O Internacionalista n° 2 / INTERNACIONAL / abril de 2023

EUA

A quebra de bancos nos EUA revela nova bolha especulativa


Os noticiários econômicos sobre a quebra de bancos nos EUA e sobre uma possível crise no sistema bancário internacional se multiplicaram na última semana. A ação do governo norte-americano foi rápida e “acalmou os mercados”, ainda que não tenha revertido a queda das ações dos bancos nas Bolsas em todo o mundo. A ação coordenada de governos e do sistema financeiro não conseguiu ocultar completamente que a quebra e a insolvência de alguns bancos não é um fenômeno circunstancial, e que as ações tomadas não reverterão as tendências recessivas, mas esgotam mais rapidamente as supostas saídas encontradas.
Em 10 de março, o Sillicon Valley Bank, o 16º maior banco do EUA, com ativos, no final de 2022, em torno de US$ 200 bilhões, foi oficialmente fechado pelos reguladores do sistema bancário norte-americano. O banco, que recebia muitos depósitos e investimentos do setor de tecnologia dos EUA, e que teve seus ativos mais que triplicados entre 2018 e 2022, de US$ 60 bilhões, para os US$ 200 bilhões, vinha sofrendo com a diminuição de depósitos, desde o ano passado. Duas semanas antes de seu fechamento, o CEO do SVB vendeu US$ 3,6 milhões em ações, antes de a instituição registrar o prejuízo líquido de US$ 1,8 bilhão, com a venda de parte de seus investimentos (títulos que perderam valor com a subida da taxa básica de juros). Como um efeito cascata, o banco sofreu, então, com volumosos saques de seus correntistas (cerca de US$ 42 bilhões nos dias que antecederam a quebra). Dois dias antes da falência, buscou captar US$ 1,75 bilhão em venda de suas ações, mas a quebra foi inevitável.
Em 12 de março, um banco menor, mas, ainda assim, mediano, o Signature Bank, também foi fechado pelos reguladores do sistema bancário. Seus ativos, no final de 2022, eram estimados em US$ 110 bilhões. Sofreu, como o SVB, um estouro de “manada”: saques volumosos e falta de liquidez. O banco também já era investigado por autoridades do governo, por lavagem de dinheiro.
O FED (Banco Central) e o FDIC (agência que garante os depósitos bancários) anunciaram que todos os clientes dos bancos quebrados receberiam todo o dinheiro investido. O FDIC estabelece um teto de US$ 250 mil a todo cliente em caso de falência da instituição bancária, a exemplo do que faz o Fundo Garantidor de Crédito (FGC), do Brasil. Ocorre que a maior parte dos clientes destes bancos tinham valores superiores aos US$ 250 mil. No caso do SVB, 78% de seus depositantes não estavam garantidos e, neste caso, se fossem válidas as regras do “livre mercado”, perderiam todos seus investimentos. O generoso governo de Biden anunciou, porém, que todos receberiam, o que, sem dúvida, diminuirá o fundo do FDIC, já que apenas cerca de 50% de todos os depósitos do sistema bancário norte-americano são cobertos pelo fundo.
Após a quebra dos dois bancos, um terceiro banco também apresentou problema de liquidez, o First Republic Bank, com sede na Califórnia, como o SVB, que viu suas ações derreterem na última semana, mas, diferente dos dois anteriores, já conta com um aporte de US$ 30 bilhões, vindo de outras 11 instituições financeiras, incluindo o poderoso banco JPMorgan. O problema é que, apesar deste aporte financeiro, as ações do banco fecharam em queda de 26%, no dia 17 de março.
Os três bancos estariam ligados, em essência, ao setor de tecnologia, embora este terceiro afirme que tenha uma base de investimentos mais “diversificada”, o que não podemos confirmar, já que há o “segredo contábil”, que só aparece quando das quebras. Antes deles, o Silvergate Bank “encerrou” suas operações na primeira semana de março. Embora fosse um banco menor, com cerca de US$ 11 bilhões em ativos, no final de 2022, ele tinha, comprovadamente, 90% de sua base de ativos ligada ao setor de tecnologia, inclusive, ao ramo das criptomoedas, que vêm despencando desde o início de 2022. Em novembro do ano passado, a FTX, a segunda maior corretora de criptomoedas do planeta, faliu. Assim, os “ativos” financeiros dos bancos dependem da economia real dos setores aos quais estão ligados. Sabemos que o setor de tecnologia nos EUA e em outros países está em crise.

