
O Internacionalista n°6 / NOTAS NACIONAIS / agosto de 2023
Sob nova roupagem e retórica pseudo-revolucionária, o PSTU defende frentes e alianças sindicais oportunistas com setores do governismo considerados de “esquerda”
Na editorial “É preciso construir uma oposição de esquerda e socialista ao governo Lula”, publicada em 20 de julho, a bandeira “Oposição de Esquerda e socialista” é condicionada pela disputa inter-burguesa: oposição, tanto perante o governo quanto à ultradireita. Segundo se explica, “…esses dois setores têm projetos capitalistas e em defesa de setores da burguesia”. Ou seja: seria definida pela sua “localização” no espectro político, sem se confundir com a situação, nem com a oposição. Concretamente, “oposição” dentro da democracia burguesa e das instituições burguesas.
Indiretamente, o PSTU parece reconhecer isso, quando afirma: “Vivemos uma situação no país na qual parece que só existe a situação (apoio ao governo) ou a oposição (direita bolsonarista)”. Mas, isto não diferenciaria os morenistas de qualquer outra corrente que reclama para si mesma essa definição, a exemplo do PCB, MRT e grande parte das correntes do PSOL (sejam governistas ou “não-governistas”), para que não se os confunda com a “direita bolsonarista”. Daí que é necessário o complemento de “socialista”. Na conclusão do editorial, se associa esse termo ao fato de “não confiar nas instituições do regime burguês”. Até um anarquista assinaria essa declaração, sem por isso passar a ser um marxista, supondo o absurdo de acreditar que o anarquismo pudesse ser “socialista”. Assim, a formulação “conclusiva” encerra o editorial: ser “oposição de esquerda e socialista, hoje, é preparar os trabalhadores para construir um projeto de país que, de fato, atenda às necessidades da classe operária”. Somente assim, diz o PSTU, seria “possível construir uma verdadeira alternativa à atual polarização política”.
Note-se que o termo “socialista” é esvaziado de conteúdo de classe, portanto, do programa, métodos e táticas que o definem. Tampouco achar-se-á que tipo de “projeto de país” se refere o texto, ou como se chegará a ele (revolução ou eleição). Ainda que o PSTU reconheça que não se pode entender essa polarização entre situação e bolsonaristas como se tratando de posições de classes diferentes, e sim expressões da mesma classe (dos capitalistas), quando não define o conceito de “socialista” em oposição a “capitalista” revela bem mais que insuficiência da explicação teórica ou programática. Cumpre um propósito e objetivo político bem definido: aplainar a via à formação de uma oposição situada no campo eleitoral, que evita se chocar com os trabalhadores que ainda tem ilusões no governo e na democracia.
Essas reviravoltas retóricas são utilizadas para que não se os acuse de bolsonaristas, por defender a derrubada do governo burguês e instauração de um Estado operário e camponês, a ditadura proletária, como aliás faria um verdadeiro “socialista”. Eis porque sempre devem acompanhar, logo na sequência, a definição da oposição de esquerda com a declaração de que combaterão a ultradireita em defesa da democracia e do resultado eleitoral, como fizeram logo após os acontecimentos de 8 de janeiro.
Se a disputa inter-burguesa é marcada pelo choque entre frações de uma mesma e única classe, inimiga dos explorados, uma oposição a essa deve constituir suas bases sobre o programa e métodos de classe revolucionária, antagônica à burguesia, e, portanto, defender aberta e publicamente sua estratégia. O PSTU faz todo o contrário: define o conteúdo de sua “oposição” pelo seu lugar no regime burguês e dentro do quadro dos métodos democrático-burgueses. O que mostra que estamos na presença de um “ajuste da linha política” dos morenistas ao atraso das massas, e não combatendo-o, como é o dever revolucionário – apesar de ficar momentaneamente isolado. Em outras palavras: não é uma tática para se aproximar das massas por “aproximações sucessivas”; mas recorrer ao engano para favorecer interesses aparelhistas. Eis a essência da “oposição de esquerda e socialista” dos morenistas.
Retórica versus prática da Oposição de Esquerda nas organizações de massas
Na nota “59º Congresso da UNE: Um congresso burocrático e governista”, publicada em 20 de julho, a corrente Rebeldia (braço estudantil do PSTU) assinala que a atual “crise da Oposição de Esquerda” é marcada pela fragmentação que abala a “construção da unidade”. Isto porque as “diferenças” entre apoiar ou se opor ao governo impedem construir “algo conjunto no campo da OE”. E quando algo se faz nesse sentido, tratam-se de “acordos despolitizados”. Refere-se particularmente à “articulação” dos setores da “velha oposição” de esquerda, que incluía setores do PSOL, hoje na base governista.
