
O Internacionalista n° 5 / INTERNACIONAL / julho de 2023
Rússia
O motim aventureiro do grupo paramilitar Wagner se chocou de frente com a elevada centralização da burocracia e, sem qualquer ganho, dissolveu-se rapidamente
O motim militar da empresa de mercenários Wagner, que objetivava derrubar o alto comando das Forças Armadas Russas, foi rapidamente desmantelado e abortado, um dia após o grupo, liderado pelo oligarca Yevgeny Prigozhin, tomar o comando Sul do exército russo na cidade Rostov-on-Don, ao sul da Rússia. Assim terminava a aventura de um ex-aliado do presidente Putin, que pretendia a destituição do Ministro da Defesa, Sergei Choigu, e do chefe do estado maior, Valeri Gerasimov.
Para compreender o conteúdo social e político do motim, assim como suas possíveis consequências, é necessário explicar a origem do grupo Wagner (empresa especializada em intervenções militares) e sua expansão parasitando os recursos e financiamento estatais. Ou seja, os laços econômicos e políticos constituídos entre a alta cúpula da burocracia estatal russa e Prigozhin, e dessa forma entender o fundamento de por que essas relações foram dinamitadas, e empurraram o empresário da guerra ao motim aventureiro. Será possível, então, compreender as relações históricas, econômicas e políticas que se manifestam no curso dos choques do grupo Wagner com a burocracia durante a guerra na Ucrânia.
Um oligarca forjado pelas mãos da burocracia
Prigozhin é um oligarca que usufruiu durante anos de bilionários contratos com o Estado, parasitou o orçamento estatal e os recursos militares, para constituir seu império comercial. Após sair do cárcere por roubo, abriu um restaurante, do qual era freguês (na década dos anos 1990) o Conselheiro do prefeito de São Petersburgo, Putin. Eleito presidente, Putin permitiu ao empresário gastronômico ampliar seus negócios, assinando com ele um contrato para prover refeições e alimentos para o Kremlin. Com a expansão dos negócios – e cada vez mais dependente dos ditames da alta cúpula da burocracia estatal russa – “ganhou” uma licitação para prover merenda escolar e refeições para o exército russo.
Foi essa relação umbilical com a burocracia estatal que lhe permitiu ampliar seu poder econômico. Com a fundação da empresa Wagner, dedicada à prestação de serviços de proteção e operações militares especiais, esses interesses projetaram-se em nível internacional. O estado fechou vários contratos com Wagner, para intervir militarmente na Síria e em diversos países da África. O Kremlin utilizava aos mercenários de Prigozhin naquelas “tarefas sujas”, nas quais o Estado não podia aparecer envolvido.
Essa relação (semelhante à estabelecida por outros tantos oligarcas com a burocracia em outras “áreas”, visando a obter lucros) , outorgou a Wagner uma poderosa força de pressão sobre os governos dos países em que atuava sob ordens do Kremlin. O que permitiu Prigozhin negociar quotas na exploração de riquezas e recursos naturais contratado para proteger. Em Moçambique e Sudão, por exemplo, Wagner obteve, dos governos aliados da Rússia que ajudava a proteger, a participação nas explorações de recursos naturais (petróleo, ouro, diamantes, etc.). Mas, rapidamente começaria a se desmontar quando Prigozhin, apoiando-se no seu pequeno exército particular e confiante de seu poder e riqueza pessoal, achou que poderia impor à burocracia suas próprias ambições políticas e econômicas.
Curso de ruptura com a alta cúpula burocrática
Foi durante a batalha pelo controle da cidade de Bakhmut, quando Prigozhin começou seus ataques violentos contra Choigu e Gerasimov. Acusava-os de burocratas, preocupados com seus cargos, inoperantes militarmente, e responsáveis por milhares de mortes, por se negarem a enviar, para Wagner e as tropas russas, munições e armamentos para continuar a guerra até “levá-la a Kiev”.
A retirada de Wagner de suas posições exigiria novos esforços e tropas do exército russo, levando tempo e recursos extraordinários. O conflito foi circunstancialmente equacionado com a entrega das armas e munições pelo Ministério da Defesa. Mas, na sequência, começou a trabalhar para tirar o grupo de mercenários das posições avançadas e congelar os repasses militares e financeiros. Com a cidade sob controle russo, Wagner finalmente foi desmobilizado, e retornou a suas bases em Donetsk, sob ordens do Kremlin.
