
O Internacionalista n° 8 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2023
Ucrânia
Pela derrota militar da OTAN na Ucrânia!
Quando a Rússia ocupou o Leste ucraniano, pôs fim a oito anos da violência militar governista sobre a população russa na região separatista, e bombardeou cidades por todo o país, assumindo o controle do espaço aéreo, tudo isso em resposta à tentativa de cerco militar da OTAN. A disparidade de forças militares entre os países indicava uma vitória breve da Rússia. A burocracia no poder do estado operário degenerado usava dos métodos burocrático-militares para tentar barrar o fecho do cerco imperialista ao país. Por dois anos antes disso, buscou negociar um acordo com a OTAN, que mantivesse a Ucrânia fora do cerco armamentista que se armava por 3 décadas contra a Rússia. Durante esses dois anos, revelou-se depois, as potências imperialistas aproveitaram para armar a ex-república soviética, convertida em semicolônia a partir de 2014, quando a guerra civil pôs abaixo o antigo governo burocrático ligado a Moscou, que já não tinha mais a base material do controle estatal da economia, em grande medida entregue ao capital financeiro internacional e multinacionais. O armamento foi direcionado principalmente às tropas paramilitares de filiação nazista, o chamado batalhão Azov, que foram as responsáveis pela primeira defesa da Ucrânia contra as tropas russas. No entanto, essas tropas foram sendo encurraladas e finalmente derrotadas pela Rússia em Mariupol.
Em setembro, por força do maior deslocamento de armas e munições da História contra um só país, realizado pela OTAN, iniciou-se a primeira contraofensiva ucraniana. Os russos tiveram de recuar até as regiões do Leste ucraniano, de população russa apoiadora da separação do país e integração à Rússia. Putin decretou a anexação das quatro províncias à Federação Russa, e sustentou a ocupação nessas regiões. Cortou a energia do país várias vezes, em resposta aos contra-ataques ucranianos. E passou a retomar algumas regiões do país, especialmente Bakhmut, que serviu de máquina de matar soldados ucranianos por semanas seguidas, através da ação do grupo paramilitar Wagner, depois dissolvido e integrado ao exército russo.
Em junho de 2023, iniciou-se a segunda contraofensiva ucraniana. Armados com tanques europeus e estadunidenses, apoiados em armas antiaéreas Himars, o que restou das forças armadas ucranianas, fortemente ajudadas por soldados de vários países da Europa, tentou avançar para retomar territórios ocupados. Foi um fracasso. Os “novos” tanques, cheios de eletrônica, viraram presas fáceis para os russos, e os tanques aposentados da era soviética tiveram de sair dos museus e assumir a linha de frente contra os russos. Os Himars se revelaram incapazes de conter plenamente os ataques russos, que revezavam drones iranianos com mísseis hipersônicos que os EUA ainda não desenvolveram. “Novos” tanques estadunidenses, fabricados em 1980, chegaram à Ucrânia, modernizados para o enfrentamento. O parlamento ianque exige a prestação de contas dos US$ 110 bilhões já enviados à Ucrânia, Zelensky pediu mais US$ 24 bilhões, e só obteve pouco mais de US$ 300 milhões.
Por que o maior poderio militar do mundo não derrota a Rússia, e por que a mais avançada tecnologia militar do mundo não derrota Zelensky
A indústria militar dos EUA tem sofrido com a desmoralização de alguns de seus produtos de vitrine na Ucrânia. O fracasso da contraofensiva levou a uma queda significativa das ações do setor produtivo militar ianque. Os EUA foram e ainda são o país com maiores gastos militares no mundo. Até há pouco tempo, as principais tecnologias de chips para uso militar ainda estavam em suas mãos, assim como os mísseis e antimísseis mais modernos. Sua Marinha era a maior do mundo, com maior capacidade de ataque.
O desenvolvimento do aparato militar se dá com base no desenvolvimento geral econômico. O grande volume de recursos financeiros para sustentar o aparato bélico exige um grande esforço do Estado, que precisa arrancar esses recursos da exploração do trabalho assalariado, de seu país e de semicolônias submetidas a ele.
Mas as últimas décadas viram o declínio da produção estadunidense, europeia e japonesa, diante do avanço correspondente chinês. A Rússia, depois de uma década de destruição econômica causada pela política de privatizações (1991-1999), retomou o crescimento, apesar das sanções econômicas, e deu um salto em seu PIB. Rússia e principalmente China se apropriaram de tecnologia das potências, e desenvolveram as suas próprias. A China já alcançou a primazia em 42 dos 44 ramos de tecnologia de ponta mundial. Sua Marinha já ultrapassou a dos EUA há alguns anos, e ainda cresce em ritmo mais veloz. Atingiu a tecnologia dos mísseis ultrassônicos (ao lado da Rússia e do Irã), e desenvolveu os lançadores magnéticos de mísseis. A Rússia se tornou no 2º produtor mundial de armas. Munições hipersônicas, tanques drones, submarinos elétricos, drones invisíveis aos antimísseis, são alguns dos artefatos de alta tecnologia lançados há pouco tempo.
