
O Internacionalista n° 8 / outubro de 2023
Editorial Internacional
A “desdolarização”, a revolta nos países africanos e a greve nos EUA favorecem a luta do proletariado pelo programa da revolução mundial
A “desdolarização”, a revolta nos países africanos e a greve nos EUA favorecem a luta do proletariado pelo programa da revolução mundial
O retrocesso relativo do dólar no comércio internacional, enquanto cresce o yuan como moeda de referência, é um indicador de que a guerra comercial travada pelos EUA contra a China caminha para uma situação cada vez mais desfavorável àquele.
O fenômeno da desdolarização pode ser constatado e medido em um grande volume de transações entre países por meio de outras moedas, em particular o yuan chinês, mas também em um grande volume de ouro usado em pagamentos que burlam as sanções econômicas imperialistas contra a Rússia e a China.
A “desdolarização”, ainda que atualmente limitada a 25% do comércio entre os países envolvidos com o yuan e moedas nacionais nas suas transações comerciais, é uma expressão, de um lado, do retrocesso das forças produtivas baseadas na grande propriedade monopolista privada burguesa, e, de outro, da expansão relativa das forças produtivas da propriedade nacionalizada pelas revoluções proletárias, ainda que limitadas pelas fronteiras nacionais e pelas contradições que permeiam os Estados Operários degenerados (trabalho assalariado, penetração de capital financeiro, o relação com o mercado mundial capitalista etc.), assim como pela política contrarrevolucionária das burocracias russa e chinesa.
O comércio mundial usa o dólar estadunidense como moeda de transações pelo peso da economia dos EUA no mundo. Depois da 2ª Guerra Mundial, saíram como os produtores de 42% da indústria e agricultura, e como os maiores consumidores do planeta. Boa parte de tudo o que era produzido acabava sendo comprado e consumido nesse país. Mas o esgotamento da recomposição das forças produtivas mundiais destruídas pela guerra foi levando a uma nova situação de crise geral do capitalismo. A exportação convulsiva de capitais desindustrializou a economia ianque, como fez também com Europa e Japão. A China se projetou como maior produtora mundial, ocupando os espaços deixados pelas potências, e alcançou a marca de 31% da produção industrial global. Passou a ser a principal consumidora de matérias-primas, e grande exportadora de produtos industrializados. Essa condição estabelece novas bases comerciais entre os países, enfraquecendo o uso do dólar e potenciando a moeda chinesa e de outros países que se relacionam comercialmente. O resultado disso é que o uso do Swift de pagamentos em dólar, pelo qual os EUA se apropriavam de parte da mais-valia transferida de um país a outro, se reduz a cada dia. O que também agrava a situação econômica da maior potência.
As sanções comerciais contra a China e Rússia também afetam nesse processo. Como existe uma dependência geral de produtos e matérias-primas desses dois países, estabelecem-se mecanismos de burla das sanções. Especialmente, utiliza-se o pagamento em ouro, que contorna o controle ianque de transações em dólar. Para se ter uma ideia, o equivalente a cerca de metade de todo o ouro acumulado nos EUA foi usado em 2022 para pagamentos de transações comerciais internacionais, a maior parte para China e Rússia. A Rússia tem vendido ouro para países árabes para transformar essa riqueza em outros bens e insumos.
Com uma economia cada vez menos produtiva e sustentada no parasitismo financeiro, os EUA enfrentam a pior crise de valor de sua moeda. Aumentam as taxas de juros seguidamente, para tentar conter as tendências inflacionárias em seu mercado interno. Mas não têm como conter as movimentações gerais internacionais, que buscam apoio no yuan e no ouro como nova referência comercial.
A única possibilidade de bloquear essas tendências gerais é por meio de uma ampla destruição das forças produtivas mundiais, especialmente concentradas na China, e em menor grau, na Rússia. A ampla destruição dessas economias permitiria criar uma nova etapa de recomposição de forças produtivas sob a direção imperialista estadunidense.
Assim, a guerra na Ucrânia travada pelo imperialismo visando a destruir a propriedade nacionalizada na Rússia, que permite hoje que esse país (pela diversificação e integração de suas forças produtivas internas) prolongar a guerra e sangrar as economias burguesas, enquanto sua economia não apenas segue em pé, como se desenvolve em inúmeras áreas de ciência e desenvolvimento, especialmente da indústria militar. Para o imperialismo, a derrota da Rússia na Ucrânia é um passo necessário para depois avançar na derrubada da burocracia, destruir a propriedade nacionalizada e colonizar seus recursos, submetendo-os à valorização do capital financeiro, o que daria um respiro às contradições capitalistas e fortaleceria o imperialismo em seu objetivo de fazer o mesmo com a China. Isso também determina as viradas em países africanos para posições russas e chinesas corroendo as bases de apoio político do imperialismo para o saque de seus recursos naturais pelos monopólios. Veja-se ainda o gigantismo do armamentismo mundial, que superou todos os índices anteriores da “guerra fria”. Os preparativos de guerra demonstram também que não há como solucionar esses conflitos pela via econômica. Mas, tampouco há como as burocracias libertarem todo o potencial para a humanidade das forças produtivas da propriedade nacionalizada, porque são inimigas de estender a revolução em escala internacional, enterrando a propriedade burguesa e acabando com a anarquia e as guerras capitalistas.
A derrota militar da OTAN, a vitória das “ditaduras” nacionalistas contra as “democracias” vassalas do imperialismo na África, e a vitória dos operários das montadoras nos EUA são elos interdependentes de um mesmo processo que enfraquecerá a burguesia imperialista e favorecerá a luta das massas exploradas e oprimidas, bem como permitirá ao proletariado russo e chinês – afastado conjunturalmente o perigo da destruição pelo imperialismo dos Estados Operários e da propriedade nacionalizada – derrubar as burocracias, varrer os avanços à restauração, e retomar seu controle da economia estatizada. Está aí porque é decisiva a defesa incondicional pelo proletariado mundial e das massas oprimidas da propriedade nacionalizada, fundamental conquista das revoluções, que, apesar das burocracias, vem mostrando todo seu potencial para superar a desagregação capitalista e garantir a retomada da transição ao socialismo, aberto pelas revoluções proletárias.
