
O Internacionalista n° 11 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro de 2024
Eleições nos EUA:
mudança de forma mas não de conteúdo
Apesar de ser o principal nome do Partido Republicano para disputar a presidência dos EUA em 2024, o ex-presidente Donald Trump deve ter sua candidatura cancelada em alguns estados americanos, o que deve impedir a sua eleição.
Diferente do Brasil, os estados têm autonomia para deliberar sobre as regras eleitorais. Até o dia 30 de dezembro, os estados do Colorado e do Maine, por meio de suas Supremas Cortes estaduais, decidiram por tornar o ex-presidente inelegível, o que não impede que concorra ainda pelos demais estados, mas, sem dúvida, diminui a sua possibilidade de vencer as eleições. Nos dois estados que são controlados por Democratas, Trump está recorrendo da decisão, que se baseia no fato de que esteve vinculado, direta ou indiretamente, à invasão do Capitólio em 2021.
A eleição do presidente é realizada de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral Nacional que reúne os delegados dos estados seguindo a proporção de votos obtidos por cada candidato nesses que votaram nos candidatos habilitados. Se avançar a cassação dos direitos de Trump em alguns estados, reduzir-se-iam seus delegados nacionais ainda que este seja habilitado na maioria de Estados. É essa estrutura eleitoral que facilita a atual manobra dos democratas, sem necessariamente se comprometer a impedir Trump.
A situação é ainda pior se se considera que há um movimento para barrar sua candidatura em 32 dos 50 estados norte-americanos, o que não necessariamente comprova uma tendência para a maior ou boa parte dos estados também o tornarem inelegível. Os republicanos, por exemplo, dirigem um pouco mais que a maioria dos estados, 26. A questão fundamental está em saber o que querem os grandes grupos capitalistas do país que ainda observam o que pode ser melhor para a política imperialista que os EUA devem continuar desenvolvendo para manter a hegemonia global.
A Suprema Corte do país segue as diretrizes do grande capital e deve definir a situação de Trump. Se permitir que concorra, influenciando a derrubada das decisões estaduais, significa que a burguesia norte-americana quer dar uma forma e um ritmo mais acentuado para sua política voltada à guerra comercial contra a China e o cerco militar contra os países opositores. Além disso, deve significar o aumento da forma chauvinista de administrar o Estado burguês, ampliando a repressão interna contra imigrantes e a população mais pobre e preta. Essa forma, já iniciada com o primeiro mandato de Trump, deve ser retomada, caso ele possa concorrer, o que o levaria à vitória, considerando as atuais pesquisas de intenção de voto.
A saída mais autoritária, que é a de impedir que Trump concorra, e a mais provável, mostra como os Democratas querem artificialmente manter o poder político e o discurso “soft” enquanto preservam o conteúdo econômico das medidas efetuadas na última década, de ampliação da guerra comercial, de impulso das tendências bélicas, e de intervenção nos conflitos da América Latina e do Oriente Médio, sobretudo. Não houve ruptura entre a prática política de Trump e a de Biden. Aliás, é com Biden que a guerra comercial, por exemplo, começa a se manifestar abertamente em conflitos bélicos, como se viu no impulso para que a OTAN armasse a Ucrânia ou no auxílio ao Estado genocida de Israel. Por detrás desses choques, há o choque entre a grande propriedade burguesa, sob a forma de capital financeiro, e a grande propriedade estatal, nacionalizada, de China e Rússia.
A desdolarização da economia mundial, a desindustrialização do próprio EUA, as instabilidades inflacionárias, o artificialismo do crescimento em setores de serviços e, agora, da indústria militar, tudo compõe o quadro de crise para a burguesia norte-americana, fração mais importante do imperialismo mundial. Se os ataques virão sobre a forma do discurso “democrata” ou “republicano” dependerá da luta de classes em nível nacional e internacional. A direitização geral da política burguesa pode se expressar tanto por meio de uma figura abertamente fascistizante quanto por meio de medidas antidemocráticas, assumidas pelos outros poderes do Estado, como o poder judiciário, ao intervir abertamente para decidir o resultado das urnas. De qualquer forma, as massas norte-americanas e os explorados de todo o mundo devem esperar uma direção de maior opressão vinda da maior potência imperialista a partir desse novo mandato presidencial nos EUA.
