
O Internacionalista n° 6 / INTERNACIONAL / agosto de 2023
Peru
Balanço das mobilizações no Peru
No dia 19 de julho, ocorreu em todo o Peru a mobilização chamada de “Terceira tomada de Lima”. O movimento, agora organizado pelo Comando Nacional Unitário de Luta (CNUL), mobilizou milhares de manifestante em todas as regiões do Peru, tendo sido mais forte nos Estados no sul do país, principalmente em Puno, Arequipa e Apurímac, onde predominam o campesinato e as nacionalidades indígenas.
As bandeiras aprovadas pelo CNUL são: renúncia de Dina Baluarte, fechamento do Congresso, novas eleições gerais, Assembleia Constituinte, retirada das tropas norte-americanas do Peru, e punição aos responsáveis pelas dezenas de militantes mortos nas manifestações do início do ano.
Resposta do governo
O governo golpista de Dina Baluarte organizou um forte aparato repressivo para conter as manifestações. Ainda no início do mês, anunciou estado de “emergência nacional de saúde” por 90 dias, para supostamente conter a propagação da síndrome de Guillain Barré. As medidas implicavam em bloqueios policiais e das forças armadas nas principais rodovias do país.
No dia 19 de julho, havia um grande efetivo de Polícia Nacional (PNP), que reprimiu as manifestações quando estas se aproximavam do Congresso Nacional. Dezenas de manifestantes ficaram feridos, e houve seis prisões.
Eleição da mesa diretora do Congresso é um passo na consolidação do golpe
Pouco mais de uma semana após as manifestações, no dia 26 de julho, ocorreu a eleição para a mesa diretora do Congresso para os anos de 2023/2024. Saiu vitoriosa a chapa que uniu grupos da direita tradicional (o partido fujimorista Força Popular e a Aliança para o Progresso) com a “esquerda” reformista do Peru Livre (partido que elegeu Pedro Castillo), obtendo 77 votos, contra 39 votos para a chapa de “centro-direita”.
Após a votação, três deputados do Peru Livre romperam com o partido, denunciando que houve uma traição ao movimento mais geral que ocorre no Peru, desde o golpe contra Castillo, em dezembro de 2022.
A votação da mesa diretora, ainda mais com o apoio do Peru Livre, consolida o golpe de estado, ao fortalecer a principal instituição que promoveu a destituição de Castillo. A colaboração da esquerda com o fujimorismo constituiu uma traição ao movimento que as massas erguem nas ruas.
Os limites do movimento
As massivas e radicalizadas mobilizações que chegaram em fevereiro a fazer com que o governo recuasse e passasse a defender novas eleições (o que foi na época recusado pelo Congresso) agora parecem ter chegado ao seu limite. Baluarte, mesmo com mais de 75% de reprovação popular, anunciou no início de julho que o seu mandato se estenderá até 2026.
A CNUL, em resposta, já convocou uma nova mobilização, chamada de “Marcha Nacional”, para o final de julho, quando se comemora a independência do Peru.
Apesar da massiva participação do campesinato pobre e das nacionalidades indígenas nas mobilizações, chama a atenção a ausência da classe operária organizada, com exceção do combativo setor da construção civil, presente desde o primeiro momento. No entanto, sem os operários mineiros e do setor de gás natural, principais ramos da economia peruana, ramos esses controlados pelo capital financeiro, o movimento tem encontrado sérios limites para conquistar as suas reivindicações centrais, de derrubar o governo e o congresso golpistas.