Em uma entrevista, o enviado do Alto Comando do exército, Pegov, informou Prigozhin que o Ministério de Defesa “tinha decidido não prover mais munição” ao grupo Wagner. E perguntou, por duas vezes, se isso poderia levar a medidas de retaliação. Prigozhin respondeu, também por duas vezes, que não faria qualquer mobilização de tropas, mas afirmou que o “fracasso das operações militares” deviam-se à inoperância dos “burocratas” Choigu e Gerasimov. Essa conversa traz à luz do dia que o alto comando e o governo sabiam que Wagner, reconhecidos como “heróis” da Rússia, cogitavam procurar “destituir” seus adversários pela força, e se apresentarem como “salvadores do povo russo”.
Anunciando a dissolução de Wagner e sua integração ao exército, e com os recursos financeiros e repasses de armamentos congelados até nova decisão, o alto comando do exército russo apertou o cerco. Os serviços de segurança (FSB) alertaram Putin das crescentes e desmedidas “ambições” políticas e econômicas do chefe miliciano. Mas, essa ambição chocar-se-ia contra a centralização da cúpula da burocracia, que decidiu, assim, impedir que as ambições de um oligarca ameaçassem seus próprios interesses de casta. Sem apoio do governo e acusando o alto mando de “bombardear” suas bases, Wagner se dirigiu à Rostov, e mobilizou suas tropas a até 500 km de Moscou. Putin, em coletiva de imprensa, denunciou o golpe em andamento a “serviço da OTAN”, chamou seu ex-aliado de traidor, e pediu ao exército esmagar a revolta.
Prigozhin não tinha qualquer condição militar de se impor. 20 mil soldados russos das forças de operações especiais e mais 20 mil da unidade de assalto e operações especiais Akhmat, da Chechênia, foram deslocados para esmagar e matar, se for necessário, os mercenários e seu chefe. A coluna de mercenários foi atacada em sua marcha a Moscou. Um helicóptero do exército russo foi abatido. Oito tripulantes de um avião de reconhecimento foram mortos. Isso enquanto a Força Aeroespacial russa destruiu vários equipamentos de Wagner em sua marcha a Moscou. Após 36 horas de iniciado o motim militar, Lukachensko, presidente da Bielorrússia, ofereceu uma saída negociada com Prigozhin, a pedido de Putin. A revolta militar dissipou-se tão rápido como surgiu.
O motim nada teve a ver com uma disputa interburocrática
A revolta do oligarca teve por fundamento interesses econômicos concretos. Wagner sobrevive como empresa privada graças aos recursos orçamentários estatais. Com a decisão do governo de encerrar os contratos de todas as forças paramilitares atuando na Ucrânia, se atingia a base econômica do negócio mercenário. Por sua vez, integrados os territórios do Leste à Rússia, a segurança e defesa passam às mãos das forças militares e policiais do Estado. A ação de uma empresa militar privada passa a ser considerada ilegal. Também o grupo Wagner deve se dissolver no exército. Mas, se dissolver significa para o oligarca desistir da fonte de recursos que lhe permitiu construir um instrumento objetivo de pressão (militar) para manter seus lucros e negócios particulares nos territórios nos quais atua. A retórica da “justiça” e da luta contra os “burocratas ineptos” apenas acobertou a tentativa de um oligarca defender essa fonte de lucros. Isso descarta, de um só vez, os delírios de que o motim expressaria uma fratura no interior da burocracia.
A decisão do governo em retirar os cargos de traição contra o chefe miliciano não é um sinal de fraqueza, mas um cálculo político. O esmagamento de Wagner aconteceria, mas ao custo de centenas de mortes de militares e civis. A proposta de extradição e retirada de cargos de traição contra os mercenários e seu chefe é parte dessa decisão. Porém, não esgotou as vias para sua criminalização e encarceramento. No momento em que a Duma decidiu parar de financiar o grupo Wagner, decidiu também realizar uma investigação do destino e uso dos bilhões recebidos. Criando, assim, condições políticas e legais para um processo por corrupção contra Prigozhin. Como a Bielorrússia é aliada do Kremlin, e garantirá a extradição a pedido por Putin, o oligarca ainda é ameaçado pelo retorno ao cárcere, após décadas de serviço ao Kremlin. Os próximos passos da burocracia, quaisquer sejam eles, acontecerão quando dissolvido o Wagner e “estatizados” seus recursos materiais e humanos.
