
O Internacionalista n° 8 / NOTAS NACIONAIS / outubro de 2023
Dados econômicos do Brasil do último trimestre: desindustrialização e ampliação de riqueza nas mãos dos capitalistas
Os dados do segundo trimestre de 2023 já foram divulgados. Segundo o IPEA, o segundo trimestre acumulou alta de 0,9% em relação ao primeiro, que já havia crescido 1,8%. O resultado dos quatro últimos trimestres, agosto/2022 a julho/2023, mostra um crescimento do PIB no valor de 3,2%.
Este crescimento que também se materializa no aumento do orçamento federal confirma a tendência histórica da desindustrialização da economia e do peso do agronegócio. Portanto, se materializa em maior dependência da venda das commodities e na ampliação do desemprego estrutural no país, já que o setor do agronegócio emprega menos que a indústria e os serviços.
De modo geral, o bom desempenho se deu em função das atividades da agropecuária e da indústria extrativa, enquanto os investimentos produtivos na indústria continuam em queda, com uma contribuição negativa para a composição do PIB. De fato, o crescimento do setor da agropecuária cresceu 17% na comparação interanual: soja, milho, algodão e café cresceram na produção e na venda. Apenas, a soja aumentou 25% o seu papel na composição do PIB em comparação aos quatro trimestres anteriores a este. Quando olhamos os serviços, o crescimento é bem mais modesto. Aumentou 0,6% no último trimestre e 2,3% em relação aos quatro trimestres anteriores a agosto de 2022. Mais especificamente, os setores dos serviços que mais cresceram estiveram ligados a transporte, armazenagem e correio, segundo o IPEA, o que está diretamente vinculado ao escoamento da produção agropecuária (com destaque para a soja).
Embora os investimentos na indústria, com a participação da indústria da transformação e de bens de capitais, continuem estagnados e em queda, o conjunto do setor industrial teve um ligeiro aumento, de 0,9% no último trimestre e 1,5% no último ano. No “setor industrial” os dados do governo, reunidos pelo IPEA, trazem resultado de ramos ligados à indústria extrativista, em que se extraem matérias-primas, como os metais, e se produzem produtos sem elaboração ou semielaboradas (como os derivados do petróleo). Aí, quando se fala da indústria extrativista, vemos aumento pelo quinto trimestre consecutivo, com aumento de 1,8%, em termos interanuais. A indústria manufatureira, de produtos elaborados pelas fábricas, teve um leve aumento, de 0,3%, depois de três sucessivas quedas nos trimestres. Essas mudanças na composição do PIB assinala um maior retrocesso das forças produtivas internas que alavanca o atraso semicolonial.
Outro dado que mostra como os dados de crescimento do PIB reforçam o caráter semicolonial do país, de exportador de matérias-primas e alimentos, é o da exportação. Houve um significativo aumento de exportações de produtos agropecuários, extrativa mineral e alimentos, com crescimento de 12,1% sobre o intervalo interanual anterior.
O consumo das famílias cresceu 3% nos quatro trimestres. No entanto, cresce o nível de endividamento das famílias. No final do primeiro trimestre deste ano, já estava em 78,3% das famílias brasileiras. Ainda que o rendimento médio do trabalho tenha aumentado 6,2% no segundo trimestre, só agora atingiu o patamar de 2019: R$ 2924,00 em julho de 2023 contra R$ 2904,00 em julho de 2019. Ou seja, embora o PIB crescido nos últimos anos, tem se apoiado na exportação de matérias-primas e alimentos e as riquezas acrescidas não voltam em forma de salários para os trabalhados assalariados, produzindo salários e rendimento mais baixos e endividamento geral. O setor de serviços, o mercado interno só mantém algum crescimento a custa de políticas governamentais (como o subsídio circunstancial para o compra de bens duráveis, como automóveis) ou por endividamento da população e de setores industriais menores. Assim, cresce ampliando, a longo prazo, a crise interna. A riqueza do agronegócio e da indústria extrativista ocorre ao mesmo tempo que amplia a miséria nacional.
Por fim, confirmando a desindustrialização, os dados sobre os investimentos na formação bruta de capital fixo (FBCF), que servem para compra de bens de capital, registrou avanço de 0,1% no último trimestre (estagnação, portanto), e queda de 2,6% na comparação interanual. O percentual de investimento interno na formação de capital têm apresentado queda sucessivas. No primeiro trimestre, estava em 17,7% do PIB; no segundo, caiu para 17,2%. Esteve em 19,6% no terceiro trimestre de 2022. Assim como a taxa de poupança interna do país só têm caído desde 2019, quando estava em 21,4% e hoje está em 16,9%. Em suma: o crescimento do PIB não revela uma tendência de “desenvolvimento” do país, mas de concentração de riqueza em um setor capitalista (o ligado ao agronegócio e ao extrativismo), necessidade de intervenção do Estado para artificialmente impulsionar o consumo interno, e, também por isso, endividamento geral da população e dos próprios governos.
