
O Internacionalista n° 5 / INTERNACIONAL / julho de 2023
França
Mais uma revolta contra a impunidade e o Estado policial
Em 27 de junho, Nahel, jovem de ascendência norte-africana, foi executado por um policial. Segundo o informe da polícia, foi parado por uma blitz de controle de trânsito sem carteira de motorista e em carro alugado, e constando que o policial decidiu atirar no rapaz após este “tentar jogar o carro” contra ele. Em um vídeo publicado após sua execução, se ouve o policial ameaçar de morte o jovem pelo lado do carro, enquanto aponta com sua arma e atira à queima-roupa, quando o jovem liga o carro. Após desmontada a mentira da polícia, o alto mando prendeu o policial e um fiscal decidiu processá-lo por homicídio.
A população francesa revoltou-se contra a execução. Protestos massivos e radicalizados deflagraram em Paris, Marselha, Toulouse e quase todas as cidades importantes da França, exigindo justiça e o fim da violência policial contra pobres, imigrantes e trabalhadores (Nahel era entregador por aplicativos). Barricadas foram erguidas nas ruas e sedes de bancos, e lojas de artigos de luxo foram destruídas. Centenas de carros e ônibus foram queimados. 119 prédios públicos (34 prefeituras, 28 escolas e 57 propriedades particulares) foram parcialmente destruídos ou queimadas suas instalações. mais de 6 mil manifestantes foram presos, e várias centenas de feridos, dentre eles mais de cem policiais.
A radicalização dos protestos expõe a revolta das massas contra a permanente violência estatal desfechada contra a população pobre, e o racismo que permeia as instituições. Repetem-se, ano após ano, os atos discriminatórios contra imigrantes, estrangeiros, negros, árabes e judeus. Perseguições, assédios, detenções arbitrárias, vexames e execuções são constantes. Em 2005, dois jovens africanos (Bouna Traore y Zyed Benna) foram executados pela polícia. Anos depois, foi humilhadoThéodore Luhaka (22 anos), espancado e estuprado com um cassetete por policiais. Esses casos foram amplamente divulgados, mas, todos os dias, trabalhadores e desempregados imigrantes e de diferentes origens nacionais sofrem da violência estatal e policial. A mesma que é descarregada sobre a classe operária e demais assalariados, quando lutam pelas reivindicações e direitos contra a burguesia.
A França tem sido cenário de permanentes revoltas e levantes dos explorados e oprimidos contra a violência que se gesta em meio ao avanço da barbárie social sobre as massas e da ofensiva de contrarreformas contra direitos, salários e empregos. A permanência das condições de decomposição capitalista e suas consequências sobre a vida do proletariado, a pequena burguesia e a juventude oprimida impulsionam choques constantes contra o Estado e o patronato. Seu fundamento objetivo acha-se na contradição entre os crescentes lucros da burguesia monopolista e a crescente pobreza e miséria em que afundam as massas. O que se manifestou na explosão das greves e manifestações operárias e populares contra a Reforma da Previdência, ainda neste ano. A luta atual é uma continuidade da luta travada há semanas. E isso explica, também, porque a violência, que recai principalmente sobre a juventude oprimida e os imigrantes, é uma manifestação particular da opressão de classe que desgraça todas as classes oprimidas.
Quanto mais afunda o capitalismo francês em suas contradições, mais a burguesia monopolista é obrigada a atacar a fundo a vida das massas, e aparelhar o Estado policial para esmagar levantes, greves e manifestações. Quando Macron aplicou a reforma da Previdência via decreto, passando por cima do parlamento e sem negociar com os sindicatos, logo militarizou o país para conter os protestos massivos que explodiram, e evitar a luta das massas contra os ditames da burguesia. É parte desse objetivo proteger seus lucros parasitários e desviar recursos orçamentários dos serviços sociais para a produção de armamentos e financiamento da guerra contra a Rússia.
As tendências de alta da luta de classes no país percorrem vários anos, ainda que com retrocessos conjunturais. Em geral, comparecem como respostas a uma situação pontual ou contra medidas específicas, tomadas pelo patronato e as instituições burguesas. Mas, tendem instintivamente a se projetar como revoltas das massas contra a burguesia e seu Estado. A tarefa da vanguarda é expor o que há de comum nessas manifestações, e as bases econômicas por trás da violência estatal contra os indivíduos e os explorados em geral, e erguer um plano de reivindicações que permita às lutas particulares se fundirem em um movimento nacional e unitário dos explorados contra seus exploradores, unificando a luta contra o Estado policial à luta pela derrubada das contrarreformas e do militarismo imperialista.
Pela vitória da juventude francesa em luta, e pela derrota militar da OTAN!
