O Internacionalista n° 8 / NOTAS NACIONAIS / outubro de 2023


Os três principais bancos privados do país obtiveram um “lucro líquido” (descontados gastos em capital, despesas em dividendos e Juros sobre Capital Próprio/JCP) de R$ 30,499 bilhões, no primeiro semestre deste ano: o Itaú lucrou R$ 17, 2 bilhões (+14,2% em relação ao ano passado); o Bradesco, R$ 8,8 bilhões (-36,5%); e o Santander, R$ 4,45 bilhões (-45%). As “quedas” nestes dois últimos não significaram, necessariamente, perdas aos grandes capitalistas que controlam ambos os bancos. Em parte, trata-se de simples “ajustes contábeis” que ajustam as expectativas de “retornos lucrativos” no começo das operações, ao que finalmente é registrado como lucros líquidos. De outro lado, quando se trata de índices que refletem a retração no número e volume dos créditos, ou inadimplência dos devedores, por exemplo, são compensadas com os lucros realizados em outros países, via concentração bancária, taxa de juros, aumento e extensão de créditos, etc. Um exemplo é o Santander: no Brasil, representa 15,7% do lucro total do banco, que foi de 5,241 bilhões de euros, em 2022 (crescimento de 7,1%).
O que importa saber é que esses lucros tiveram por base material a “reestruturação” aplicada pelos grandes bancos, com a introdução de novas tecnologias, redução de empregos, rebaixamento salarial, fechamento de agências e terceirização de serviços. Perderam-se 5 mil empregos no setor. O Itaú tinha 88.078 empregados, abriu 375 novos postos neste ano e, ao mesmo tempo, demitia 1.419, devido às “inovações” em tecnologias da informação (TI), e fechava 152 agências “físicas”, enquanto abria 72 “virtuais”, tendo atualmente 2.639 agências “físicas” e 427 “digitais”. O Bradesco eliminou 2.845 empregos em um ano, e fechou 139 agências “físicas”, 316 Postos de Atendimento Bancário (PABs) e 245 “unidades de negócios”. O Santander fechou 145 unidades (102 agências e 43 PABs). Os três bancos, todavia, viram crescer sua base de clientes no mesmo período. As áreas mais afetadas com a perda de empregos foram a bancária/financeira (-3.385 vagas), a administrativa (-1329 vagas) e o atendimento ao público (299). Houve saldo positivo apenas em serviços financeiros (créditos, cartões de crédito etc.), contabilizando 1.714 novos postos. Enquanto que, no que diz respeito ao salário mensal, a média dos novos contratos é de R$ 6.308,16, contra R$ 7.469,81 dos demitidos, cessantes ou aposentados: -15,86% a menos.
A aplicação de TI e AI cresceu exponencialmente entre os cinco principais bancos do país (Itaú Unibanco, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Santander), que movimentam R$ 4 de cada R$ 5 do país (80% do total). Os investimentos em “tecnologia digital” em tarefas administrativas e contábeis atingiram 40% das transações bancárias, e o “pagamento de contas” chega a 90%. Esse processo levou ainda ao crescimento na terceirização dos serviços, com as chamadas “agências digitais” (via chat, e-mail, videoconferência etc.). Essa “tecnificação” se reflete ainda no aumento das operações realizadas pelos assalariados durante a mesma jornada de trabalho. É a isso que se chama “restruturação”, na linguagem dos capitalistas. Na linguagem do assalariado, significa enriquecimento daqueles à custa da exploração assalariada e destruição de direitos, ou seja, de seu empobrecimento e precarização.
Enquanto isso se passa, as direções sindicais não organizam a luta grevista, unificada e nacional, para evitar o retrocesso dos salários, a destruição de direitos trabalhistas e a perda de empregos. Estão mais preocupados em servir de fantoches no pedido da redução das taxas de juros, que um setor dos capitalistas industriais e comerciais defendem, visando a preservar diretamente em suas mãos uma maior quota da mais-valia arrancada do proletariado à custa da redução dos lucros bancários. E ainda “festejam” o miserável aumento de 4,58% dos salários (somado o INPC ao aumento de 0,5% da campanha salarial do ano passado) neste ano, como uma “conquista da classe trabalhadora”. Aumento que sequer compensa as perdas dos últimos anos e a alta inflacionária acumulada.
Os trabalhadores não têm nada a “festejar”: perdem direitos, vêm reduzidos seus salários e trabalham além da conta, para que um punhado de oligarcas das finanças se enriqueça cada vez mais. Precisam entender que não há como romper com a lei do empobrecimento e enriquecimento nos pólos antagônicos da sociedade, que se impõe sob o capitalismo sem acabar com a propriedade privada dos grandes bancos, e pondo todos seus recursos a serviço das massas e da nação oprimida. No imediato, precisam combater sem trégua as traições de suas direções, e defender seu programa próprio de reivindicações (divisão das horas de trabalho sem redução de salário; para igual trabalho, igual salário, e condições trabalhistas; fim das terceirizações e imediata efetivação de todos os trabalhadores, etc.)
A defesa dessas reivindicações e dos métodos coletivos para impô-las favorecerá a unidade dos assalariados do setor com o programa da expropriação sem indenização dos grandes bancos, e sua estatização sob controle coletivo da classe operária e dos demais oprimidos.