
O Internacionalista n° 9 / NOTAS INTERNACIONAIS / dezembro de 2023
Armamentismo
Choques entre Estados Imperialistas e Operários impulsionam a corrida armamentista
e as tendências bélicas
A Guerra na Ucrânia evidencia a passagem qualitativa da guerra comercial entre as potências imperialistas, e entre estas e os Estados Operários degenerados, para a ação militar como forma política da disputa mundial pela produção e distribuição (comércio) de mercadorias e serviços. Os conflitos no continente africano e, mais recentemente, a ação do Estado de Israel sobre o povo palestino na Faixa de Gaza são mais elos da cadeia das tendências bélicas em curso.
Desde 2015, as despesas militares dos países estão em contínua elevação. A partir de 2021, os gastos militares ultrapassaram os US$ 2 trilhões; cifra que apenas sete países no mundo têm como PIB anual. Ainda em 2021, os gastos globais com a indústria da guerra já eram 12% maiores do que em 2012.
Os EUA, que respondem por quase 40% de todo gasto militar do planeta, aprovou em dezembro de 2022 um orçamento de US$ 858 bilhões para a suposta “Defesa” do país, para o ano de 2023. Em março deste ano, Joe Biden apresentou uma proposta orçamentária para 2024, que pode prever quase US$ 1 trilhão, dos quais mais de US$ 170 bilhões para a compra de armas, maior valor desde a invasão do Afeganistão (2001). Este orçamento oficial, aprovado no Congresso, pode ser acrescido de verba suplementar, como foi feito em 2022, com a aprovação de repasse de US$ 112 bilhões para a Ucrânia, o que inclui ajuda “humanitária” e financeira, mas também militar. O mesmo pode acontecer agora com a ação do Estado sionista sobre os palestinos.
Atrás dos EUA, está a China, com um orçamento, para 2023, de US$ 224 bilhões, pela divulgação oficial. Trata-se do oitavo ano de crescimento consecutivo para o orçamento militar. Especialistas indicam que os gastos do país devem ser bem maiores que os divulgados, considerando os números gerais de suas forças armadas. Também, diferente dos EUA, não se sabe ao certo como é distribuído este montante. Sabe-se que a China tem o maior exército permanente do planeta, com mais de 2 milhões de soldados efetivos. Também possui a maior Marinha do mundo, além de gigantesca reserva de mísseis, caças, navios de guerra com potencial nuclear, etc. Como toda indústria militar é estatal, há um rígido controle sobre os dados divulgados. Segundo dados de 2019, as quatro maiores fabricantes de armas da China estariam entre as 20 maiores do planeta, colocando-a atrás apenas dos EUA. Com a maior transferência de tecnologia já vista em todos os setores produtivos (sendo frequentemente acusada também de roubar segredos industriais), a China também começou a importar menos e exportar mais armas para o mundo. Estima-se que, entre os períodos de 1999 a 2003 e 2014 a 2018, as importações de grandes armas caíram em 50%, e as exportações aumentaram 208%, tornando o país no 5º maior exportador de grandes armas do planeta em 2019; chegando, já em 2023, à 4ª posição, ingressando em regiões que são dominadas pelos EUA e pela Europa, como o Oriente Médio; entre 2014 a 2018, o país se tornou no maior exportador de veículos aéreos de combate não tripulados.
A Rússia, que estava em 5º lugar até 2021 nos gastos militares, subiu para terceiro lugar, a partir de 2022, quando gastou cerca de US$ 86,4 bilhões. A ocupação do leste ucraniano significou um aumento de 34% a mais do que o planejado em 2021 para o orçamento militar, mostrando como o armamento que a Ucrânia recebeu da OTAN e dos países imperialistas obrigou a Rússia a gastar mais do que esperava. Dos mais de US$ 2 trilhões gastos em orçamento militar, EUA, China e Federação Russa correspondem a mais da metade do total, 56%, em 2022. O parlamento da Federação russa, controlada pela burocracia estatal (ela tem 80% dos deputados da Duma), aprovou que o orçamento para 2024 deve aumentar em 68%, chegando a US$ 115 bilhões, o que demonstra a manutenção da ocupação na Ucrânia e o incremento em diferentes áreas militares para enfrentar o imperialismo.
Em seguida, aparece o país semicolonial que mais têm crescido na última década, a Índia. Seus conflitos históricos com o Paquistão e com a China, assim como a profunda desigualdade social, que levou a que o país fosse o responsável por mais de metade do aumento global da pobreza em 2020, demonstram as razões de ter um orçamento militar que pode chegar a US$ 76 bilhões, em 2023. O governo do país anunciou também, em 2020, que pretende gastar, nos próximos cinco a sete anos, US$ 130 bilhões para a modernização da frota em todas as forças armadas; aumento que também é expressão das contradições do país: no início da década de 2010, os 100 mais ricos do país detinham 25% do PIB nacional, em uma população que já ultrapassou os mais de 1,4 bilhão de pessoas. A profunda desigualdade tem gerado conflitos mais agudos internamente, como a mobilização de mais de 250 milhões de trabalhadores do campo, em novembro de 2020, contra as medidas do governo pró-imperialista do primeiro-ministro Narendra Modi, e também potencia os conflitos externos, com as fronteiriças nações do Paquistão e da China.
