
O Internacionalista n° 9 / NOTAS OPERÁRIAS / novembro de 2023
EUA
Operários da UAW conquistam vitórias, e dão um salto na luta de classe com a greve unitária e nacional
Após seis semanas de greve, a United Auto Workers (UAW) convocou “consultas”, para submeter à aprovação dos filiados, o Acordo Provisório (TA) alcançado com as montadoras da GM, da Ford e da Stellantis (ex-Chrysler Motors). Os operários da Ford o aprovaram em 25 de outubro, os operários da Stellantis o fizeram no dia 2 de novembro, e os da GM, em 3 de novembro, retomando a produção. Segundo a Ford e a GM, a greve custou-lhes US$ 1,3 bilhão e US$ 800 milhões, respectivamente.
O Acordo Provisório aprovado
O TA das três montadoras aprovou 25% de aumento dos salários (a UAW pedia 40%), durante a vigência do acordo (quatro anos e meio); restabelecimento dos subsídios ao custo de vida (COLA, de US$ 42 p/hora), aplicados durante a Grande Recessão; redução do número de anos que se leva para atingir o valor máximo da escala salarial da categoria, que passará de 8 para 3 anos. Os aumentos salariais deste ano são quatro vezes mais elevados que os de 2019, na Ford, e dos últimos 22 anos, na Stellantis. O TA se estende ainda às filiais das empresas que fabricam baterias para carros de combustão e elétricos. E comprometem a Stellantis a investir US$ 19 bilhões, e a Ford, US$ 8 bilhões.
Os operários terão direito a duas semanas de licença parental remunerada, e feriado do décimo primeiro mês, pela primeira vez na história. Após a ratificação do TA, os novos operários contratados de forma temporária serão efetivados em até 90 dias (antes era em até 9 meses), bem como terão direito a um bônus adicional de US$ 5 mil, participação nos lucros e licenças remuneradas. Os aposentados recuperarão o bônus anual desativado em 2007, valor que, entre os operários da ativa, se multiplicarão por seis (o primeiro aumento desde 2003). Haverá ainda aumento imediato no benefício de “renda vitalícia” para a categoria 401(k)s que, a exemplo da Ford, passa, de US$ 6,3 mil, para US$ 11 mil.
Consequências do acordo para a Stellantis e a Ford
No caso da Stellantis, uma vez somados os aumentos salariais à “participação nos lucros” e ao COLA, os salários aumentam 33%. O salário inicial na empresa aumentará 67%, somado ao COLA de US$ 30 p/hora, no começo da escala salarial. Os temporários receberão 165% de aumento durante a vigência do TA. Quanto à reivindicação de igualdade salarial para todos os operários que desempenham as mesmas funções (uma das pautas principais da greve), o TA na Stellantis levará ao aumento de 76% na escala salarial de um amplo setor. Inclui-se ainda o “direito de greve” por ameaça de fechamento das fábricas (o mesmo acordo para a Ford), e contra investimentos contrários aos interesses dos operários e cidades onde estão localizadas as fábricas. Essa medida era exigida pela UAW, desde o começo da greve, visando a evitar que se alegassem problemas financeiros para não aumentar salários, fechar plantas, etc.
O acordo inclui a reabertura da fábrica em Belvidere, Illinois, fechada no dia 01/03. 1,2 mil operários demitidos retornarão a seus postos de trabalho, ao reabrir a fábrica. Enquanto isso, receberão subsídios e planos de saúde. Os transferidos a outras fábricas e cidades terão direito de solicitar retornar à Belvidere. Ainda mais, arrancou-se o compromisso de instalar na cidade uma fábrica de baterias, significando mais mil empregos. No caso da Ford, o TA contempla a sindicalização de 11 operários temporários da BlueOval Battery Park Michigan e da Tennessee Electric Vehicle Center, sendo automaticamente incluídos no acordo, e direito de transferência para a fábrica ou cidade de sua escolha.
