O Internacionalista n° 3 / INTERNACIONAL / maio de 2023

As razões da “guerra comercial”:

as balanças comerciais desfavoráveis


As balanças comerciais desfavoráveis e o aumento das Dívidas Públicas nas potências imperialistas alimentam os conflitos mundiais, opondo cada vez mais modelos econômicos opostos: o dos países capitalistas imperialistas, em que predomina a grande propriedade burguesa, e o dos países em fase de transição para o socialismo, em que predomina a grande propriedade estatizada. Isto é, de um lado, os países de Estados imperialistas, como EUA, Japão, Reino Unido, França, Alemanha e, de outro, os países de Estados Operários (degenerados), confrontando-se na arena do mercado mundial.
Centramo-nos, nesta matéria, na apresentação dos dados sobre as balanças comerciais desfavoráveis, mostrando que a tendência geral é de que os maiores países imperialistas continuem perdendo espaço na exportação de bens de produção, enquanto continuam a crescer os países em que domina a propriedade estatal (China e, em menor grau, Rússia). Nas próximas edições, vincularemos os dados das balanças comerciais à política monetária dos governos e a questão das Dívidas Públicas dos Estados imperialistas, para, por fim, em uma última matéria, revelar as leis econômicas e históricas que confrontam os países imperialistas e os países que realizaram as revoluções proletárias e apresentam, hoje, economias de transição para o socialismo.
O que podemos adiantar sobre o desenvolvimento deste estudo é que, neste confronto, há já um desequilíbrio que favorece os Estados Operários: os Estados imperialistas não contam com uma centralização político-econômica como a dos Estados Operários, que têm, como conquista fundamental das revoluções proletárias, a grande propriedade estatal/nacional. Por mais mecanismos protecionistas e organismos internacionais que os Estados imperialistas criem, ainda prevalece a anarquia da produção (com o incremento da ciência e tecnologia em diferentes setores, e a disputa por mercados, na maior parte dos ramos) e a ação predatória, na fase imperialista, do capital financeiro, que busca sempre a maior lucratividade, “desrespeitando” as políticas monetárias dos grandes governos imperialistas, como a dos EUA ou a da Europa, como se viu recentemente com a crise no setor bancário.
Seja no médio ou no longo prazo, os desequilíbrios nas balanças comerciais (ligados à importação e à exportação de bens e de capitais), não são tão eficazmente combatidos pelos Estados imperialistas, por meio de políticas governamentais, como pode ocorrer nos países de Estado Operário, por mais degeneradas que sejam as burocracias que controlem política e economicamente estes Estados, o que tem produzido, em última instância, as causas materiais mais profundas da chamada “guerra comercial” e, como já vemos agora, dos conflitos bélicos, no caso da Guerra na Ucrânia, cujo objetivo último, por parte do imperialismo, é destruir maciçamente forças produtivas dos Estados Operários, para, com isso, ganhar um fôlego maior para preservar o sistema capitalista apodrecido.