Empresas de tecnologia perdem “valor”

Muitos economistas e editoriais burgueses querem fazer crer que se trata de um problema de “administração” dos bancos, e, portanto, circunscrito a um setor. Joe Biden chegou a afirmar que os executivos de bancos que vão à falência devem ser “multados e banidos”, por colocar em risco todo o sistema bancário, e que ninguém está “acima da lei”. Como o chefe da fração imperialista mais poderosa do planeta, Biden deve mesmo estar preocupado com a “saúde” do sistema bancário, porque não se opôs a que o Banco Central do EUA, o FED, anunciasse um aporte a bancos pequenos e médios, no valor de US$ 2 trilhões. Valor aproximado ao que o FED também despejou no sistema bancário, no período da crise de 2007/2008, e que apenas sete países no mundo, em 2022, alcançaram como PIB.
Obviamente, se se tratasse de um problema pontual, ligado a má gestão, não teria o poder de contágio que pode ter, e cujos efeitos ainda não podemos avaliar na sua máxima extensão, tanto pelos “segredos e inconsistências contábeis” das instituições bancárias (como o caso do banco europeu Credit Suisse revela), quanto pela capacidade de o Tesouro americano, o mais poderoso do planeta, de segurar a crise de liquidez dos bancos.
Para avaliar a extensão do poder de contágio, seria necessário conhecer a situação do setor de tecnologia e do ramo imobiliário dos EUA, dois setores chaves da economia, que produzem, de fato, riquezas que permitem a especulação financeira em alto grau.
A crise de 2007/2008, que também começou com a quebra de bancos e se alastrou, tinha como base o setor imobiliário norte-americano, e toda a jogatina financeira em torno dele. Sabemos, por exemplo, que há hoje um descompasso atual entre a venda de imóveis nos EUA, que está em queda há um ano, em relação ao valor dos imóveis, gerando uma bolha especulativa. Sabemos também que as empresas de tecnologia perderam “valor” em 2022: US$ 4,6 trilhões foi a perda conjunta de Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Tesla, Meta e Netflix. No caso destas empresas, houve uma “inflação” de suas ações, durante o período mais grave da Pandemia, de modo que voltam a patamares anteriores. Este insuflamento artificial de empresas de tecnologia levou a um insuflamento, também artificial, de bancos pequenos e médios, nos últimos anos, ligados a elas, criando igualmente uma bolha especulativa, que parece agora se desfazer. As dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos do setor de tecnologia perdidos no último ano mostrarão ainda seu verdadeiro impacto no conjunto da economia norte-americana.
Se valessem as leis de “livre mercado”, a lei de concentração de capitais e de criação de monopólios se aplicaria ao setor bancário, e já teríamos, apenas nos EUA, como já ocorre em países atrasados, meia dúzia de bancos. No caso dos EUA, restariam, com certeza, os 4 maiores bancos: JPMorgan, Citigroup, Bank of America e Wells Fargo. Mas, a mão “invisível” do mercado sempre é ajudada pela mão visível do Estado burguês. Se o programa de aporte de US$ 2 trilhões do FED se realizar, teremos uma sobrevida para todo um setor bancário pequeno e médio nos EUA, o que gera a ilusão de um “livre mercado, diversificado e múltiplo”, o que, claramente, é uma fantasia produzida, ao se exaurirem as riquezas atuais e “futuras” do Tesouro americano (fruto, por sua vez, de setores produtivos da economia).

