
O Internacionalista n° 12 / fevereiro de 2024
Editorial Internacional
As massas devem derrotar seus opressores com seus próprios métodos, os da luta de classes
Passou uma semana desde que a Corte Internacional da Justiça (IJC) resolveu aceitar como “plausível” a acusação de genocídio contra Israel apresentada pela África do Sul, que exige do estado sionista que “pare” com o genocídio, “acabe” com a incitação política contra palestinos e “garanta” acesso e ajuda humanitária a Gaza. Mas, não “determinou” o cessar-fogo e retirada das forças de ocupação em Gaza e Cisjordânia. Ficou em evidência que a IJC é um instrumento do imperialismo que, apesar da declaração, não fará e exigirá dos governos nada para impedir de fato o genocídio dos palestinos.
A farsa da Corte não se contrapõe às decisões políticas e práticas dos governos aliados ao sionismo, de continuar a defender o “direito de Israel à autodefesa”, o que na prática significa continuar a armá-lo e provê-lo de recursos (militares e financeiros, via acordos comerciais), para continuar seu genocídio. Não por acaso é que, logo após publicada a “resolução”, Israel acusou agentes da Agência das Nações Unidas de Assistência e Obras para os Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA), dependente da ONU, de colaborar com o Hamas nos ataques de 7/10/2023. Rapidamente, a coalizão de países imperialistas que apoiam o sionismo apoiou tais acusações (sem que exista prova disso), e suspenderam o financiamento à UNRWA. Essa decisão combina-se com os bloqueios de rodovias por sionistas em Israel, que impedem a entrada da ajuda humanitária em Gaza. O que resultará em mais mortes e fome generalizada da população. Os imperialistas e os sionistas promovem o genocídio aos olhos de todos.
A ONU também tem publicado inúmeras “resoluções”, a exemplo da solução dos dois estados. Os EUA patrocinaram, e Israel e a OLP assinaram, nos Acordos de Oslo, medidas tendentes a impor essa resolução. Mas, o imperialismo e Israel apagaram com as armas o que assinaram com a caneta. A IJC, portanto, poderá aprovar um monte de resoluções, mas nada mudará o chamado “direito do sionismo de responder” e continuar com a colonização da Palestina, a limpeza étnica, o apartheid e o genocídio em Gaza e Cisjordânia. Netanyahu já disse qual a “solução final” do Estado de Israel para “problema palestino”: impedir a existência de um Estado Palestino e realizar a posse colonial de suas terras e recursos, em benefício da burguesia sionista. Esse é o conteúdo dos mais de 76 anos de existência do sionismo como enclave do imperialismo na região.
A resolução da IJC, entretanto, servirá para criar ilusões entre as direções políticas, reformistas e centristas, de que é necessário pressionar para que a “derrota moral” se torne em condenação jurídica. Essas ilusões servirão, em última instância, para a burguesia e os governos desviarem os movimentos de massas que se projetam por todo o mundo para a via morta dos processos jurídicos e pressões institucionais. Uma resolução pacífica e institucional da “guerra” na Palestina acabará em uma solução imposta nos termos ditados pelo imperialismo e seu vassalo sionista, como já demostraram a impossibilidade de efetivar os dois Estado e os acordos de Oslo. Os palestinos e suas organizações políticas (que sabem pela experiência o quanto vale a palavra dos opressores e as resoluções das organizações que eles manejam à vontade) devem dar as costas aos que falam de “derrota moral”, quando bem sabem que a luta de morte que empreenderam há mais de 76 anos pela sua autodeterminação somente poderá vir da derrota do sionismo, e do fim do estado genocida que serve ao imperialismo como opressor dos povos.
Os ataques das milícias xiitas e Hezbollah às posições sionistas e norte-americanas no Oriente Médio (que causaram mais de 35 mortos entre soldados norte-americanos) são embriões da guerra que vem abrindo caminho entre os oprimidos contra os opressores. Também são parte dessa guerra contra os opressores, as ações militares dos houthis contra comércio e transporte de mercadorias e armas imperialistas e sionistas. Decidiram atacar porque sabem que a derrota que importa não é moral, e sim a física e militar, as que determinam os avanços na luta pela libertação das nações e povos oprimidos contra a opressão do imperialismo e seus vassalos de ocasião. Sem desconhecer as ligações e apoio dos governos nacionalistas a esses ataques, não se deve obscurecer que seu conteúdo reside nas profundas tendências anti-imperialistas das massas oprimidas, ainda que deformadas pela política nacionalista islâmica.
Esse mesmo instinto de revolta anti-imperialista está presentes nas greves, bloqueios de portos e aeroportos, de rodovias e ocupação de empresas militares que se realizaram naBélgica, Espanha, França e Inglaterra, por setores da classe operária, cujo conteúdo é instintivamente revolucionário, por se opor aos governos, aos métodos institucionais e à violência contrarrevolucionária da burguesia.
É dessa contradição objetiva que surgem as bandeiras de combater ao lado dos oprimidos, sem compactuar, nem apoiar com a política e programa de suas atuais direções. Ou se está com as massas, que instintivamente expressam suas tendências revolucionárias surgidas da situação objetiva, ajudando-as a elevar sua consciência coletiva das tarefas históricas da revolução, combatendo ao lado delas, ou se está do lado da burguesia mundial, do imperialismo. A chave da vitória está nas mãos da classe operária mundial. É com os métodos da luta de classes (greves, ocupações de fábricas, bloqueio de portos, fechamento de rodovias pelas que passam os apetrechos bélicos, destruição de armas nas fábricas, ocupações das fábricas de armamentos, boicote aos interesses comerciais do sionismo e imperialismo, etc.) que o proletariado ajudará os palestinos e houthis a derrotarem seus inimigos, e enfraquecer sua burguesia criando uma via para a luta pela sua derrubada do poder.
A tarefa mais imediata da vanguarda é a de ajudar os explorados a romper com o véu democratizante e as ilusões democráticas que servem à burguesia. A luta pelas reivindicações mais sentidas e pela derrubada das contrarreformas é parte integrante dessa luta dos oprimidos mundiais contra a opressão imperialista. A cumplicidade das direções políticas e sindicais com a defesa dos métodos institucionais e jurídicos deve ser denunciada e combatida abertamente, por servir à burguesia em seus ataques contra as massas, e desviá-las da luta de classes pela sua emancipação.
É em meio dessa luta em cada país que se forjará a direção revolucionária, que saberá como se apoiar nas tendências mais profundas da luta das massas, e desenvolvendo o programa e estratégia da ditadura e revolução proletárias, construir a direção revolucionária dos movimentos e sua independência política e organizativa da burguesia, assim como em relação aos partidos nacionalistas e reformistas de todo tipo.
