paradoxal, segundo a economia política burguesa, que estes dois processos estejam ocorrendo ao mesmo tempo. Também é paradoxal que um processo mundial de estagnação das principais economias do globo produza processos inflacionários, também gerais. As aparentes “contradições” podem ser explicadas quando se assume uma perspectiva histórica, e se relacionam múltiplos fatores econômicos e tendências mais gerais do capitalismo imperialista, que devem ser encontrados na esfera da produção, e não nas do consumo ou da circulação.
De fato, chegamos a 2023 com uma taxa de juros nos EUA que varia entre 4,5% a 4,75% ao ano, e que pode chegar, até o final de 2023, a 5,40% ou 6%, segundo a estimativa de bancos e agências financeiras.
Se observamos um curto intervalo de tempo, entre março de 2020, quando começa a Pandemia do coronavírus, e fevereiro de 2023, vemos que o FED elevou rapidamente as taxas de juros, saindo, de 0%, em 16 de março de 2020, a 4,75%, em 01 de fevereiro de 2023. Sem dúvida, a rapidez deste processo, o mais rápido desde a década de 1980, esteve ligado ao aumento expressivo da inflação interna, que, entre março e setembro de 2022, ficou acima de 8%, um dos maiores registros dos últimos 40 anos. Mas, já em outubro, o índice de preços ao consumidor nos EUA (CPI, em inglês) começou a cair, e a inflação anual de 2022 fechou em 6,5%. Novamente, uma aparente contradição: a maior inflação esteve associada ao primeiro semestre de 2022, quando houve “recessão técnica” nos EUA (dois trimestres consecutivos negativos).
A “aparente contradição” começa a se desfazer quando olhamos as taxas de juros estabelecidas pelo FED, em um quadro histórico mais longo. Nos últimos trinta anos, vemos que há grande variação na taxa básica, entre 0% a 8%, mostrando, assim, muitos momentos de forte intervenção do Estado na economia, por meio da política monetária.
No início dos anos de 1990, por exemplo, a taxa de juros estava em 8%, em 13 de julho de 1990; caindo rapidamente para 3%, já em setembro de 1992. A diminuição de juros, neste período, pretendia elevar o consumo, e melhorar os resultados do PIB (em 1990, o crescimento havia sido de apenas 1,9%; e, em 1991, de 0,1% negativos). Medida que surtiu algum resultado, já nos anos seguintes, com números crescentes a partir de 1992, chegando a um período de “boom”, entre 1997 e 2000, quando o crescimento foi sempre superior a 4% por ano. Ocorre que, a partir de 1994, o FED volta a elevar os juros, chegando a 6% em fevereiro de 1995 e fechando, em maio de 2000, em 6,5%. A elevação dos juros, portanto, não impediu o crescimento, nem levou a um processo recessivo, como apregoam agora os economistas burgueses. De 1997 a 2000, a taxa de juros ficou entre 5,5% a 6,5%, enquanto o PIB cresceu 4,4%, 4,5%, 4,8%, 4,1%, respectivamente, em 1997, 1998, 1999 e 2000.
O crescimento da década de 1990 nos EUA foi associado ao “boom” das empresas de tecnologia. Mas, mais do que isso, a década de 1990 consolida o setor financeiro, que vinha expandindo-se rapidamente, desde a década de 1980, e que começava a pressionar e a substituir a grande produção industrial estadunidense, de contornos mundiais, por uma economia também financeirizada, com a expansão, não só de instituições financeiras bancárias, por exemplo, as não bancárias, como os fundos de pensão e de investimentos (os fundos “mútuos”). O percentual de participação da economia norte-americana, que era de 23%, em 1980, chegou a 15%, em 2021, ao mesmo tempo que a Dívida Pública, que era de cerca de 30% do valor do PIB, entre 1980 e 1990, chegou ao final de 2022 a 123%, ultrapassando mais de 30 trilhões de dólares, e tendo crescido rapidamente, a partir dos anos 2000, depois da maior financeirização da economia. Esta, que ocorreu também em outros países, como a Inglaterra, significou o estrangulamento da indústria do país, que começou a se retrair fortemente, em, pelo menos, dois surtos, um que vinha ainda dos anos de 1980, com a concorrência da tecnologia japonesa, e depois, já nos anos 2000, com a expansão da economia chinesa. Dois surtos de desindustrialização que levaram, por exemplo, à quebra de setores da indústria automobilística, cujo melhor retrato está na falência da cidade de Detroit, que foi o centro da indústria automobilística estadunidense, e que perdeu, em três décadas, 80% de suas fábricas, e 78% de seu varejo.