Muitos economistas e editoriais burgueses querem fazer crer que se trata de um problema de “administração” dos bancos, e, portanto, circunscrito a um setor. Joe Biden chegou a afirmar que os executivos de bancos que vão à falência devem ser “multados e banidos”, por colocar em risco todo o sistema bancário, e que ninguém está “acima da lei”. Como o chefe da fração imperialista mais poderosa do planeta, Biden deve mesmo estar preocupado com a “saúde” do sistema bancário, porque não se opôs a que o Banco Central do EUA, o FED, anunciasse um aporte a bancos pequenos e médios, no valor de US$ 2 trilhões. Valor aproximado ao que o FED também despejou no sistema bancário, no período da crise de 2007/2008, e que apenas sete países no mundo, em 2022, alcançaram como PIB.
Obviamente, se se tratasse de um problema pontual, ligado a má gestão, não teria o poder de contágio que pode ter, e cujos efeitos ainda não podemos avaliar na sua máxima extensão, tanto pelos “segredos e inconsistências contábeis” das instituições bancárias (como o caso do banco europeu Credit Suisse revela), quanto pela capacidade de o Tesouro americano, o mais poderoso do planeta, de segurar a crise de liquidez dos bancos.
Para avaliar a extensão do poder de contágio, seria necessário conhecer a situação do setor de tecnologia e do ramo imobiliário dos EUA, dois setores chaves da economia, que produzem, de fato, riquezas que permitem a especulação financeira em alto grau.
A crise de 2007/2008, que também começou com a quebra de bancos e se alastrou, tinha como base o setor imobiliário norte-americano, e toda a jogatina financeira em torno dele. Sabemos, por exemplo, que há hoje um descompasso atual entre a venda de imóveis nos EUA, que está em queda há um ano, em relação ao valor dos imóveis, gerando uma bolha especulativa. Sabemos também que as empresas de tecnologia perderam “valor” em 2022: US$ 4,6 trilhões foi a perda conjunta de Apple, Microsoft, Alphabet, Amazon, Tesla, Meta e Netflix. No caso destas empresas, houve uma “inflação” de suas ações, durante o período mais grave da Pandemia, de modo que voltam a patamares anteriores. Este insuflamento artificial de empresas de tecnologia levou a um insuflamento, também artificial, de bancos pequenos e médios, nos últimos anos, ligados a elas, criando igualmente uma bolha especulativa, que parece agora se desfazer. As dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos do setor de tecnologia perdidos no último ano mostrarão ainda seu verdadeiro impacto no conjunto da economia norte-americana.
Se valessem as leis de “livre mercado”, a lei de concentração de capitais e de criação de monopólios se aplicaria ao setor bancário, e já teríamos, apenas nos EUA, como já ocorre em países atrasados, meia dúzia de bancos. No caso dos EUA, restariam, com certeza, os 4 maiores bancos: JPMorgan, Citigroup, Bank of America e Wells Fargo. Mas, a mão “invisível” do mercado sempre é ajudada pela mão visível do Estado burguês. Se o programa de aporte de US$ 2 trilhões do FED se realizar, teremos uma sobrevida para todo um setor bancário pequeno e médio nos EUA, o que gera a ilusão de um “livre mercado, diversificado e múltiplo”, o que, claramente, é uma fantasia produzida, ao se exaurirem as riquezas atuais e “futuras” do Tesouro americano (fruto, por sua vez, de setores produtivos da economia).

