
O Internacionalista n° 5 / INTERNACIONAL / julho de 2023
Peru
A burguesia imperialista e peruanas objetivam fortalecer o governo imposto como instrumento de seus interesses
6 meses se passaram desde o golpe institucional contra Castillo. A presidente imposta, Dina Boluarte, apesar de desaprovada por 80% da população, continua governando com apoio da fração direitista que controla o Parlamento e das Forças Armadas, responsáveis por“execuções extrajudiciais” de 70 manifestantes, que tombaram assassinados, quando saíram enfrentar o golpe nas ruas.
Após inúmeras promessas, o governo e Parlamento peruanos adiaram as eleições deste ano para 2026. Os golpistas usaram o argumento democratizante das eleições para justificar a imposição de um governo preposto e um regime político de exceção, após a destituição de Castillo, acusado de corrupção. Esse adiamento deixa claro que o objetivo da grande burguesia (interna e externa) é o de consolidar e fortalecer o governo preposto para, assim, impor seus interesses mais gerais. E deixar uma estrutura jurídica e econômica já armada, que condicione e restrinja o próximo governo eleito. Como acontece também no Equador, a burguesia objetiva acelerar as mudanças econômicas e jurídicas favoráveis à espoliação das riquezas do país pelo capital monopolista, e impulsionar ataques à vida das massas. É parte desse objetivo, alinhar completamente a diplomacia peruana à política exterior norte-americana.
É o que se constata com a ruptura das relações diplomáticas entre Peru e Colômbia, Nicarágua e Venezuela. Ou ainda nas relações com México e Argentina, que atingiram seu ponto mais baixo. Esses países servem em maior ou menor grau ao expansionismo da influência e dos interesses (econômicos, militares e geopolíticos) da burocracia estatal chinesa. Não por acaso, as medidas diplomáticas peruanas foram elogiadas pelos EUA, uma vez que, apoiando o governo preposto, consegue dar mais um passo em direção de seu objetivo de enfraquecer ou bloquear o avanço da China na América Latina. É parte desse objetivo, a aprovação da entrada de tropas dos EUA no Peru para realizar exercícios “antiterroristas” conjuntos com as Forças Armadas nacionais.
A experiência histórica e da luta de classes no continente ensina que são as massas oprimidas que se rebelam e insurgem contra os governos pró-imperialistas, elas são o principal alvo dessa “manobra conjunta”. Basta ver o exemplo de usar Honduras como base de operações para atacar a Revolução Nicaraguense. Por sua vez, a militarização interna do país e os massacres de manifestantes, visando ao abortao da revolta das massas contra o golpe, tem esse mesmo objetivo geral: impedir que as massas deem passos na luta de classes, e se encaminhem instintivamente pela via revolucionária. Mas, como também demonstrou fartamente a experiência histórica, não basta a repressão para abortar a luta de classes. Ainda estão presentes na memória da burguesia os poderosos levantes operários e populares de 2019, no Equador, Chile, Colômbia e Peru, derrubando governos e impondo reivindicações (ainda que limitadas). No Peru, em 2020, a burguesia nacional enfrentou uma crise de poder e uma luta radicalizada e nacional das massas contra o regime burguês. As massas em luta derrubaram quatro governos em duas semanas. As condições que impulsionam esse levante não foram apagadas. A crise econômica continua desgraçando as massas, e o governo realiza ataques após ataques contra suas condições de vida. Permanece, todavia, a massiva desaprovação popular ao Parlamento (91% desaprova tudo o que foi feito por ele nos últimos anos). Isso explica porque foi aprovado, pelo Ministério Público do país, um processo contra Boluarte, por suposto “delito de genocídio, homicídio qualificado e danos graves”. Sabemos que o avanço desse processo dependerá, em última instância, do que decida o imperialismo. Até agora, mostrou-se firme em seu apoio ao governo. Mas, a cartada da destituição de Boluarte poderá ser usada, caso sua permanência agrave a crise, e seja necessário desviar as massas dos saltos na luta de classes.
Enquanto a burguesia imperialista e as frações oligárquicas peruanas manobram e ensaiam como impor seus objetivos, as massas continuam mobilizadas em choque contra o governo preposto, o Parlamento e as instituições do Estado burguês. Comitês de 13 estados, e com aprovação unânime de mais de 500 mil pequenos camponeses, junto a organizações sindicais operárias, estão convocando a “Terceira tomada de Lima”. Convocada para 19 de julho, a mobilização é apoiada publicamente por inúmeros assalariados, juventude oprimida e pequenos comerciantes, por todo o país. O programa comum e nacional das mobilizações é: 1) imediata renúncia de Boluarte, 2) fechamento do Congresso, 3) imediata convocação de eleições e 4) Assembleia Constituinte. Esse “programa mínimo” impulsiona a luta radicalizada das massas contra o governo, o Estado e suas instituições. Foi graças à implementação desse programa que Castillo se elevou à presidência do país. O trágico curso de seu governo e sua impotência em democratizar o Estado, impedir novos golpes de Estado, subordinar as pressões do imperialismo e da direita à “soberania do voto”, demonstrou claramente que não há como a democracia e as instituições burguesas servirem para melhorar suas condições de vida ou libertar o país da opressão imperialista. A desagregação do capitalismo obriga à burguesia avançar na destruição das ficções democratizantes, e dar passos à centralização ditatorial das instituições, para avançar na ofensiva contra a vida das massas, para impor seus interesses de classe. A militarização do país e o adiamento das eleições são uma prova conclusiva dessa avaliação. Por sua vez, as massas oprimidas não têm outra opção que continuar desenvolvendo os métodos da luta de classes, para se defenderem dos ataques e impor suas reivindicações mais sentidas. Sem nunca defender a democracia burguesa e suas instituições, os revolucionários impulsionam a luta das massas e combatem junto a elas pela sua vitória contra o Estado, a burguesia e o imperialismo, sem deixar de apontar a limitação dessas reivindicações. É acompanhando a evolução política em cada fase dessa luta, e sua experiência prática, que se erguerá o partido-programa e se desenvolverá a estratégia revolucionária.