Este processo complexo pode ser resumido, grosso modo, na ideia de que, com a desregulação e a “flexibilização” do sistema financeiro, iniciado nos anos 1980 e consolidado nos 1990, portanto, com a flutuação da taxa básica de juros (a partir de 1979) e as fusões de bancos comerciais e de investimento, impulsionado também pela tecnologia, o capital acumulado não mais se reinvestiria, fundamentalmente, na produção industrial, mas poderia “lucrar” mais rapidamente com as cirandas financeiras do endividamento geral, tanto das populações assalariadas, quanto dos Estados nacionais.
O não reinvestimento em capital constante (em meios de produção) diminui a produtividade, pela redução ou alteração da composição técnica e orgânica do capital, e obriga a políticas de maior exploração da mão-de -obra assalariada e de contenção dos gastos do Estado. O endividamento geral, que produz os “juros”, alimenta a desindustrialização, a recessão, e a inflação, a longo prazo, encurtando as crises econômicas locais, e aprofundando a crise estrutural do capitalismo.
Com efeito, a política de flutuação da taxa básica de juros das economias foi produzida com o intuito de favorecer o capital financeiro, não sendo, portanto, o principal fator para a inflação ou para a deflação, ainda que circunstancialmente possa contribuir para estes processos, que estão, na verdade, mais diretamente vinculados à esfera da produção, e não à de circulação de mercadorias ou de capitais. Por isso, também, o crescimento do PIB nunca esteve ancorado na política de juros. Se assim o fosse, não se explicaria, no caso do Brasil, por exemplo, como o período de “ouro” do governo Lula, de 2003 a 2008, poderia caminhar ao lado de taxas SELIC de dois dígitos (de 15% a 21%) e, neste mesmo período, a inflação estivesse contida em um só dígito (de 5% a 9%).
Obviamente, o peso das economias, no Brasil e nos EUA, produz efeitos diferentes na importação e na exportação de capitais e de mercadorias. Mas, apesar de divergentes na forma, convergem no conteúdo, porque são fenômenos que se inter-relacionam na economia mundial: a elevação da taxa básica de juros, nos EUA, por exemplo, obriga a elevação das taxas também no Brasil. Lá, tal política, pode, imediatamente, produzir um incremento nos títulos do governo, os “treasurys”, os quais, por sua vez, podem garantir – artificialmente – o crescimento da economia (com mais endividamento da população e do Estado) de forma imediata, como se viu nos últimos dois trimestres de 2022, e como se vê nestes dois primeiros meses do ano de 2023; enquanto, aqui, no Brasil, tal política leva, imediatamente, a um “desinvestimento”, produzindo, também de forma imediata, um efeito recessivo mais intenso, próprio das economias semicoloniais. O resultado, porém, a médio e longo prazos, é produzir um quadro de estagnação geral das economias, seja dos países imperialistas, seja dos países semicoloniais, embora enfrentem formas e ritmos diferentes desta tendência geral.
Inflação imediata (consumo) e inflação estrutural (composição do capital)
Se o consumo da população e do Estado geram uma inflação imediata, com a artificial elevação do preço das mercadorias em relação ao seu valor, este fenômeno é sempre temporário. Um equilíbrio se refaz, conforme os meios de produção se incrementam, conforme a composição orgânica do capital se altera, com a ampliação do capital constante, dos meios de produção, incluindo aí as forças intelectuais da produção, a tecnologia aplicada. Em termos gerais, esta é a história recente do mercado da “informática” (computadores, tablets, smartphones, etc.).