Renda variável e fixa e endividamento do Estado na crise bancária

A realização de maior ou menor prejuízo, assim como de maior ou menor “lucro”, depende sempre de uma estabilidade econômica e política, que é, por sua vez, sempre conjuntural. As decisões dos capitalistas individuais é sempre mediada por esta conjuntura. Depois da crise de 2007/2008, e da forte intervenção dos governos para salvar empresas e bancos, houve uma migração de investimentos em renda variável (ações de empresas) para renda fixa (certificados de depósitos e títulos públicos). Ocorre que a renda fixa sofre mais com o aumento da taxa básica de juros, porque se desvaloriza de forma imediata, quando de sua venda antes do prazo estabelecido.
É o que ocorreu com o Sillicon Valley Bank, que precisou vender rapidamente seus ativos de renda fixa, realizando um prejuízo de quase US$ 2 bilhões, para conseguir dinheiro para os saques. Um estudo de pesquisadores de universidades norte-americanas, publicado em 13 de março, “Monetary Tightening and U.S. Bank Fragility in 2023: Mark-to-Market Losses and Uninsured Depositor Runs?”, estima que os ativos do sistema bancário dos EUA são de US$ 2 trilhões, menor do que o previsto nas carteiras de investimentos dos bancos. Isto é, se todos os bancos dos EUA precisassem vender seus ativos de renda fixa hoje, perderiam US$ 2 trilhões, o mesmo valor que o FED disse que injetará no sistema bancário.
A curto prazo, o governo norte-americano, por meio do FED, contém a explosão da bolha especulativa do sistema bancário, dando-lhe liquidez para, eventualmente, “honrar” com seus investidores privados. A questão, no longo prazo, é que não pode fazer isso indefinidamente. Apesar de ter ainda o maior mercado de ações do planeta, os EUA começam a ver um esgotamento deste mercado, e mesmo de seus títulos públicos. No último trimestre de 2022, o mercado de ações estava no nível mais baixo desde 2020, e a dívida pública, impulsionada pela venda dos Treasuries, via um “desinvestimento”: Japão e China apresentaram retração quanto a estes títulos. China, por exemplo, pela primeira vez desde 2010, esteve com menos de US$ 1 trilhão em títulos da dívida norte-americana, em 2022.
Seja em “renda fixa”, seja em “renda variável”, o capitalismo financeiro encontra-se em um beco cada vez mais estreito. A transformação da economia norte-americana, altamente industrializada, em uma economia financeirizada, que sofre com a desindustrialização, encontra limites na própria economia mundial capitalista. A quebra dos bancos revela que o processo de financeirização da economia esbarra na produção real de mercadorias, e de sua venda para mercados, cada vez mais estrangulados. Não há onde realizar “lucros”, cada vez mais artificiais, sem um lastro na economia real. O jogo especulativo, possível pela riqueza incomensurável produzida pelo proletariado mundial, tem alimentado crises cada vez mais intensas e próximas umas das outras. As “inconsistências contábeis” do banco Credit Suisse, com sede na Suíça, que tem também realizado prejuízos e solicitou um “socorro” de US$ 54 bilhões para o Banco Central do país (valor maior do que a dívida pública da Argentina, por exemplo) revela que a bolha especulativa do sistema bancário é maior do que se imagina, e não está ligado estritamente a um país ou a um setor produtivo.
O fato de as Bolsas de Valores do mundo todo não reagirem, mesmo com toda a ajuda financeira dos bancos centrais, demonstra que a crise é mais profunda do que se imaginava, e pode ter repercussões mais imediatas do que se calculou no ano passado. Para fazer frente a estas ajudas bilionárias e trilionárias, os governos burgueses precisarão aplicar medidas de “austeridade fiscal” maior, porque precisarão garantir a liquidez das dívidas públicas de cada Estado, impondo mais contrarreformas e mais rebaixamento salarial, de forma indireta ou direta.
Uma resposta a esta situação depende da organização e da política independente da classe operária diante das políticas adotadas pelos capitalistas e seus governos. Não interessa à classe operária e aos explorados dos países imperialistas e semicoloniais lutar em torno da política de juros ou de baixa ou alta inflação, essa discussão é parte da política econômica burguesa. Para os explorados, interessa lutar por salário-mínimo vital, pela escala móvel de reajuste, pela repartição das horas de trabalho entre todos os aptos, por mais direitos e serviços sociais. Apenas levantando suas reivindicações mais elementares e essenciais, por meio da ação direta, que os explorados do mundo todo e, em especial dos países imperialistas, que sofrem agora com as medidas dos governos, com a alta inflacionária, e com a perspectiva de aumento do desemprego e destruição de direitos, podem chocar-se com o sistema financeiro, com os governos e com toda a exploração, que produz a miséria, a fome, o desemprego, e o rebaixamento geral das condições de vida das massas. Uma luta independente, com suas reivindicações e métodos de luta, permitirá fazer frente a mais esta bolha especulativa e sua crise.
Ganham importância as bandeiras do Programa de Transição da IV Internacional, de estatização de todo o sistema financeiro, sob controle operário, abertura de seus livros caixa, de ruptura com o imperialismo, de não pagamento da dívida pública, consignas que devem fazer parte de uma plataforma de reivindicações que se oriente para a conquista do poder próprio das massas, o governo operário e camponês.

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