
O Internacionalista n° 6 / INTERNACIONAL / agosto de 2023
Eleições na Espanha
Direita e esquerdas burguesas não alcançam maioria para formar o novo governo burguês
O resultado das urnas, em 23 de julho, surpreendeu os comentaristas burgueses, em relação à indefinição colocada para o comando do Estado espanhol. As pesquisas de opinião, bem como a maior parte da mídia burguesa, dava como certa a vitória do Partido Popular, de direita, nas eleições gerais. Houve a vitória apertada do PP, mas com um resultado inferior ao que esperava, assim como ao que teve a ultradireita – o partido Vox ficou com 19 deputados a menos, apenas 33, de modo que a unidade entre os dois partidos de direita ainda não levaria à maioria para garantir o comando do Estado, pelo primeiro-ministro, hoje do Partido Socialista, PSOE. Em tese, para comandar, é preciso 176 cadeiras; o conjunto das esquerdas alcançou 172 e a direita, 171. Tanto a “esquerda” quanto a “direita” burguesas dependem de um acordo com grupos separatistas da Catalunha para obter maioria.
A “derrota” da direita e a “indefinição” do comando do governo não são, de fato, surpreendentes. Há um processo contraditório em relação à política burguesa, que apenas em sua manifestação mais aparente “surpreende”. De um lado, há um processo objetivo de direitização da burguesia mundial, que se manifesta em mais uma rodada de contrarreformas, como a que se iniciou com o governo de Macron, na França, e a imposição da reforma das aposentadorias, na adoção de políticas de maior austeridade fiscal para beneficiar o pagamento de juros das Dívidas Públicas (por governos de “esquerda” ou de “direita” em todo o planeta), e no aumento do orçamentos militares nos principais países imperialistas, incluindo a própria Espanha, que havia anunciado em 2018 que aumentaria em 73% este orçamento, em seis anos. De outro, há uma propaganda mundial do imperialismo para fortalecer a “democracia” representativa, que se apresenta como “temerosa” em relação ao aumento dos partidos da ultradireita, e que alimenta processos de cassação de alguns de seus representantes, como Bolsonaro, no Brasil, e Trump, nos EUA. As sanções, por exemplo, contra a Hungria, dirigida por um partido da ultradireita, busca criar uma sensação de que os órgãos imperialistas temem o “desrespeito” aos direitos humanos e o ataque às minorias. Estes dois fenômenos, entretanto, de direitização objetiva e de “combate” subjetivo ao fascismo não são realmente opostos. A tendência objetiva se impõe mesmo e, sobretudo, a partir dos governos ditos de “esquerda” ou “democráticos”, que resultam de frentes amplas, como no Brasil ou na França. O aumento dos orçamentos militares, por exemplo, os quais chegaram a mais de US$ 2 trilhões, em 2021, revela que diferentes governos impulsionam as tendências bélicas pelo mundo, do mesmo modo que garantem a política do capital financeiro, estrangulando os serviços sociais em favor do pagamento dos juros das dívidas, sejam em países como Argentina ou Brasil, seja em países como Inglaterra ou Espanha.
A “indefinição” quanto ao futuro do governo espanhol revela, mesmo com as distorções próprias de todo processo eleitoral burguês, que as massas do país não encaram os diferentes partidos como essencialmente distintos. A discussão sobre o aumento do PIB, impulsionado pelas exportações, assim como a diminuição do desemprego e da inflação, levantada pela ala governista, não pode convencer a maioria nacional, que sofre com a inflação nos produtos básicos da alimentação e dos combustíveis acima de 10%, ou com a queda na renda per capita, mostrando um empobrecimento geral da população.
A possibilidade de ocorrer um novo pleito não está descartada, se não houver um bloco majoritário para assumir o comando do Estado. Com novas eleições ou com os acordos para garantir um governo da “direita” ou da “esquerda”, o certo é que o programa que tem dirigido o Estado espanhol continuará vigente. No final de março, foi aprovada uma nova Reforma da Previdência no país, que aumentou também a idade de aposentadoria para os próximos anos, e as alíquotas de arrecadação. Madri sediou, em junho de 2022, a cúpula da OTAN, que demarcou a nova política bélica do imperialismo para o conjunto do globo, e com uma diretriz para cercar a China e conter a Federação Russa. Logo, não importa qual será o novo governo burguês saído das eleições: a direitização da burguesia, o domínio do capital financeiro, e suas tendências fascitizantes continuarão vigentes e em curso.
É preciso que as massas espanholas, que sua classe operária, levante um programa de oposição revolucionária ao novo governo burguês, partindo da necessidade de combater a inflação por meio da escala móvel de reajustes, por meio da defesa do emprego a todos, de derrubada das contrarreformas, de não pagamento da Dívida Pública, de não apoio à guerra da OTAN na Ucrânia. Estas são reivindicações imediatas, que devem servir para impulsionar a luta contra os governos e os capitalistas e garantir a independência de classe das massas exploradas na Espanha, colocadas, agora, sob a ilusão de “escolha” do novo governo burguês de plantão.