O problema está em que a reprodução ampliada do capital, com ampliação dos meios de produção, é setorizado, e não geral. Reflete a lei mais geral, que contrapõe forças e capacidade produtiva e as relações de produção. Assim, a inflação que surgiu nas últimas décadas, primeiro nos países semicoloniais e, mais recentemente, nos países imperialistas, provém, das consequências do processo de desindustrialização das economias capitalistas. Inflação que se apresenta, inclusive, em momentos de estagnação e de recessão, como agora. O não incremento regular do capital constante, impulsionado pela ação do capital financeiro/parasitário, produz escassez de insumos e de “bens de capital”. É o que se vê, na atualidade, na crise dos “chips” (uma crise de transferência de tecnologia, monopolizada por poucas empresas), elevando o valor da produção de toda a indústria de ponta (automóveis, informática, etc.), ou o que se vê com os “insumos” da indústria agrícola, com a Guerra na Ucrânia, que obriga o retorno do uso do carvão, que atingiu recorde em 2022, recolocando o problema, de forma mais drástica, tanto em relação às fontes de matérias-primas, quanto às forças e capacidades produtivas, instaladas e monopolizadas por empresas ou Estados. A alta inflacionária não é produzida, logo, por uma demanda imediata, mas por uma maior dependência entre os Estados nacionais, mesmo os imperialistas, como comprova as balanças comerciais negativas de países como os EUA ou da zona do euro, em 2022.
Tendências recessivas prolongadas
A desindustrialização – parte e fenômeno da contradição entre as forças produtivas e as relações de produção – também produz, no longo prazo, os processos recessivos, de retração das economias, que estão dominadas pela política do capital financeiro, sempre de curto prazo, e produzindo bolhas especulativas.
O processo recessivo está ligado, assim, ao estrangulamento das economias e dos Estados nacionais, cada vez mais endividados, que, por mais contrarreformas que produzam, não conseguem resolver o estreitamento dos mercados consumidores internos. Um exemplo na economia norte-americana é o que se vê com o mercado imobiliário. Não bastou a explosão da bolha especulativa entre 2007 e 2008. O ciclo já foi refeito.
Em março de 2022, os preços dos imóveis dispararam em 20,6%, em relação ao ano anterior, o maior aumento em 35 anos, ao mesmo tempo que a venda de imóveis, em dezembro de 2022, já estava caindo pelo 10º mês seguido. O que justifica tal disparidade? Mais uma bolha especulativa, que mantém, ao mesmo tempo, inflação (por não ampliação dos meios de produção a longo prazo) e recessão (pelo estrangulamento do mercado) no setor.
Aliás, o setor da construção civil, nos EUA, serve para ilustrar bem os efeitos da desindustrialização, em termos relativos à não aplicação máxima da tecnologia, e também ao estrangulamento dos mercados consumidores internos. A produtividade desta indústria, em 2020, era menor que na década de 1970, segundo uma reportagem do “New York Times”, publicada em fevereiro de 2023. E não porque existam, hoje, mais “direitos” ou mais “custos de produção” do que no passado (as contrarreformas, de um lado; e as invenções desta indústria – como uso da computação na engenharia, de outro, revelam que não), mas porque esta mesma alta tecnologia não pôde ser reinvestida de forma constante e ampliada no mercado norte-americano. Na verdade, é provável que parte do capital acumulado desta indústria tenha sido transferido, como outros capitais, para a “ciranda financeira”, ampliada a partir da década de 1990. O problema é que estas cirandas financeiras são sempre mais instáveis, e funcionam em menor intervalo de tempo, porque exigem cada vez maior intervenção do Estado, por meio de suas políticas monetárias, e maior exploração do trabalho assalariado, cada vez mais precarizado. A situação, entretanto, não atinge somente os EUA, mas o conjunto das economias mais ricas. A OCDE estudou a produtividade da construção em 29 países, entre 1996 a 2019, e constatou que, em 40% destes, a produtividade da construção civil caiu.
