
O Internacionalista n° 1 / INTERNACIONAL / março de 2023
Ucrânia
Pela derrota militar da OTAN frente à Rússia!
A guerra na Ucrânia completou um ano. Pelo curso objetivo do conflito, marcado pela intervenção ostensiva e cada vez mais direta da OTAN, afasta-se a possibilidade de uma saída negociada ao conflito nos próximos meses. O Ministério da Defesa da Rússia, recentemente, anunciou que o país se prepara para travar mais dois ou três anos de guerra. O fluxo maciço de estoques de armas e equipamentos bélicos de dezenas de países, para que o governo de Kiev continue resistindo, e, se possível, realizar contraofensivas no campo de batalha contra a Rússia, indicam que a mesma previsão é feita pelos governos imperialistas. Assim, as tendências bélicas ganham uma proporção mundial não vista desde o pré-Segunda Guerra Mundial, envolvendo os países de praticamente toda Europa, junto aos EUA, Japão, Austrália e outros países do mundo, contra o estado Operário Degenerado russo.
As tendências bélicas que se manifestam na Europa unem conjunturalmente todas as frações da burguesia imperialista, no objetivo de destruir a economia estatizada, e proceder à destruição das forças produtivas e capacidades industriais desenvolvidas na Rússia, para transformá-la em semicolônia. O crescente militarismo da OTAN, após a dissolução da URSS, mostra que a desagregação da URSS não alterou o objetivo de derrocada da burocracia e desmembramento da Rússia, visando à retomada dos lucros monopolistas nas potências e no mundo.
A OTAN passou das “manobras defensivas” da Guerra Fria (caracterizadas pela fortificação militar e nuclear da Europa ocidental) às “manobras ofensivas”. A conquista de novos pontos avançados da OTAN no Leste europeu foi precedida pela restauração capitalista das ex-Repúblicas Populares e de Repúblicas Soviéticas, transformadas em semicolônias.As manobras dos potências imperialistas deram mais um salto, com a guerra civil e o golpe na Ucrânia (2014), que restauraram o estado burguês e fizeram do país uma base de manobras da OTAN contra o Estado Operário degenerado russo.
Esse objetivo de usar o país como cabeceira de praia contra a Rússia foi conjunturalmente freado pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Tratou-se de uma medida preventiva e uma manobra defensiva da burocracia contra a ofensiva imperialista. Em novas condições históricas, ainda que sob a direção da burocracia contrarrevolucionária, ressurgiu a luta a morte entre dois regimes sociais antagônicos, existente desde que foi constituída a URSS, assentada na propriedade nacionalizada, fundamental conquista da revolução.
É fartamente conhecido que a Rússia exigia, desde 2014, garantias de que não se utilizaria o território ucraniano para expandir a OTAN, e que se pusesse fim à ofensiva militar do governo títere de Kiev para esmagar em sangue a revolta no Donbass. A burocracia russa buscou insistentemente o caminho da conciliação com o imperialismo. O imperialismo não cumpriu nenhuma dessas “garantias”. Com a preparação da derrota militar dos separatistas pelo governo fascitizante, e a declaração do imperialismo de incorporar Ucrânia à OTAN, a burocracia russa decidiu finalmente pela invasão e a anexação dos territórios do leste ucraniano. As massas dessa região lutaram com armas nas mãos, primeiro pela sua autonomia, e depois pela sua separação e integração à Rússia. Confluíam assim os anseios das massas do Leste com os objetivos da burocracia russa, abrindo uma nova fase na disputa de posições estratégicas.