O Reino Unido comparece como o atual quinto da lista, com cerca de US$ 69 bilhões, sendo um dos que mais têm fornecido armamento para a Ucrânia. Na verdade, o governo inglês atua, no campo militar, como uma extensão do governo norte-americano, sempre auxiliando financeira e militarmente a ação dos EUA em todos os conflitos, nos últimos 30 anos. Isso é facilmente explicado pelas relações econômicas entre os dois países. A Inglaterra depende da exportação de riquezas dos EUA (capital financeiro) para manter sua economia baseada em serviços financeiros. Em 2020, como outros países, anunciou o aumento dos gastos em orçamento militar. O então primeiro-ministro, Boris Johnson, estimou um aumento de cerca de US$ 174 bilhões, em quatro anos. É o maior aumento desde o fim da Guerra Fria, mostrando como o conflito entre os Estados imperialistas e os Estados operários está sendo recolocado de forma aberta, como existia, antes, na Guerra Fria.
Outras potências imperialistas também têm elevado os orçamentos militares. Entre 2019 a 2023, a França gastou cerca de US$ 312 bilhões para o orçamento da “Defesa”; Macron anunciou que o país prevê gastar cerca de US$ 423 bilhões, entre 2024 e 2030. A previsão de aumento ocorreu ao mesmo tempo que o mesmo governo alterou as regras da aposentaria, da Previdência, que, segundo o governo, tem um “rombo” anual de US$ 10,5 bilhões. Isto é, em 6 anos, o governo gastará mais com o orçamento de guerra do que se mantivesse as aposentadorias, sem a contrarreforma, por mais de 30 anos. Aí está mais um sinal da barbárie capitalista.
A Alemanha, que enfrenta uma recessão e deve encolher, ao menos, 0,4% em 2023, tem aumentado os gastos militares. Em 2023, destinou US$ 52,9 bilhões para o orçamento militar; para 2024, estima-se que deve chegar a US$ 54,8 bilhões, podendo ser acrescido com cerca de US$ 20 bilhões do “fundo especial para o Bundeswehr” (Forças Armadas da Alemanha); fundo dotado de mais de US$ 105 bilhões.
O aumento dos gastos das potências capitalistas segue a orientação da OTAN, que, já em 2014, apontava que os países-membros deveriam gastar pelo menos 2% do PIB no setor militar e de defesa. Até o final do primeiro semestre de 2023, dos 30 membros, apenas 7 haviam chegado ao percentual, incluindo a Polônia, que enfrenta eleições no presente ano, que podem modificar sua posição quanto à Guerra na Ucrânia (atualmente alinhada à OTAN).
Entre as maiores potências econômicas, o Japão comparece como a que mais pretende aumentar o seu orçamento militar, ainda que siga economicamente estagnado há décadas. Em dezembro de 2022, o governo anunciou que duplicaria os gastos militares nos próximos cinco anos, chegando ao montante de US$ 314 bilhões. Um documento da “Segurança Nacional” do país colocava a China como o “maior desafio estratégico para garantir a estabilidade do Japão”. Este aumento, assim como a reconstituição das forças armadas, rompendo com mais de 60 anos de política “pacifista”, revela a oposição do imperialismo, na Ásia, com a posição econômica e política do Estado Operário degenerado da China.
Algumas conclusões
Os dados mais gerais da última década revelam que não se trata apenas do orçamento recorrente para a Defesa e para a indústria militar. Há uma orientação clara, que vem da OTAN e dos principais países imperialistas, de aumento nos orçamentos militares. O armamento geral das nações capitalistas, mesmo de países, antes “pacifistas”, como Japão, demonstram também para que objetivos se dirigem os “esforços de guerra” do imperialismo: para cercar e destruir as forças produtivas dos Estados Operários ainda existentes (Federação Russa, China, fundamentalmente). O cerco à Rússia, com a entrada de países fronteiriços à OTAN, impôs a Guerra na Ucrânia e a ação do governo de Putin. Assim como o acordo militar denominado “Aukus”, apresentando ainda em 2021, entre EUA, Reino Unido e Austrália, e as tensões em torno de Taiwan, demonstram o cerco sobre a China.
A capacidade industrial de Rússia e China, sua soberania sobre as riquezas naturais, o controle de suas economias e das empresas estatais/nacionalizadas, impedem que os países imperialistas a derrotem no campo puramente econômico. A maior conquista das Revoluções proletárias, que foi a criação das propriedades estatais/nacionais, sementes da propriedade social futura, garante uma superioridade econômica dos Estados Operários, em transição para o socialismo, mesmo estando controlados politicamente pelas degeneradas burocracias estatais, em relação à grande propriedade burguesa. A ação militar das potências imperialistas é uma forma de atenuar a crise estrutural do capitalismo, a contradição essencial entre a capacidade enorme das forças produtivas e as relações produtivas (de domínio do capital financeiro). É uma saída que amplia a barbárie social.
A saída proletária é a de defesa da condição de vida das massas, a partir de suas reivindicações elementares com a ação direta (levantes, greves, atos de rua, ocupações etc), que busca se chocar com os governos burgueses e com o grande capital, de modo que se coloque a Revolução Social, nos países capitalistas. Assim como, nos países de Estado Operário, erguer as reivindicações concretas e transitórias que façam a ponte para a Revolução Política, de derrubada das burocracias estatais, e ressurgimento da democracia operária.
