O Internacionalista n° 8 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2023


A China tem hoje 31% da produção industrial do mundo. Encabeça 42 das 44 áreas de tecnologia de ponta mundiais. Seu PIB está em US$ 18 trilhões (maior que o da União Europeia, de US$ 16,6 trilhões), enquanto o dos EUA está em US$ 25 trilhões. Os EUA têm 15% da indústria mundial, e a Europa, pouco menos de 20%, o que revela que seus PIBs se fundamentam em grande parte no comércio e serviços.
A explicação para o grande desenvolvimento econômico industrial da China nas últimas décadas está na preservação e ampliação do controle estatal sobre a economia. O fato de a China ter importado um grande volume de capitais desde os anos de 1980, com instalação de um grande parque industrial no país, não levou a que se tornasse em semicolônia, apenas e exclusivamente porque a economia permaneceu sob forte controle estatal. Esse controle estatal se manifesta na exigência de que em qualquer empresa chinesa, pública ou privada, tem de haver em seu conselho administrativo um membro do partido comunista chinês, com direito a veto sobre as decisões. Esse controle estatal é resultado e se fundamenta na nacionalização dos ramos chave da economia chinesa, que por sua vez é obra da revolução proletária. O fato de uma burocracia bonapartista ter expropriado o controle operário sobre esse Estado não transformou até hoje seu fundamento econômico. O Estado Operário se caracteriza pela base econômica e social, e não por nenhuma outra característica política.
É esse controle estatal que permite a economia chinesa manter o progresso das forças produtivas, em detrimento do retrocesso mundial das forças produtivas nas potências imperialistas. Não há nem nunca houve o estabelecimento da propriedade social na China, porque isso será parte da implantação do socialismo em nível mundial. A China se potencia a partir da propriedade nacionalizada, estatal. Duas características próprias do capitalismo são contidas por esse controle estatal: a concorrência e a anarquia na produção. A burocracia usa seu poder à frente do Estado para disciplinar a economia, a partir das empresas estatais majoritárias, e do controle sobre as empresas privadas.
A forte atração de capitais para o interior do país trouxe consigo elementos do modo de produção capitalista. As formas capitalistas de produção se potenciaram, ainda que sob controle do Estado. A assimilação gradativa dessas formas produtivas vai impulsionando características próprias do capitalismo em sua economia, como já se pode notar na superprodução de valor existente em alguns setores, principalmente na construção civil. O manejo estatal das exportações e investimentos em outros países permite atenuar os efeitos da superprodução em outros setores econômicos.
É por isso que a China busca estabelecer acordos comerciais e influenciar politicamente uma série de países, nas arábias, na África e na América Latina. Tudo indica que os EUA já estão fechando as portas para o avanço chinês dentro de sua economia, que foi durante anos o principal comprador de seus produtos. A redução de exportações chinesas aos EUA para menos da metade do que já alcançou é um indicador disso. A China responde com a retirada de dinheiro depositado em bancos estadunidenses, no valor de US$ 800 bilhões, metade do que tinha.
A expansão chinesa para outros países, embora contenha circunstancialmente a crise de superprodução, vai criando as condições para que as flutuações do mercado mundial a afetem mais duramente. A guerra comercial em andamento com os EUA, ainda que seja vencida pela China, supondo que os EUA e aliados não a enfrentem e derrotem militarmente, não a levará a um porto seguro econômico. A China dirigida pela burocracia caminhará cedo ou tarde para o destino da crise capitalista. Não se pode assimilar o capitalismo sem trazer junto suas contradições insolúveis.
Tudo isso não quer dizer que desprezemos a grande vantagem e progresso econômico que representa a propriedade nacionalizada e controlada pelo Estado construída pela revolução proletária. Certamente, Lenin e Trotsky jamais imaginaram que um país atrasado onde houvesse a revolução proletária poderia alcançar tamanho grau de desenvolvimento econômico industrial sem a realização de uma revolução socialista mundial. Também não imaginaram que o caminho aberto pela Revolução Russa de 1917 para a mesma Revolução Socialista Mundial tivesse sofrido tamanho retrocesso, que entraríamos no século XXI sob o mesmo capitalismo em decomposição. Ainda assim, confiaram que somente quando a economia de um estado operário em um país atrasado superasse as das potências a revolução poderia sobreviver aí. A China já não precisa de monopólio do comércio exterior, ele se tornou supérfluo, como previra Lenin, e o país hoje briga para que as potências abram seus mercados aos produtos e serviços chineses.
Mas é esse mesmo controle ditatorial da burocracia que leva a China em direção a um beco sem saída na economia. A casta burocrática não tem, nunca teve, os objetivos estratégicos da revolução proletária em sua mente. Ela busca obsessivamente preservar e ampliar a base econômica de seu poder e ganhos parasitários, ou seja, a propriedade nacionalizada. Mas, ao não fazê-lo com os métodos e estratégia do proletariado, volta-se sempre a um acordo circunstancial com as potências imperialistas. As atuais ameaças de guerra contra a China são impulsionadas pelas potências imperialistas, em especial os EUA. É o imperialismo quem tem interesse na destruição maciça de forças produtivas mundiais, em particular as da China e Rússia, com o objetivo de retomar a situação do pós 2ª guerra mundial, de recomposição da economia.
A estratégia do proletariado leva à luta pela Revolução Mundial Socialista, ou seja, o impulso às revoluções proletárias em todos os países. Qualquer país em que haja uma revolução proletária, deve voltar todos os seus esforços para que o proletariado mundial se levante contra a burguesia mundial. A burocracia é incapaz de dar qualquer passo nesse sentido. Ainda que imponha a nacionalização da economia em algum país que tenha de ocupar, não dará passos no sentido da revolução mundial. Somente tomaria essa medida em sua própria defesa e da fonte de seu poder e ganhos. Foi o que fez no Leste Europeu na 2ª guerra mundial. A tendência da burocracia hoje é, e isso se vê nos fatos, a de se colocar em disputa comercial capitalista com as potências imperialistas, como o faz em países da América Latina e África.
A defesa das conquistas revolucionárias na China deve ser feita diante de qualquer ataque a elas pelo imperialismo. Quem deve derrubar a burocracia é o proletariado, e não o imperialismo. Isso nos coloca em bloco militar com a China contra qualquer potência capitalista ou instrumento dela, sem lhe prestar nenhum apoio político ou quanto a seus métodos. Mas também coloca a necessidade de desenvolver o programa da Revolução Política na China, organizando o proletariado de forma totalmente independente da burocracia e de seus tentáculos nos movimentos e organizações operárias, sob a estratégia e métodos da Revolução Política.
Na prática, isso quer dizer que devemos impulsionar e apoiar as lutas grevistas contra as demissões e rebaixamento salarial e de condições de vida e trabalho, que já ocorrem nos setores em que a crise capitalista se manifesta, como na construção civil. A defesa do salário e emprego deve estar apoiada nos métodos da ocupação de fábrica e controle operário da produção. Essas medidas ajudarão a dar passos no sentido da retomada do controle proletário da economia, que acontecerá por meio da derrubada da burocracia do poder e restituição da ditadura do proletariado, assentada na democracia operária e controle coletivo da economia.