
O Internacionalista n° 4 / INTERNACIONAL / junho de 2023
Argentina
Governo argentino cada vez mais submetido ao FMI
No dia 15 de maio, o governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner (ainda que esta tenha críticas àquele) apresentou um pacote de medidas econômicas, com o objetivo aparente de conter a inflação, que já chega a 108%, nos últimos doze meses, e subsidiar produtos alimentícios para a população mais pobre.
As medidas anunciadas no dia 15 foram precedidas de negociações com o FMI no início do mês, para que o organismo internacional fizesse a liberação de desembolso para o país, no valor de US$ 10,64 bilhões, entre junho e dezembro deste ano, já que, em função de uma seca que prejudicou a exportação de grãos, e uma corrida cambial que vem desde 2022, o país sofre com um esgotamento das reservas em dólar.
Para atender ao FMI, o governo, mais uma vez, aumentou a taxa básica de juros, que já está em 97% ao ano. O objetivo da medida é captar recursos de “investidores” (especuladores) e, assim, dar maior autonomia para o Banco Central Argentino intervir no câmbio da moeda, impedindo a desvalorização contínua do peso e a saída de mais reservas de dólar.
Como o aumento do juros é altamente impopular e tem efeitos recessivos imediatos em um país semicolonial, o governo também lançou duas medidas de intervenção para tentar conter esses efeitos. A primeira é diminuir a taxa de juros do programa “Ahora12”, que permite compras parceladas, de produtos do varejo e de alguns serviços. Isto é, busca garantir que a pequena burguesia continue com alguma atividade econômica, embora os dados revelem que a classe média, no país, só vem diminuindo, desde 2019, enquanto a pobreza tem crescido. Os dados de 2021 mostram que havia caído, de 51% para 45% (vivendo com renda entre US$ 17 a US$ 70 por dia), e que os pobres já eram 42% da população, sendo que 10,5% vivia na indigência.
Para amenizar a situação da miséria, o governo então lançou a segunda medida, por meio do Ministério do Comércio Interior, que busca baixar o preço de produtos in natura (frutas, verduras, legumes, carne) e secos não perecíveis (alimentos de primeira necessidade). Para isso, o Mercado Central buscará importar alimentos, e assumir o papel de importador interno, para garantir taxa zero. A medida, que pesará nas contas do governo, serve como um contraponto para balancear o desgaste neste ano eleitoral.
Sabemos que, nem a intervenção contínua no câmbio, nem medidas de incentivo ao consumo interno, poderão reverter as tendências mais gerais da inflação (importada pelo país, tanto nas transações de produtos quanto de capitais), e de recessão (colocadas também em um quadro mundial). A aposta do governo é que funcionem para os próximos meses, e permita a manutenção da frente eleitoral, mesmo que Fernández e Kirchner não sejam candidatos, dada a impopularidade geral. De qualquer forma, qualquer novo governo estará ainda mais submetido ao FMI e às políticas de austeridade fiscal, que agravarão a crise interna, e potenciarão a luta de classes, com maiores choques de setores das massas com qualquer governo de plantão. As massas oprimidas argentinas não encontrarão em nenhum outro governo burguês, como não encontraram no atual, qualquer possibilidade de solução de seus problemas mais sentidos. Diante da aproximação da disputa eleitoral burguesa, os exploradores farão de tudo para arrastá-las para o engodo das eleições. É preciso se opor a esse caminho de derrota e frustração certas, organizando e unificando as massas sobre a base de uma plataforma de reivindicações, erguidas e defendidas por meio dos métodos próprios da luta de classes e com real independência de classe diante da burguesia, de seus partidos e instituições.