Todos estes dados comprovam as dimensões da crise estrutural do capitalismo imperialista, dominado pelo capital financeiro, que exige a destruição massiva de forças produtivas, o que, por sua vez, impõe a transformação da guerra comercial em guerra bélica, em termos históricos. Ao lado disso, coloca também, como uma realidade mais concreta, as tendências recessivas mais prolongadas, ainda que se apresentem em graus e sob ritmos diversos, explicando a conjuntura de estagnação econômica, de alta inflacionária e de elevação das taxas básicas de juros nas principais economias do globo.
Crescimento aparente nos EUA
Por fim, na série de “aparentes oposições”, vemos que, ao longo de 2022, os economistas burgueses apontaram que os EUA destruiriam, em média, 175 mil empregos por mês (previsão do Bank of America), mas, só em janeiro de 2023, houve uma ampliação de 517 mil vagas, um aumento de 130% superior ao resultado de dezembro de 2022, que também foi positivo.
O aumento dos empregos esteve e está, contudo, atrelado aos setores de serviços (lazer, hotelaria, saúde, alimentação, etc.), no mesmo cenário em que o crescimento econômico nacional esteve combinado com uma balança comercial deficitária, umas das maiores da história recente. Isto é, os EUA importaram mais do que exportaram. Seu crescimento foi puxado, inclusive, pela política monetária, já que, em termos de dólares correntes, houve um aumento do PIB em 9,2%, no ano de 2022, em relação a 2021, um incremento de 2,15 trilhões de dólares.
De fato, o dólar se “fortaleceu” com a elevação da taxa básica de juros pelo FED, permitindo um “crescimento” da economia, em vez de retração econômica, revertida momentaneamente nos setores de serviços, que mais contratam. Este crescimento, porém, ocorre às custas da ampliação do processo de desindustrialização da economia norte-americana, como a balança comercial demonstra. Foram quase 4 trilhões de dólares em importações de insumos, de bens de capital, de bens de consumo e de automóveis, contra a exportação de 3 trilhões. Um déficit que quase atingiu 1 trilhão de dólares, e que revela a dependência da economia norte-americana em relação a outros países, e não a quaisquer países também: só o déficit com a China chegou a 382,9 bilhões de dólares, um aumento de 8,3%, o maior valor dos últimos quatro anos.
Em outras palavras e em síntese, os Estados Unidos crescem, momentaneamente e de forma artificial, alavancados pelo aumento da taxa básica de juros (efeito imediato oposto ao de uma economia semicolonial), enquanto estruturalmente continuam a favorecer as tendências de desindustrialização, de não ampliação do capital constante, produzindo, no curto prazo, a importação da inflação (pelos insumos e bens de capital), e no longo prazo, a inflação mais alta, já conhecida dos países semicoloniais, e a recessão duradoura da economia (como já experimenta, há décadas, o Japão), tornando, em termos políticos, cada vez mais insustentável o endividamento da população e do Estado.
A saída burguesa para estes impasses, profundos e próprios do sistema capitalista em decomposição, não pode ser pacífica. O endividamento crescente e a balança comercial desfavorável se erguem como imperativos para os governos, democratas ou republicanos, dos EUA, exigindo a destruição das forças produtivas na China, e em países como a Rússia, isto é, em Estados Operários degenerados que mantiveram a propriedade estatal/nacionalizada como predominante. O conflito entre OTAN e Rússia é apenas um preâmbulo de choques mais violentos, bélicos, que precisam responder à decomposição das economias altamente industrializadas, sobretudo, a dos EUA.
A saída proletária, da política própria da classe operária, é erguer as reivindicações que se chocam com a alta inflacionária, com as contrarreformas, com a retirada de direitos, e, a partir da ação direta, projetar o programa próprio da classe, que é de expropriação do grande capital, por meio da revolução proletária, para garantir a planificação da economia e o desenvolvimento harmônico das forças produtivas mundiais.