Um oligarca sem poder para se impor à casta burocrática
Ainda que tenha bilhões na conta do banco,, ou que participe como acionista na exploração de jazidas e riquezas naturais dos países aos quais aluga os serviços de seu exército privado, a força econômica e militar do oligarca Prigozhin em nada se compara à colossal potência material e econômica das forças produtivas desenvolvidas sob a forma da propriedade nacionalizada pela revolução proletária; portanto, não tem como enfrentar a casta burocrática que parasita dessa propriedade, e controla um poderoso e moderno exército, com inúmeros recursos militares. Como assinalava Trotsky, as riquezas pessoais em nada se comparam à riqueza social criada pela propriedade nacionalizada. Portanto, o poder do oligarca é ínfimo perante o da burocracia, que se sustenta sobre essa base, e que pode selar odestino pessoal do líder mercenário quando ele fugir ao seu controle. Inúmeros suicídios e assassinatos de empresários e funcionários (alguns muito mais ricos e poderosos que Prigozhin), o demonstram.
Quanto mais próximo acha-se o impasse na situação de guerra, sempre e quando se garantam os objetivos da burocracia (manter o Leste ucraniano e a Crimeia como territórios russos), menos necessária será uma milícia privada que é utilizada apenas para fins militares. E mais intolerável se tornam para a burocracia as ambições de um oligarca. É muito provável que Prigozhin desejasse levar a guerra até Kiev, criando condições para obter novos “contratos”, impor mais recursos, etc. E quanto mais esse grupo de mercenários estivesse confiante de sua força, mais perigo representaria à burocracia, e mais se orientaria a procurar ser independente dela.
Em momentos de perigo, quando a existência da burocracia como casta está em risco, ela procura disciplinar suas disputas e equacionar suas divergências (que existem e são violentas), o faz empiricamente, impulsionada pelo instinto de preservar suas condições de existência e sua fonte de poder e ganhos. Isso também assinalou Trotsky, repetidamente. Eis porque é tragicômico observar os malabarismos retóricos de jornalistas e correntes políticas (que abusivamente se denominam trotskistas) em caracterizar a saída negociada entre Prigozhin e Putin como sinal de fraqueza deste.
A oligarquia burguesa russa não se manifestou a favor da tentativa golpista. A burocracia estatal cerrou fileiras com o governo. A Duma (Congresso) anunciou que cessou todos os contratos com Wagner. Não houve manifestações de massas em apoio aos rebeldes. Sem qualquer base social, política e militar para impor suas condições à burocracia, o grupo Wagner e seu líder decidiram aceitar a proposta do governo, desmobilizar suas forças e aceitar a extradição de Prigozhin para a Bielorrússia.
O essencial a ser compreendido
A burocracia evita levar seu enfrentamento com o imperialismo até as últimas consequências. Sempre procura as negociações e a “coexistência” com aquele. Basta-lhe conservar o poder e controle sobre o Leste ucraniano como garantia circunstancial de sua segurança a seus objetivos nacionais. Procura sempre uma saída diplomática para preservar seus interesses de casta. Daí que não tem qualquer intenção de impulsionar a luta das massas contra a opressão imperialista e não promove a luta insurrecional do proletariado e dos oprimidos contra o governo pró-imperialista de Kiev e o imperialismo. Essa é a principal contradição em que está metida: precisa defender as bases materiais de seu poder político e econômico, e o faz empiricamente; mas, por sua natureza de expropriadora do poder proletário e seus métodos burocráticos militares alheios às massas, não pode ser consequente na luta contra a burguesia mundial. Sua natureza contrarrevolucionária a coloca na condição de inimiga da revolução mundial. Ainda que triunfe na Ucrânia, será uma vitória circunstancial. Somente a derrota do imperialismo em todas as partes, a ascensão da revolução mundial, poderá garantir a paz entre os povos.
O poderio alcançado pelo grupo Wagner demonstra que a burocracia também cria, permanentemente, instrumentos e meios da destruição da maior e fundamental conquista revolucionária do proletariado: a propriedade estatizada, ao agravar as disputas intestinas pelo poder, servir de esteio aos oligarcas, e agir como uma casta totalitária. Porém, nossa defesa da Revolução Política contém a defesa do Estado Operário e da propriedade nacionalizada. Não consideramos como “progressista” qualquer disputa que pudesse levar a uma guerra civil que destruísse as bases econômicas sobre as quais ainda se apoia a possibilidade objetiva da transição para o socialismo.
O proletariado russo nunca deve apoiar ou ajudar seus inimigos de classe (imperialismo e oligarcas) para cumprir a tarefa da derrubada da burocracia reacionária. Ameaçada a propriedade estatizada, como aconteceu com o motim do Wagner, os marxistas se colocam pela derrota do motim aventureiro dirigido por um oligarca, sem nunca apoiar a burocracia, sua política contrarrevolucionária e seus métodos.
