
O Internacionalista n° 8 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2023
EUA
Tendências grevistas na classe operária abrem um novo período da luta de classes na maior potência imperialista
Foi deflagrada a greve nas maiores montadoras norte-americanas, no dia 14 de setembro. Mais de 150 mil operários da United Auto Workers (UAW), das montadoras GM, Ford e Stellantis (ex-Chrysler Motors), paralisaram as atividades, em defesa de aumento de 40% nos salários, igualdade salarial para todos os operários na mesma função, e imediatas melhorias nas condições de trabalho.
Há muitas décadas que não se via uma greve operária que atingisse as “três grandes” montadoras dos EUA, e que fosse aprovada por mais de 95% dos operários de base, configurando, desde o primeiro dia, uma greve geral unitária, na base de um programa comum de reivindicações para efetivos e contratados. Já nos primeiros oito meses deste ano, mais de 320 mil trabalhadores participaram em uma média de 900 greves, apenas no primeiro semestre, abarcando diversos setores dos serviços (correios, serviços de entrega, hotelaria, saúde, educação, etc.). Trata-se de um crescimento de mais de 100 mil trabalhadores em greve, em comparação ao ano anterior, e mais de 50% em relação a 2021. Alta grevista que modifica radicalmente o retrocesso operado entre as décadas de 1970 e 1990.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, e até começos dos anos de 1980, em média de 1 a 4 milhões de trabalhadores participaram em greves, por ano. Em 1946, explodiram as primeiras greves econômicas após a revogação das restrições impostas pelo Estado em períodos de guerra. Nas décadas posteriores, o movimento grevista teve inúmeros avanços e retrocessos. Porém, foi na década de 1990 que se verifica o maior retrocesso imposto aos operários e aos movimentos grevistas, caindo para menos de 100 mil trabalhadores em greve ao ano. Esse retrocesso coincidiu com a eleição do governo Ronald Reagan, que se caracterizou por uma política anti-sindical e anti operária, visando a esmagar a revolta proletária e destruir direitos. O caso mais emblemático é o da greve dos controladores aéreos, de 1981, quando o governo demitiu 11 mil grevistas, instaurou a disciplina militar no setor, e avançou a privatização e a terceirização.
A política centralizadora e ditatorial do governo ultradireitista foi assimilada pelas direções sindicais, ajudando o governo e patronato a descarregar violentas contrarreformas e rebaixamentos salariais sobre os trabalhadores de todos os setores e ramos econômicos. Por décadas a fio, se impuseram acordos de rebaixamento e congelamento salarial, e destruição de direitos históricos. O que se refletiu na queda contínua dos salários dos operários de manufaturas, que passou, de U$ 43 em média (1990), para menos de U$ 35 (2020). E se refletiu, ainda, no profundo refluxo grevista e na brutal queda nos índices de sindicalização. Esse quadro começaria a se reverter na década de 2020. Em 2022, 7 mil trabalhadores gastronômicos conquistaram em greve aumentos salariais e o direito de sindicalização. No mesmo ano, 60% dos trabalhadores da educação (32% dos grevistas eram não-sindicalizados) fizeram dezenas de greves por melhores salários e condições de trabalho. Destacou-se, pela importância estratégica do setor, a greve dos ferroviários, por aumento salarial e recuperação de benefícios sociais perdidos.
As greves de 2023 se inserem dentro desse curso histórico mais recente. Mas, destacam-se por constituir a maior onda grevista dos últimos 50 anos, pelo número de grevistas e setores afetados. No começo do ano, houve a greve dos motoristas da UPS (maior empresa de correios do país) e dos trabalhadores da Amazon. A greve nesses setores, reunindo centenas de milhares, aconteceram, apesar da maioria deles não estar sindicalizada e sofrer uma violenta ditadura e vigilância patronal nos locais de trabalho. Demonstrando que as tendências grevistas são mais fortes que os obstáculos interpostos à sua realização. Apesar dos acordos ficarem abaixo das reivindicações defendidas pelos trabalhadores desses setores, as greves abriram uma via à sindicalização em massa e, portanto, os trabalhadores contarão com organizações próprias para combater os capitalistas em melhores condições. O aspecto mais relevante da alta grevista deste ano é que as greves nos setores dos serviços são seguidas, agora, pelas greves na indústria de bens de alto valor agregado e setores chaves da indústria, e à qual estão ligadas centenas de indústrias auxiliares (autopeças, pneus, componentes eletrônicos etc.).
As empresas, antes da greve, realizaram milhares de contratações antecipadas de operários e técnicos com contratos temporários, assim como engenheiros europeus, para cobrir os trabalhadores sindicalizados que aderiram massivamente à greve. Elaboraram, assim, um plano de terceirização antecipada da produção, para facilitar as contratações de operários precarizados que irão produzir durante a greve, mas também poderão continuar em seus postos, se as empresas decidem demitir grevistas e rescindir antecipadamente, não apenas como retaliação, mas fundamentalmente para introduzir, no chão-de-fábrica, novas modalidades precarizadas e terceirizadas do trabalho. A Ford, por exemplo, armazenou peças e treinou 1,2 assalariados, para atender 23 centros de distribuição, em quinze estados.
O governo Biden não teve como frear as tendências de luta dos operários. Deparou-se com uma base operária radicalizada e uma direção pressionada por ela, que defende manter a greve até impor suas reivindicações às montadoras. Biden procura achar uma resolução rápida do conflito, que “favoreça” ambas as partes. Fez ainda uma teatralização de caminhar algumas horas com os grevistas. Com o mesmo objetivo, “interveio” e se “colocou” do lado da greve dos ferroviários, em 2022, apenas para depois ajudar a desativar a greve, que ameaçava paralisar o país. A direção dos ferroviários, ligada historicamente ao Partido Democrata, chamou a confiar no presidente, e desativou a greve. Os trabalhadores pagaram caro pela sua confiança: receberam aumentos salariais insuficientes, e seus direitos destruídos não foram recuperados. A situação da greve da UAW e do país é bem diferente: não se trata de uma greve isolada em uma fábrica, mas que se estende por todas as fábricas das “três grandes” montadoras dos EUA, as bases operárias estão radicalizadas, e sua direção não pode ceder, além do que se trata da explosão mais recente de uma alta grevista que abrange setores chaves da economia, e se estende por inúmeros estados e centenas de cidades. Não há como uma pose para as câmeras, de caminhar com os grevistas, tenha o mesmo efeito que com os ferroviários.
O que importa à vanguarda com consciência de classe, tanto estadunidense como mundial, é compreender que essa tendência grevista, a mais massiva e radicalizada dos últimos 50 anos, assinala que os operários e demais assalariados são obrigados a defenderem suas condições de vida e, portanto, devem combater radicalizadamente uma classe burguesa acostumada a impor tudo o que quer. ). São empurradas a agirem para que os operários da UAW derrotem os capitalistas. Sua vitória reforçará a confiança dos trabalhadores em sua força coletiva e seus métodos próprios de luta para conquistar suas reivindicações e defender seus direitos.
A convulsiva situação nos EUA é um sintoma de um novo período da luta de classes na principal potência imperialista do mundo. O que favorece o trabalho de forjar e organizar uma direção revolucionária, que apoiada na luta reivindicativa das massas, e desenvolvendo em seu seio os métodos da luta de classes (ocupações de locais de trabalho, manifestações de rua, piquetes, etc.), pode ajudar o proletariado a passar da luta econômica à política contra a burguesia e seu estado, desenvolvendo no seio dos explorados o programa da revolução e ditadura proletárias e a bandeira do Governo Operário.