No entanto, nem o poderio militar histórico dos EUA e aliados, nem a alta tecnologia militar russa conseguem pôr fim à guerra na Ucrânia. A situação é de impasse e de prolongamento da guerra. Outros elementos, que não militares, atuam nos fundamentos da guerra para mantê-la em pé.
Os EUA têm conseguido ativar parte de sua economia ameaçada de recessão com os gastos militares. A ativação de toda a cadeia produtiva ligada à fabricação de armas ajuda a mover o elefante imperialista. Os fabricantes de armamentos anunciam planos de ampliação produtiva para até 2025. As vendas de caças se impulsionam, como na compra de 24 deles pelo governo Tcheco. A esmagadora maioria dos recursos militares bilionários ofertados à Ucrânia foram empregados em compras de armamentos e insumos ianques. O prolongamento da guerra ajuda a economia estadunidense em retrocesso. Não pode curá-la, mas a mantém viva na UTI.
A burocracia russa não tem como usar os métodos próprios da revolução proletária para se defender e derrotar o imperialismo. Seus interesses materiais são a preservação da fonte de seu poder e ganhos, ou seja, o controle da economia estatizada. Por isso, se orienta estrategicamente para um acordo com o imperialismo, e mesmo suas circunstanciais vantagens no desenvolvimento tecnológico não a levarão à vitória. Seus métodos burocrático militares não terão como fazer com que a guerra se transforme em guerra de classes dos explorados e oprimidos contra os exploradores e opressores. Sem isso, as potências vão prolongar a guerra até obterem o desenvolvimento de armas à altura da tecnologia russa, e poderão derrotá-la no futuro. A recente ocupação do Leste ucraniano foi tranquila, somente porque a população da região é russa e suporta uma guerra civil de oito anos contra o governo burguês ucraniano. As forças militares russas avançaram nesses territórios por conta do apoio das massas dessas regiões. Será muito mais difícil ocupar militarmente as áreas de população tártara ou polonesa.
As populações da Europa sofrem duramente com as consequências do apoio de seus governos às ações militares de Zelensky. Há mobilizações de multidões em alguns países, que exigem o fim dos gastos militares, e a ruptura deles com a OTAN. Mas as direções dos movimentos, em geral, estão no campo político do imperialismo. Se estivessem sob direções assentadas na política internacionalista proletária, poderiam organizar os movimentos de derrotismo revolucionário, paralisando a produção de armamentos e insumos, assim como as vias de transporte. Esse movimento se chocaria necessariamente com os governos, e poderia abrir caminho para uma luta revolucionária.
Na Rússia, somente a derrubada da burocracia que expropriou o poder político do proletariado, por meio da revolução política, permitiria que o Estado fosse colocado a serviço da revolução socialista mundial. A luta contra as potências imperialistas estaria voltada ao objetivo estratégico da República Mundial Socialista, e teria de se assentar no impulso às revoluções proletárias em cada país, à guerra de classes contra cada burguesia nacional. A implantação da economia planejada e nacionalizada seria buscada em cada insurreição.
Ainda que a defesa da economia nacionalizada concentre conjunturalmente hoje as forças revolucionárias, sem deixar de manter as críticas, as posições e a organização independente quanto à burocracia usurpadora do poder, a guerra em curso não acabará sob o poder da casta burocrática, que busca o acordo com o imperialismo. Qualquer paz alcançada sob estas condições somente será um intervalo entre guerras, e que levará finalmente à destruição do Estado Operário Degenerado. Mas quem deve derrubar Putin é o proletariado russo, e não o imperialismo. A paz duradoura será fruto da revolução socialista mundial, que para se realizar terá de trilhar o caminho da guerra de classes, da insurreição.
Como afirmava Trotsky, “A defesa da URSS, para nós, coincide com a preparação da revolução mundial. Somente aqueles métodos que não entrem em conflito com os interesses da revolução são admissíveis. A defesa da URSS está ligada à revolução socialista mundial, assim como uma tarefa tática está ligada a uma estratégia. Uma tática está subordinada a um fim estratégico e de forma nenhuma pode entrar em contradição com este último.” E ainda: “Não devemos perder de vista, por um só momento, o fato de que para nós, a questão da derrubada da burocracia soviética está subordinada à questão da preservação da propriedade estatal dos meios de produção na URSS; que a questão da manutenção da propriedade estatal nos meios de produção da URSS está subordinada, para nós, à questão da revolução proletária mundial.”
