
O Internacionalista n° 8 / NOTAS INTERNACIONAIS / outubro de 2023
Gabão
Golpe militar põe fim a regime pró-imperialista de 56 anos, mas não rompe com o imperialismo
Após anunciados os resultados das eleições gerais, realizadas no dia 26/08, que dariam mais uma vez a vitória a Ali Bongo Ondimba, do Partido Democrático Gabonês (PDG), que governava o país desde 2009, após a morte de seu pai (Omar Bongo, concentrou o poder por mais de 41 anos, desde 1967 até sua morte, em 2009), no dia 30 de agosto, o exército destituiu Ondimba, e dissolveu as instituições.
Ondimba obteve 64% dos votos válidos nas eleições, que foram contestadas pela oposição (Alternância 2023) como fraudulentas, e rejeitadas pelas massas, que exigiam a saída de Ondimba do poder. O presidente recém-eleito impôs um “apagão” da internet e declarou Toque de Recolher, temendo que se repetissem os acontecimentos ocorridos depois das eleições de 2016, quando sua “vitória” foi repudiada por dezenas de milhares de populares nas ruas, e a repressão custou a vida de dezenas de manifestantes.
O Gabão é um país rico em jazidas petrolíferas e recursos minerais, cujas oligarquias políticas e militares, associadas aos monopólios e apoiados nos chefes tribais, favorecem o saque violento das riquezas e recursos naturais do país, em benefício do capital financeiro, especialmente francês. também aí existem bases militares dos Estados Unidos, que supostamente combatem o “terrorismo”. A exploração dos recursos se repete em quase todos os países que, como o Gabão, são ex-colônias francesas. 80 companhias francesas controlam a exploração e exportação de petróleo cru, do Gabão para a Europa e a China. Seus recursos minerais estão sob controle da companhia francesa Eramet, e resguardados militarmente por um destacamento do exército francês localizado no país.
O golpe no Gabão poderia parecer, inicialmente, que percorria a mesma trilha de um setor nacionalista dos exércitos africanos das ex-colônias francesas, que derrubaram governos eleitos subservientes ao imperialismo, e avançaram à ruptura dessas relações sob pressão da revolta instintiva das massas contra a opressão imperialista, e aproximação com a Rússia e China, como aconteceu em Burkina Faso, Guiné, Mali e Níger. As massas apoiaram imediatamente o golpe, talvez por estarem iludidas de que os golpistas seguissem o caminho empreendido pelos golpes naqueles países. Mas, depois de formado o “governo de transição”, os golpistas afirmaram que cumprirão todos os “compromissos com os credores”, negociaram as movimentações de tropas estadunidenses, e manterão a base militar francesa no país. Isso indica suas diferenças em relação ao que aconteceu há pouco no Níger, comparece como uma medida ainda mais preventiva, visando a abortar revoltas populares no país, que possam vir a ameaçar os interesses imperialistas, recorrendo para isso à remoção pela força de um presidente profundamente odiado pelas massas, e que as levava a se insurgir contra o regime burguês semicolonial. De fato, o general Brice Oligui Nguema, que dirigiu o golpe e é o atual chefe do governo militar, não apenas é o primo de Ondimba (e grande proprietário imobiliário nos EUA e na França), como foi o responsável pela repressão interna durante o governo anterior, dirigida contra opositores, lideranças sindicais e as lutas das massas.
Isso explica porque o imperialismo condenou em palavras o golpe, mas não chamou os restantes países africanos a boicotarem o governo golpista, nem se dedicou a preparar uma intervenção militar, como está fazendo para derrubar o golpe militar de conteúdo nacionalista no Níger. Tampouco se ouviu qualquer caracterização de “ditador”, dirigida ao presidente deposto, que rasgava a constituição, ao se apresentar para um terceiro mandato. Sequer criticou como “ditadura” a permanência de um clã familiar no poder do Estado (incluído ali o general Nguema) por mais de cinco décadas. Não fez nada disso, porque esse clã e seus governos sucessivos estavam sempre a serviço do imperialismo.
A inicial ilusão das massas no golpe começará se desfazer, quando comprovarem que o golpe apenas mudou a face do responsável por garantir os negócios imperialistas, e que a fração da burocracia estatal que centraliza hoje ditatorialmente o poder continua se enriquecendo, em meio ao mar da barbárie social. O que as obrigará a retomar a luta, os protestos e as manifestações. Isso favorecerá a formação da vanguarda com consciência de classe no seio dos movimentos e das lutas, que, de posse do programa e estratégia do proletariado, poderá ajudar as massas a assumirem as bandeiras da autodeterminação e independência nacional, expulsão e expropriação do imperialismo, estatizando sem indenização todas as riquezas do solo e subsolo, colocando-as sob controle de um governo operário e camponês.