A intervenção das potências imperialistas, por meio da maior concentração de armamentos contra um só país na História (mais de 30 países esvaziaram seus estoques bélicos), conformou uma conflagração bélica entre o imperialismo e a Rússia, usando a Ucrânia como um enclave.. Mas, é a tendência mais geral. Eis porque a vanguarda que se reivindica marxista está obrigada a avaliar sua linha e tática na atual fase dos conflitos a partir dessa avaliação. O que exige tomar uma clara posição de princípio e política perante as anexações. Um ponto de partida para avançar nessa definição é compreender que não se pode impor a unidade territorial à força, ou garanti-la esmagando a luta pela autodeterminação de uma minoria nacional que sofreu da violenta opressão nacional. De forma que, sem caracterizar o conteúdo da guerra civil travada há 8 anos pelas massas russo-ucranianas, não há como chegar a conclusões que correspondam à realidade objetiva.
Mas, o essencial está em compreender que defender as anexações do Leste ucraniano pela Rússia é uma medida elementar que defende, ainda que com os métodos burocráticos autoritários e militares da burocracia russa (que criticamos), e sem defender seu governo ditatorial, as conquistas revolucionárias do proletariado russo e mundial (a economia estatizada e o Estado Operário, ainda que profundamente degenerado), frente à ameaça de sua completa destruição pelo imperialismo. Diferentemente, defender a integridade da Ucrânia, quando hoje somente pode ser garantida pela intervenção e as armas do imperialismo, significa se posicionar pela derrota da Rússia, em outros termos, pela destruição das conquistas revolucionárias do proletariado e, particularmente, pela derrota da luta pela autodeterminação nacional das massas do Leste ucraniano. Elementos que fortaleceriam enormemente o imperialismo em todo o mundo, e sua opressão sobre o proletariado em toda parte.
A defesa da integridade da Ucrânia e da derrota militar da Rússia, nas atuais condições, significa colocar-se na mesma trincheira do imperialismo e do governo fascitizante de Kiev. Deve-se entender que a derrota da Rússia esmagaria não apenas o direito democrático progressivo de autodeterminação da nação oprimida do Leste ucraniano, como fortaleceria o imperialismo em seu objetivo estratégico de destroçar a Rússia e as conquistas revolucionárias, enfraquecendo a luta de classes mundial por todo um período.
Diferentemente, defender as anexações e a derrota militar do imperialismo daria impulso a novos levantes de massas oprimidas e favoreceria objetivamente a luta de classes. Essa diferenciação é colocada concretamente pelo curso da guerra, e validada para os marxistas pela experiência histórica. Na revista Internacionalismo n° 1 (junho de 1980), no artigo “Os trotskistas perante a invasão do Afeganistão”, aprovado pela 3° Conferência da Tendência Quarta Internacionalista, Guillermo Lora defendeu a anexação desse país pela URSS. O fez por caracterizar que, apesar de negar o direito à autodeterminação, era uma medida elementar de defesa do Estado Operário degenerado, perante o cerco imperialista que se fechava na Ásia. Disse, ainda, que sua “anexação”, daria um impulso à luta de classes, e integraria o país atrasado a uma formação econômica superior e historicamente progressiva. Citamos de passagem esse exemplo para demonstrar que a defesa das anexações feitas pela Rússia, ainda que rompendo a integridade da Ucrânia, é uma decisão política obrigatória à vanguarda que defende ao Estado Operário – ainda que degenerado – e suas conquistas históricas, contra o imperialismo.
Para os marxistas, a derrota do imperialismo, em qualquer país e circunstâncias, é um objetivo que serve para impulsionar e favorecer a luta de classes das massas oprimidas em geral. A vitória da luta de uma nacionalidade oprimida, ainda mais quando enfraquece o imperialismo, e, neste caso, favorece a defesa das conquistas históricas do proletariado, é uma posição de princípio para os revolucionários. Acima do direito democrático burguês da integridade de uma nação, está o direito de existência de um Estado Operário cercado pelo imperialismo. Esta posição não tem nada ver com os objetivos e interesses da burocracia russa, preserva a necessidade de combatê-la no campo dos métodos da luta de classes e do programa da revolução política; e não no do imperialismo e de seus vassalos.