Dados recentes das balanças comerciais

Embora os EUA apresentem déficit na balança comercial há mais de uma década, os últimos anos revelam uma tendência progressiva na importação de bens, de um lado, e exportação de serviços, de outro, mesmo em diferentes governos, como o do republicano Donald Trump, ou do democrata Joe Biden.
Em 2020, o déficit ficou 17,7% maior do que o de 2019, atingindo a marca US$ 678,74 bilhões, puxado pela balança deficitária de bens, que ficou negativa em US$ 915,790 bilhões; o rombo só não foi maior por causa da situação superavitária dos serviços, em US$ 237,05 bilhões. A China ganhou US$ 310,8 bilhões nas exportações com os EUA, ainda que estivéssemos no auge do discurso e da política de Trump, que, em julho de 2018, havia iniciado a aplicação de maiores taxações alfandegárias em mais de 800 produtos chineses. Em 2021, já sob Biden, o déficit em relação a 2020 aumentou 27%: atingiu o recorde US$ 859,13 bilhões. Novamente, houve um desequilíbrio entre a troca de bens e serviços, no mercado mundial. O déficit de bens foi de US$ 1,1 trilhão, enquanto os serviços registraram superávit de US$ 231,5 bilhões, o menor desde 2012. Mais uma vez, o déficit dos EUA em relação à China aumentou, foi de 14,5% maior do que em 2020. Em 2022, o déficit da balança comercial foi de US$ 948,1 bilhões, um aumento de 16,4%, em relação a 2021. O déficit com a China aumentou 8%, chegando a US$ 382,9 bilhões. Por estes números, é possível ver a tendência geral da relação entre EUA e China: o fundamento econômico da “guerra comercial” que, com certeza, não tem surtido o efeito que os sucessivos governos burgueses norte-americanos querem impor.
O Japão, que é o terceiro PIB do planeta, vive estagnado economicamente há mais de duas décadas, e também tem apresentado déficit na balança comercial. No caso do país asiático, há questões incontornáveis para resolver esta balança, como a escassez de recursos minerais e matérias-primas, que exigem importação abundante. Em 2022, o déficit comercial foi US$ 156 bilhões, tendo sido superavitário em relação aos EUA, mas deficitário em relação à China e à Europa. Em março de 2023, a balança comercial já apresentava, pelo 20º mês consecutivo, um aumento das importações em relação às exportações. Quando recuamos para 2020, vemos que o déficit da balança foi US$ 20,501 bilhões, mas, diferente dos EUA, o déficit veio em função da importação de serviços, a exportação de bens foi superavitária em US$ 5,859 bilhões. Tendência que já seria revertida em 2021, quando o déficit da balança foi de US$ 52,430 bilhões, tendo sido deficitária, tanto na exportação de serviços, quanto de bens.
A maior economia da Europa, a Alemanha, também vem enfrentando balanças comerciais desfavoráveis, mesmo tendo a seu favor toda a zona do euro (a União Europeia representa cerca de 67% de todas suas exportações). O principal país exportador para a Alemanha é a China (com cerca de 11%). Assim como o Japão, seus déficits maiores encontram-se na importação de serviços, porque é uma das economias mais industrializadas do planeta; por exemplo, é ainda o maior exportador mundial de carros. É, sem dúvida, o país que mais se beneficia do bloco europeu, apresentando, em alguns anos, superávit da balança comercial superior a 6% do PIB (teto para superávit segundo as regras da UE). Em 2020, foi superavitária a exportação de bens em US$ 210.206 bilhões e deficitária em apenas US$ 1,961 bilhão, no setor de serviços. Em 2021, a relação foi de US$ 211,802 bilhões a favor da exportação de bens (superávit) contra US$ 3,797 bilhões (deficitária), nos serviços. Em 2022, a balança comercial foi superavitária em US$ 83,39 bilhões, o que representa uma brusca queda.
No caso da 5ª maior economia do globo, o Reino Unido, ela também apresenta um déficit da balança comercial estrutural como os EUA, e até anterior aos EUA, em função da financeirização da economia, com menos bens produzidos e exportados do que outras grandes economias da Europa. Em 2020, o déficit da balança comercial em bens foi de US$ 230 bilhões, enquanto o superávit em serviços foi de US$ 137,7, gerando ainda um déficit geral na balança de US$ 92,3 bilhões. Como a Alemanha, a China aparece como a primeira em exportação para o país, cerca de 11%. Em 2021, o déficit em relação aos bens foi de US$ 225,597 bilhões, enquanto o superávit em exportação de serviços foi de US$ 174,619 bilhões, produzindo um déficit menor, de US$ 50,977 bilhões. Em 2022, as exportações de bens e serviços do Reino Unido totalizaram US$ 1,012 trilhão contra US$ 1,120 trilhão em importações, com mais déficit geral na balança.