Apesar de se referir ao Conune, a nota tem por mérito esclarecer o que o PSTU não faz: a Oposição de Esquerda “não existe” por fora das relações aparelhistas que a condicionam como oposição oportunista nos sindicatos e nas eleições. Eis: “…somos oposição de esquerda … para nos diferenciar da oposição bolsonarista” e daqueles que apoiam o “governo burguês e capitalista de Lula”. Daí que a tarefa colocada é “reconstruí-la”. Esse foi o objetivo de apresentar uma chapa para a disputa pela direção da UNE. Mas, logo se reconhece ser impossível mantê-la, havendo uma chapa de “oposição unificada”, retirando assim sua chapa e chamando votar nessa contra pecebistas e petistas. Após gritar aos quatro cantos “ou se está com o governo, ou contra ele”, a declaração de princípios foi pelo ralo, no momento da disputa eleitoral. Ambas as chapas eram governistas, só que uma apoia o governo pela esquerda (criticando suas coisas ruins) e outra o apoia mais à direita. O Rebeldia decidiu, como se vê, por aqueles que se subordinam ao governo, sob justificativa de disputarem sues rumos e favorecer sua “virada à esquerda”. Essa imposição “tática”, explicam, decorria de derrotar a UJS e o PT, por defenderem o “estalinismo”, que tantas desgraças trouxe às massas mundiais. A “tática”, assim, resume-se a trocar uma burocracia governista “estalinista” por uma burocracia governista de “esquerda” (psolista).
O conteúdo dessa tática é aplicado indistintamente, ainda que sob formas organizativas diferentes, em todas as frentes de massas. No Sinpeem, por exemplo, conformam a Oposição Unificada (chapa 2) que tem por direção política aos “governistas de esquerda”. E assim como no Conune justificam o chamado a votar por esses contra a atual direção, pelo fato de que “milhares de estudantes de base acreditam na velha oposição de esquerda”, que querem combater a UJS e PT, assim no Sinpeem participam de uma chapa que tem setores governistas em sua direção, e incluem petistas na chapa, para ajudar os milhares de professores a tirarem uma direção direitista aliada à ultradireita na prefeitura (embora também a burocracia do Sinpeem seja base de apoio do governo Lula/Alckmin).
Em ambos os casos (Conune e Sinpeem), estão presentes as justificações “políticas” que levaram o PSTU a votar em Lula/Alckmin no segundo turno. Posição que os aproxima da teoria estalinista dos “blocos”. Aquela que diz o seguinte: enfrentados dois “blocos” burgueses, é um dever se colocar do lado do “bloco progressista”, das “democracias burguesas” contra os “regimes fascistas”; da “burguesia progressista” contra a “fração reacionária”, etc. Segundo esse método dos estalinistas, o PSTU caracterizou a vitória do atual governo burguês contra a ultradireita como uma vitória dos trabalhadores, associando falsamente a vitória do “bloco burguês mais progressista” com a luta proletária pela sua emancipação.
Oposição revolucionária
A oposição defendida pelo PSTU adquiriu diferentes nomes: quando lançada a disputa eleitoral em meio às manifestações pelo “Fora Bolsonaro”, foi o de “Polo Classista”. Nas eleições, “Frente de Esquerda”. E agora, na disputa eleitoral ao interior dos sindicatos, a de “Oposição de Esquerda”. Mudou o nome, mas seu conteúdo permanece. A única novidade é o complemento “socialista” aos velhos experimentos já fracassados.
A retórica é inimiga da delimitação política e da clarificação programática. Assim, enquanto o termo “esquerda” é concreto e definido dentro do quadro do regime burguês, o termo “socialista” fica indefinido e abstrato em seu conteúdo e relações com os métodos e programa socialista. Essa é a relação estabelecida na bandeira de “oposição de esquerda e socialista”. Há quem apresenta agora uma versão esquerdizante dessa: “oposição de esquerda revolucionária”. Qualquer seja a variante defendida, se tratará sempre de uma amálgama oportunista.
A Oposição de Esquerda, pouco importa se complementada com “socialista” ou “revolucionária”, significa reeditar a já fracassada e oportunista Frente de Esquerda. Como já demonstrou a experiência das eleições de 2018 (Frente de Esquerda) e 2022 (Polo Classista), acabam no final apoiando um setor burguês (considerado mais progressista) contra outro sob o espantalho da ultradireita.
Não há como se opor ao governo sem defender um programa e métodos próprios da luta de classes. O PSTU e seu braço estudantil pretendem fazer passar por tática o que é puro oportunismo democratizante, visando a não romper com os “governistas de esquerda”, os quais necessita para reforçar seu aparelho, ganhar postos nos sindicatos e conseguir votos nas eleições burguesas.
Somente é possível essa delimitação forjando uma oposição revolucionária que impulsione a unidade na luta sobre a base das reivindicações que se chocam com o governo e os capitalistas, com organização independente e os métodos próprios da luta de classes, sob a estratégia da revolução social e do governo próprio das massas, um governo operário e camponês, a ditadura proletária.