Uma importante vitória operária contra o patronato
O UAW não conquistou a totalidade de seu programa, é claro. O acordo salarial foi 15% menor do que o exigido. Tampouco foi parte do acordo a recuperação das pensões para todos. Mas, basta ver o conteúdo do Acordo Provisório que abarca as três grandes marcas para caracterizar que há importantes vitórias, arrancadas na luta grevista contra as multinacionais. Há, todavia, dois aspectos de especial importância para revelar as profundas tendências de luta de classes presentes na greve geral da UAW. É uma prática corriqueira dos capitalistas fechar fábricas, recorrendo à justificativa de “falta de competividade”, de forma a impor aos operários aceitar a redução de salários e direitos, para compensar, à custa da superexploração da força de trabalho, a lei tendencial à queda da taxa dos lucros monopolistas. Utilizam o mesmo argumento para deslocar as fábricas para outras cidades e países, onde o preço da mão-de-obra é muito barato. Nesse sentido, impor ao patronato a reabertura de uma fábrica (Stellantis) é uma demonstração da força da luta grevista unitária e da força social da classe operária, quando se mobiliza e está disposta a defender e impor suas reivindicações com a ação direta coletiva. O TA garante ainda o “direito de greve” contra qualquer manobra de desinvestimento ou esvaziamento deliberado das fábricas, criando condições para que se defenda, nas próximas lutas e greves, o controle operário coletivo da produção e a abertura dos livros contábeis dos capitalistas à inspeção e controle operários.
Essas conquistas e a confiança dos operários em sua força coletiva e métodos de luta próprios demonstra que a greve nacional e unitária, pela primeira vez na história da indústria automotiva, realizada contra as três principais empresas, assentada em um plano de reivindicações comuns, é uma importante vitória econômica, mas também política. Isto é de especial relevância, se se observa ainda que o número de trabalhadores da indústria automotiva não diminuiu nas últimas décadas, mas cresceu, por conta do aumento exponencial de empresas que passaram a produzir carros elétricos. O que assinala uma tarefa imediata a ser realizada para preparar as próximas greves com maior força ainda: a sindicalização dos operários terceirizados e da produção de carros elétricos. Eis como se responderá à perda massiva de filiados do último período, que passaram de 586 mil para 225 mil, nos últimos 40 anos. Trata-se agora de realizar uma campanha fábrica por fábrica para sindicalizar esses setores. A vitória da greve, sem dúvida, pode favorecer essa campanha, ao apresentar aos não-filiados a importância dos sindicatos, e da força da classe operária organizada.
Tarefas estratégicas colocadas à vanguarda
A greve da UAW é um salto gigantesco na luta de classes, não apenas nacional como internacional. Suas lições devem ser assimiladas pelos operários da GM no Brasil, sob violentos ataques da mesma patronal que foi derrotada nos EUA. A desvantagem do nosso país é o fato de as fábricas estarem sob controle de diferentes direções sindicais, e porque essas, há anos, se terem subordinado às imposições das patronais. Mas, os operários da UAW estão demonstrando na prática que é possível uma greve nacional e unitária para impor aos patrões a defesa dos empregos, direitos e salários. E que é possível passar da luta defensiva à ofensiva, sempre e quando suas direções estejam dispostas à defesa dos interesses da classe operária, e não desistam de continuar lutando.
A direção da UAW não é revolucionária. Foi empurrada pelas pressões das bases, revoltadas com a destruição das condições de vida e trabalho, a assumir um plano de reivindicações unitário, que ergueu uma greve nacional unificada, levando essa direção a assumir uma posição que não poderia ser de conciliação e subordinação. Por isso, sua vitória é um exemplo aos operários do mundo todo: não apenas é possível manter uma greve forte e massiva por muitas semanas, como vencer as resistências dos capitalistas e impor-lhes imediatas melhorias, e condições para o avanço da luta de classes.
A nova etapa da luta das massas, aberta pelas massas exploradas em luta pelas suas reivindicações, favorece enormemente o trabalho da vanguarda com consciência de classe para superar décadas de paralisia, de retrocessos e degenerescência colaboracionista das direções que se afundaram no democratismo e na conciliação de classes, a exemplo do Brasil. Apoiada na luta das massas, e desenvolvendo em seu seio o programa da revolução e ditadura proletárias, a vanguarda revolucionária poderá impulsionar a luta de classes e avançar na superação da crise de direção revolucionária.
