O Internacionalista n° 8 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2023


Os regimes militares de Malí, Níger y Burkina Faso assinaram uma declaração conjunta, no dia 16/09, a “Aliança de Estados do Sahel”, objetivando criar “uma arquitetura de defesa coletiva e assistência mútua” em resposta à agressão externa contra qualquer dos três países. Eis: “Qualquer ataque à soberania e integridade territorial de uma ou mais partes assinantes, será considerada uma agressão contra as outras partes”, respondendo com “a utilização da força armada para restabelecer e garantir a segurança.” O tratado obriga ainda os membros da “Aliança” a reprimir rebeliões armadas internas.
A “Aliança” procura responder às ameaças da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) que declarou estar preparada para uma intervenção armada no Niger para derrotar a ditadura nacionalista e restaurar o governo “legitimamente eleito”, de Bazoum. Ocorre que o golpe militar destituiu o presidente marionete dos monopólios franceses e busca avançar no controle estatal sobre a exploração das riquezas naturais sob controle de empresas francesas. Esse é o motivo dos preparativos de intervenção militar dos países da CEDEAO que agem sob ordens do imperialismo francês.
Quanto à proposta de intervenção coletiva das três forças armadas na repressão contra a insurgência de milícias jihadistas e reunir esforços coletivos na “luta antiterrorista”, está o objetivo de abortar qualquer tentativa da CEDEAO e do imperialismo de combater os governos nacionalistas por meio do apoio, treinamento e ajuda logística de milícias e de oposições armadas que projetem a guerra civil ou desestabilizem os governos e preparem o terreno à intervenção estrangeira (política ou militar). Esse método foi largamente utilizado pelos EUA, com movimento talibã que visava a combater a ocupação soviética e a derrubar o governo pró-russo no Afeganistão. Mesmo método usado na Ucrânia, em 2014, para derrubar o governo pró-russo, mudando apenas o “instrumento” utilizado (organizações nazistas).
O problema desses “planos” imperialistas (os governos africanos da CEDEAO não decidem nada) é que não conta com qualquer apoio entre a população nigeriana. Mas, tampouco entre as massas dos países da CEDEAO que se mobilizaram em aberto apoio às ditaduras nacionalistas, por expressarem uma ruptura (ainda que limitada) com as cadeias da opressão nacional do imperialismo francês que as desgraçam também em seus países. O plano sequer conta com apoio explícito do Partido pela Democracia e Socialismo do Niger (PNDS) do presidente deposto Bazoum. O PNDS afirmou em comunicado à imprensa que a “imensa maioria” do partido “é contra a intervenção armada” no Níger. É claro que a declaração procura evitar qualquer retaliação contra o PNDS pelos militares. Porém, também indica que a base assalariada e popular do partido reflete as tendências anti-imperialistas das massas nigerianas que apoiam as medidas de ruptura com a França dos militares nacionalistas. Daí que se peça pela “libertação de Bazoum”, e, ao mesmo tempo, se evita insurgir a base do PNDS contra sua direção. Manobrando entre manter o apoio das bases e defender Bazoum, o comunicado finaliza chamando à “reintegração” do presidente na presidência e à “restauração da ordem constitucional por meios não militares”.
Outro problema é que Niger, Mali e Burkina Faso são apoiados pela burocracia russa e chinesa que veem no surgimento de governos nacionalistas uma via para expandir seus interesses próprios. Sergei Lavrov, Ministro das relações exteriores da Rússia, aproveitou a reunião dos BRICS, na África do Sul, para declarar o “apoio” da Federação Russa à luta dos governos nacionalistas de Burkina Faso, Níger e Mali contra a “opressão ocidental”. E prometeu que se prestará assistência aos governos para avançar à “independência nacional”. Inúmeros acordos comerciais e diplomáticos já foram confirmados. Toneladas de grãos russos são derramadas nesses países para ajudar a equacionar a miséria e a fome e estabilizar as ditaduras nacionalistas. Quanto à “ajuda militar russa”, está sendo prestada de forma indireta por meio do deslocamento de batalhões do Grupo Wagner, que após a “estatização” do grupo, imposta depois do falido levantamento de Prigozhin, combatem sob ordens da burocracia russa.
O maior dos problemas interpostos aos planos imperialistas é o fato da África estar convulsionada pelas profundas tendências anti-imperialistas das massas. São recorrentes as mobilizações contra o saque das riquezas naturais e pela saída das tropas estrangeiras da África. Setores nacionalistas dos exércitos se apoiam nessas tendências para firmar acordos com a burocracia russa e chinesa. Os bilionários investimentos da China e da Rússia em infraestrutura e em “ajuda alimentar” são apresentados pelos governos nacionalistas como a via para garantir a soberania e a autodeterminação nacionais. A ausência de uma vanguarda com consciência de classe, capaz de conquistar a real autodeterminação nacional pela via da revolução proletária, permite esses governos nacionalistas manobrar com essa “ajuda” russa e chinesa para desviar as tendências revolucionárias das massas, e mantê-las sob seu controle político.
Caso exploda uma guerra no Sahel, a derrota das “democracias” pelas “ditaduras” é a tática que devem erguer os revolucionários para enfraquecer o imperialismo e, assim, abrir caminho à luta anti-imperialista das massas africanas. Certo é que essa derrota reforçará (conjunturalmente) os governos nacionalistas e as burocracias contrarrevolucionárias em preservar seus interesses reacionários. Eis porque nunca se deve apoiá-los politicamente, sem, por isso, abandonar o combate ao lado desses contra o imperialismo mundial. Trata-se, nesse caso, de defender a organização independente das massas e exigir seu armamento geral sob controle das próprias massas, para assim ter completa liberdade de ação em combater os governos nacionalistas e as burocracias estalinistas quando procurem (e inevitavelmente procurarão) chegar a um acordo com o imperialismo sobre Níger, Mali e Burkina Faso, em troca de deixar o continente ser desgraçado pelo saque monopolista. Daí a tarefa da vanguarda com consciência de classe de constituir os partidos-programa, capazes de combinar a tática da derrota do imperialismo com a da frente única anti-imperialista sob a estratégia da revolução e ditadura proletárias.