Por fim, entre as maiores economias do planeta, está a da França. Como EUA e Reino Unido, também apresenta uma forte déficit comercial, tendo a seu favor uma balança de serviços, ligada ao turismo, bastante superavitária. Em 2020 e 2021, os déficits gerais da balança comercial foram parecidos: US$ 80,781 bilhões no primeiro ano da pandemia, e US$ 84,605 bilhões, em 2021. Em 2022, sofreu enormemente com a questão da Guerra na Ucrânia, vendo os custos com a a importação de energia inflar a importação geral de bens. O déficit comercial de bens, em 2022, foi de US$ 180 bilhões, uma piora que esteve quase totalmente vinculada à importação de energia, 86% do total. Se observamos o déficit de outros grandes países da Europa em relação à importação de energia, também vemos resultados bastante negativos: a Itália já tinha um acumulado de déficit na balança comercial de 2022 de US$ 34 bilhões em novembro; valor puxado por um déficit gigantesco de mais US$ 93 bilhões em importações no setor de energia.
Como se vê, quando se olha para os países burgueses mais industrializados do planeta, a tendência observada é de queda na exportação de bens de produção, resultando em balanças comerciais negativas, ano após ano. Mesmo a Alemanha, a maior beneficiada com a União Europeia e a zona do euro, encontra dificuldade em manter a balança comercial superavitária. A brusca queda em 2022 ocorreu, sem dúvida, em função da Guerra na Ucrânia, que forçou um aumento nos custos de importação de bens ligados à energia, como ocorreu com a França e a Itália. O resultado não poderia ser pior: em 2022, toda a zona do euro acumulou um déficit comercial de € 314,7 bilhões (cerca de US$ 344 bilhões) ante o superávit de € 116,4 bilhões (cerca de US$ 127 bilhões) de 2021.
Entretanto, não é só a Guerra e os custos da energia que pesaram para a Europa, há o avanço da China, que há anos ultrapassou a região. Em 2021, por exemplo, o superávit comercial da China foi de US$ 676,43 bilhões e, em 2022, de US$ 877,6 bilhões. Nem a pandemia do coronavírus ou a Guerra na Ucrânia impactaram nos resultados das balanças comerciais da China. Mesmo a Rússia, enfrentando fortes sanções econômicas em 2022, teve uma balança positiva. Seu superávit aumentou 1,7 vezes ao longo do ano, para um recorde de US$ 333,4 bilhões. O total de exportações chegou a US$ 591,4 bilhões, um aumento de 19,9% em relação a 2021. Isso porque a queda de 35% nas exportações para os EUA, e de 80% para o Reino Unido, por exemplo, foram compensadas pelo aumento de comércio com Índia (310%), Turquia (200%) e China (64%). A China tornou-se a segunda maior parceria comercial da Rússia. E, se olhamos para a Europa, vemos que a China também já é a segunda maior parceira comercial: ultrapassou os EUA em 2020, quando totalizou € 586 bilhões contra € 555 bilhões dos EUA, na soma de exportações e importações. Se observamos o gigante econômico que é o Japão, apesar da estagnação, a China também aparece como o maior parceiro comercial desde 2007, quando ultrapassou os EUA. O valor de exportações e importações entre Japão e China, excluindo Hong Kong, chegou a US$ 214,62 bilhões entre março de 2006 a março de 2007; no mesmo período, o comércio entre Japão e EUA chegou a US$ 212,51 bilhões.
Estes números das balanças comerciais, e das parcerias comerciais, podem ser facilmente explicados quando se olha para a produção industrial mundial. Os dados mais recentes, de 2021, revelam que os cinco principais países, na exportação, são, em ordem decrescente: China, com 30,45%; EUA, com 16,76%; Japão, com 7,01%; Alemanha, com 4,76%;e Índia, com 3,16%. Em relação à produção mundial, a China continua liderando com 18,43%, seguida pela Alemanha, com 8,60%, EUA, com 8,07%, Japão, com 3,90% e Hong Kong, com 3,67%.

Algumas conclusões

Os déficits comerciais exigem uma diminuição das reservas entesouradas pelos Estados ou levam a um maior endividamentos deles. A médio e a longo prazos, significam um estrangulamento do investimento estatal, que dispõe cada vez menos de recursos para emprestar, e exige, igualmente, uma elevação das taxas de juros para captação de mais recursos (aumentando a Dívida Pública). As taxas de juros, por sua vez, nacionalmente, encarecem a produção interna, diminuindo ainda mais a possibilidade de investimento. É contra esta rota de colisão que se insurgem as frações dos governos imperialistas quando se lançam na guerra comercial e impulsionam as tendências bélicas.
Na próxima edição deste estudo, desenvolveremos a questão das Dívidas Públicas e seu impacto em relação as diretrizes políticas do imperialismo. No momento, o que se pode extrair destes desequilíbrios comerciais mundiais é os países imperialistas precisam destruir as forças produtivas, a indústria de países como a China e a Rússia, para fazer frente à crise atual das principais economias do globo.

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