
O Internacionalista n° 11 / NOTAS INTERNACIONAIS / janeiro de 2024
Sanções e Guerra não param a Rússia:
por que as esquerdas continuam errando?
Os dados sociais da Federação Russa, no terceiro trimestre de 2023, ficaram melhores do que há um ano: houve aumento da média salarial de 7,2% e o rendimento geral da população foi 5,1% superior em relação ao mesmo período de 2022. A taxa de pobreza também caiu, de 10,5% para 10,2%. Dados que se confirmam com outros, apesar de todos os gastos com a manutenção da Guerra na Ucrânia e com as sanções impostas pelos EUA e pela Europa.
Segundo prognósticos de agências burguesas, o PIB do país deve continuar crescendo lentamente depois da queda inicial, em 2022, quando se inicia a Guerra na Ucrânia, mas em ritmo superior ao da Europa.
Em 2022, houve queda de 2,1%, momento em que houve maior impacto com as sanções impostas, embora se tenha cogitado, na época, que o país poderia cair entre 8% a 12%, o que era um alarmismo para pressionar a burocracia ligada a Putin. No presente ano, 2023, o crescimento deve ficar entre 0,5 a 1%, como indicam organismos internacionais como o FMI, que aponta para 0,7% de crescimento (o governo russo aponta crescimento de mais de 2%). Em 2024, o crescimento do PIB da Rússia deve chegar a 1,5%, recuperando o perdido em 2022 e ultrapassando o crescimento dos países da zona do euro, que deve ficar em 0,5%.
Em termos de balança comercial, a situação da Federação Russa hoje não é muito diferente da que era em 2019, quando o PIB crescia nesse patamar. O que as sanções impuseram foi uma mudança dos acordos e das relações comerciais entre os países.
Um exemplo é o rendimento alcançado com as exportações de petróleo. O produto teve seu preço limitado pelas sanções, devendo ser comercializado por até US$ 60 por barril, um valor US$ 24 menor do que o médio. Os novos parceiros comerciais se beneficiaram da medida e, mesmo países imperialistas, como o Japão, continuaram comprando acima do preço sancionado. O resultado é que, no presente mês, dezembro, a receita líquida com a venda do petróleo é a maior da história, chegando a US$ 11,3 bilhões, e representando 31% da receita líquida global com as exportações. Os EUA, ainda que pretendessem limitar a venda, não a puderam sufocar completamente, porque isso elevaria o preço do barril para os países que boicotaram as importações da Rússia, ou seja, a medida afeta mais a Europa e o próprio EUA do que a Rússia e os demais compradores, sobretudo, os de países da Ásia, que se beneficiaram com o intenso fluxo do produto, mais barato, em seus mercados. Os dados de outubro do Ministério de Finanças russo apontaram que as receitas derivadas de gás e petróleo mais que duplicaram no último ano, chegando a R$ 86,3 bilhões. Nos dez primeiros meses de 2023, petróleo e gás correspondiam a 28% das receitas orçamentárias, que cresceram nem tanto pelo montante do que arrecadaram, quanto pela taxação mais intensa do governo sobre a produção.
Com efeito, desde o início da Guerra, o governo tem aumentado a taxação das empresas. Em 2022, por exemplo, o governo criou um imposto de 23,5% sobre a exportação de fertilizantes cuja tonelada ultrapassasse os US$ 450 no mercado mundial. Como isso não ocorreu ao longo de 2023, criou outro imposto, no valor de 10% sobre o lucro excedente de qualquer empresa que tenha lucrado mais de US$ 11 milhões em 2022 ou em 2023. Como já apontamos em O Internacionalista, o governo aumentou a taxação sobre a mineração no país, desde o início da Guerra.
Obviamente, as medidas estão ligadas aos esforços de guerra e à manutenção do orçamento frente às sanções. O que chama atenção é o fato de que o governo agir livremente, sem oposição no parlamento ou na sociedade, ao, literalmente, expropriar partes dos lucros dos capitalistas, em favor do orçamento do Estado. Os chamados oligarcas não têm poder para barrar as ações intervencionistas, submetendo-se aos ditames da burocracia governamental.
No início da Guerra, no primeiro semestre de 2022, houve uma grita de vários capitalistas, que temiam perder bilhões com a guerra e, de fato, perderam, muitos deles tendo de fugir da Federação Russa. Os que se opuseram e mantiveram a crítica, morreram de forma “suspeita”: até julho, 10 bilionários haviam se suicidado ou morrido em diferentes “quedas”. Mas não só na Federação Russa, os super ricos da Ucrânia que controlavam o governo e o território ucraniano sofreram duros golpes com a ação do governo Putin: primeiro, em 2014, com a anexação da Crimeia, e agora, com a Guerra em todo o território. Segundo a revista Forbes, a fortuna dos cinco mais ricos da Ucrânia despencou de mais de US$ 21 bilhões para menos de US$ 10 bilhões, entre fevereiro de 2022 a dezembro de 2022.
Quando se fala do poder de compra, isto é, da distribuição das riquezas no interior das nações, a Rússia já é a mais rica nação da europa, tendo ultrapassado a Alemanha ainda em 2022. Segundo os dados já encerrados, o PIB PPC (Paridade do Poder de Compra) da Rússia chegou a US$ 5,32 trilhões em 2022 contra US$ 5,3 trilhões da Alemanha. O PIB PPC contabiliza o valor de todos os bens e serviços finais produzidos em uma nação, levando em conta não só os valores brutos que são contabilizados no PIB, mas o custo relativo de vida e as taxas de inflação do país. A Rússia fica atrás de China, EUA, Japão, potências mundiais, mesmo enfrentando um consórcio de nações na Guerra na Ucrânia e um crescimento da inflação, de 5,1% para 5,7%, entre o segundo e o terceiro trimestre do ano.
Conclusões
Olhando em conjunto esses dados, como outros que fomos publicando em 2023, em O Internacionalista, podemos chegar a dois caminhos para a análise: a perspectiva liberal burguesa, que pode se apresentar sob mil formas diferentes, mas que conclui que, após o fim da URSS e o fim do “socialismo”, foi possível a reconstrução capitalista e a ascensão da Rússia a um país imperialista, cujo domínio do grande capital industrial e financeiro atua com as mesmas políticas dos países imperialistas; e a perspectiva marxista-leninista-trotskista, sustentada por Guillermo Lora até a sua morte, de que não se restaurou o capitalismo, que o Estado ainda é um Estado operário degenerado, assentado na grande propriedade estatal/nacionalizada e, assim, a “resiliência” e a potência da economia russa estão ligadas ainda a essa base econômica, fruto da revolução proletária, impossível de ser derrubada sem guerra civil que derrube a própria burocracia governamental parasitária e destrua o poder da grande propriedade estatal dominante.
Os revisionistas querem se filiar à tradição leninista e trotskista, mas se negam a tirar as conclusões lógicas, históricas e econômicas de suas formulações acerca da restauração capitalista no país. Na prática, caem em posições liberais burguesas; na atualidade, imperialistas, como ao defender armas para a Ucrânia, ou clamando por uma “revolução mundial” genérica, para salvar os oprimidos da Ucrânia e da Rússia, de forma indistinta, como se as tarefas, táticas e estratégia fossem as mesmas. No fundo, ambas as posições revisionistas perfilam-se por detrás da OTAN e do imperialismo e convergem com as explicações burguesas, de um capitalismo renovado e, em nova fase, o “pós-capitalismo”, que garante uma sobrevida para a forma de exploração e para o modo de produção decadente. No essencial, abandonaram o programa da Revolução Política.
