
O Internacionalista n° 6 / agosto de 2023
Editorial Internacional
Avançam as contradições entre as economias das potências imperialistas em decadência e as economias nacionalizadas dos estados operários degenerados
O novo ataque da OTAN a uma ponte que liga a região da Crimeia à Rússia continental levou imediatamente à suspensão do acordo que permitia a exportação de grãos ucranianos pelo Mar Negro. Ainda em resposta ao ataque, a Rússia bombardeou infraestruturas militares, portos, silos e plantações ucranianas. O trigo e o milho tiveram alta no mercado internacional, favorecendo a própria Rússia, exportador desses grãos. A imprensa pró-imperialista fez campanha contra a Rússia, afirmando que haveria fome por causa da não renovação do acordo. Apenas convence os ignorantes, que não sabem que 90% do trigo ucraniano vai para os países mais ricos. E que a Rússia forneceu 12 milhões de toneladas de trigo a países africanos, só no ano passado. Este ano, já ultrapassou os 10 milhões, e prometeu entregar trigo gratuitamente aos países mais pobres.
A contraofensiva prometida pela OTAN configurou um tremendo fracasso. Os tanques alemães Leopard, e estadunidenses Bradley, são abatidos facilmente, a cada dia. A captura de armas da OTAN pelos russos lhes permite conhecer sua eletrônica e sistemas de navegação, para aprimorar as defe sas contra elas , ainda que sejam armas de décadas atrás. Mísseis supersônicos russos ultrapassam os lançadores antimísseis ocidentais todos os dias, atingindo alvos a 2 mil km do lançamento. Há 900 tanques russos perto da fronteira ucraniana e da cidade de Kharkiv.
Fora da Ucrânia, a China faz exercícios militares conjuntos com navios russos no Pacífico. A Coreia do Norte avança na construção de mísseis intercontinentais, certamente com apoio russo e chinês. A China iniciou a sua resposta às sanções ianques, com a suspensão do fornecimento de terras raras aos países da OTAN.
Os EUA têm realizado manobras aéreas provocativas, sobre o Irã e a Coreia do Norte. Um jornal britânico mostrou que os EUA não suportariam por mais de uma semana uma guerra com a China, pela escassez de armas navais. A China tem hoje uma frota marítima maior e mais equipada que os EUA.
Na Rússia, Vladimir Putin conseguiu realizar seu encontro de cúpula com os governos da África. A construção de grandes obras no continente e o auxílio russo na extração do petróleo aproximam esses países da Rússia, distanciando-os dos EUA.
Prossegue a guerra civil no Sudão, que tem por trás os EUA e a Rússia. O golpe no Ní ger, dias antes da cúpula em São Petersburgo, derrubou o presidente apoiado pela França e pelos EUA. Manifestantes pró-golpe diante do palácio do governo portavam bandeiras da Rússia. Todas as potências se perfilaram na defesa do governo deposto, bem ao contrário do que fizeram em relação ao golpe no Peru ou ao fechamento do Congresso no Equador. Embora não digam, a democracia é relativa também para elas.
No Peru, as potências sustentam o governo golpista, e enfrentam as massas em movimento, que exigem, ora a antecipação imediata das eleições, ora a libertação e volta ao poder de Castillo. No Equador, pressionam para que o presidente aplique as reformas enquanto pode, porque pode ficar sem apoio do futuro governo a ser eleito.
Na Guatemala, as pressões externas garantiram o candidato do imperialismo ianque no 2º turno, passando por cima da decisão do Tribunal Eleitoral de lá, que permitiria que o 3º colocado, ligado ao atual governo, participasse. Para tal, a polícia federal foi acionada e invadiu o Tribunal que desagradava aos EUA.
Em Israel, Netanyahu conseguiu fazer aprovar a primeira parte de sua reforma judiciária, que lhe dará poderes ditatoriais para se impor sobre o judiciário e esmagar as revoltas palestinas. Isto, apesar de grandes e sistemáticas manifestações de massas contra a reforma. O governo sionista conseguiu fazer com que o governo da Autoridade Palestina prendesse lideranças das facções mais radicais islâmicas. Isto, depois de invadir e matar dentro de um campo de refugiados palestino. Os EUA revelaram preocupação de que uma maior repressão aos palestinos afaste ainda mais os países árabes, que se aproximam de Rússia e China.
Estamos diante de conflitos que podem se generalizar pelo mundo, configurando uma guerra mundial, ainda que não declarada. Por trás dos golpes, das eleições, dos tratados e da ruptura deles, estão de um lado as potências imperialistas, e de outro, os estados operários degenerados. A situação se assemelha em grande medida àquela vivida às vésperas da 2ª guerra mundial. A grande diferença é que, naquele momento, os EUA compareciam como potência mundial ascendente, apesar de suas crises. Hoje, tanto os ianques como as potências europeias e o Japão, comparecem como potências em declínio. As economias nacionalizadas, apesar das burocracias contrarrevolucionárias, entram como força ascendente. Sua ascensão se explica em grande medida pelo processo de desindustrialização das potências imperialistas, cada vez mais reduzidas a sedes de capital parasitário. O avanço de um lado corresponde ao retrocesso do outro, confirmando a tese leninista de que, sob o capitalismo em decomposição, só pode haver avanço das forças produtivas em uma região à custa de retrocesso em outra.
É preciso notar, porém, que as economias de Rússia e China estão inseridas num mundo capitalista. O crescimento econômico sobre essa base leva a que assimilem as crises próprias do capitalismo, já inicialmente sentidas na China, em setores como construção civil, por exemplo. As economias nacionalizadas possuem um enorme potencial de desenvolvimento, mas em última instância dependem do avanço da revolução mundial socialista, hoje estagnada. As burocracias dirigentes de Rússia e China, por se apoiarem apenas na necessidade de preservar sua fonte de poder e ganhos, são incapazes de levar adiante essa tarefa. Procurarão sempre a via do acordo com o imperialismo, ainda que este esteja em decadência. Os momentos de paz serão apenas intervalos entre as guerras. A crise de direção revolucionária do proletariado se mostra concreta diante dessa situação. Sem o partido da revolução mundial, e sem o avanço da revolução socialista internacional, não será possível alcançar a paz e o desenvolvimento que permita eliminar o sofrimento social das massas. É por isso que nossa tarefa central reside na construção do partido proletário internacionalista, que terá de se construir sobre a base da experiência acumulada em teoria, programa e métodos, da luta do proletariado mundial.
Neste momento de guerra entre a OTAN (usando a Ucrânia como enclave militar) e a Rússia, o interesse do proletariado mundial está na preservação das conquistas da revolução russa, e também a chinesa. Essas conquistas são a nacionalização dos ramos fundamentais da economia, que permanecem sob controle do Estado operário degenerado. Por isso, cabe se colocar na defesa da DERROTA MILITAR DA OTAN, uma derrota do imperialismo mundial, e ao lado da Rússia, sem apoiar politicamente seu governo ou seus métodos burocrático-militares. A derrota do imperialismo interessa diretamente ao proletariado mundial, no caminho da revolução mundial socialista.
