O Internacionalista n° 12 / SINDICAL / fevereiro de 2024


No dia 30/01/2024, foi convocada uma reunião organizada pelas direções sindicais dos trabalhadores ferroviários, metroviários e Sabesp, para apresentar o calendário de lutas acordado para a retomada das lutas contra as privatizações. A mesa, estava conformada pelos presidentes dos dois sindicatos dos trabalhadores ferroviários da região e da Sabesp, por diretores de petroleiros e eletricitários, junto a um membro do MTST e da coordenação da subsede Oeste da Lapa da Apeoesp.
O presidente dos metroviários de São Paulo (Força Sindical) apresentou a reunião, afirmando que convocavam os sindicatos e entidades a retomarem a luta contra as privatizações. E que diante da “tragédia” da eleição de um governo direitista e fascista se lhe devia opor a eleição de um “governo próprio”, defendendo assim a candidatura de Boulos para prefeito. Ressaltou também que as greves (apenas duas de 24 horas, e separadas por mais de um mês uma da outra) do ano passado foram “as maiores do país”, mas não conseguiram “remover” Tarcísio de suas decisões. Disse que, sendo convocada para fins de fevereiro uma sessão na Alesp para tratar da privatização da linha 7 Coral, da CPTM, as direções decidiram aprovar um calendário de lutas, porque “não havia mais o que fazer”.
A presidente do sindicato de metroviários assinalou que, apesar das diferenças, os sindicatos tinham a prioridade de travar a luta unitária contra as privatizações de Tarcísio. Que nessa luta os sindicatos “tinham a razão dos argumentos”, e que a “maioria da população está do nosso lado”. Daí a importância de retomar a luta “pela disputa da opinião pública”, porque a luta é “de maiorias e não de minorias”. O presidente do sindicato da Central Brasil (sindicato de ferroviários) chamou a “aprofundar a mobilização” e unidade porque, “perdendo a linha 7”, se veriam prejudicados os trabalhadores de São Paulo. E propôs agregar ao “calendário” a realização de um “grande show” com os que “apoiem nossa luta”. O presidente da Sabesp chamou à luta unitária entre a sociedade e sindicatos “para derrotar Tarcísio”. A representante da subsede da Apeoesp disse que o governo Tarcísio também atacava os professores, e que recentemente tinha demitido 50 mil deles, e agora pretendia entregar 30 escolas à gestão privada. Assim, estava colocado um “ano de lutas” e que levaria às assembleias da categoria a defesa dos atos unificados. O diretor dos eletricitários destacou que o combate contra as privatizações era de “narrativas” para mostrar que as privatizações “não deram certo”. Por isso, se deveria “dosificar” a radicalização, para não “perder a narrativa”. Enquanto a diretora dos Petroleiros disse que a categoria sabia da luta contra privatizações e que levaria às bases os debates do encontro, se solidarizando com os ferroviários.
Após as falas da mesa, foram abertas inscrições. Altino, da CSP-Conlutas, caracterizou a luta contra as privatizações como “uma guerra social”, de classes. O presidente da CTB de SP, assinalou que, apesar de “ganhar a narrativa … perdemos a luta” pela Sabesp. A representante da CUT afirmou que “o plebiscito foi vitorioso”, e agora era hora de retomar a luta, visando a derrotar Tarcísio. Algumas organizações e correntes propuseram deflagrar a greve “sem data para acabar”, acusando ainda as direções de ter agredido trabalhadores da oposição em 2023, por terem exigido a organização das bases, etc.
Em meio às falas, foi apresentado o calendário de luta das direções. A interrupção dos oradores que desenvolviam suas posições mostrou que as direções não convocaram o encontro para discutir programa, ações, métodos e muito menos aprovar mudanças no calendário. Inclusive as assembleias das categorias estão convocadas para a semana de 19 de fevereiro. Nelas, as direções acordaram apresentar o calendário decidido por elas, burocraticamente, por cima das bases, e sem as consultar. Como se vê, a “retomada das lutas “das direções não passa da “retomada dos métodos burocráticos” do ano passado, que como a própria mesa reconheceu, culminou na derrota da Sabesp. Tanto é assim que a “luta pelas narrativas”, os gritos de “Fora Tarcísio”, a necessidade de “dosificar” a radicalização na disputa por “ganhar a narrativa” não passam de declarações obscuras de que, mais uma vez, se submeterão as greves, atos e manifestações à luta e calendário institucional e, neste ano particularmente, à disputa eleitoral. Isso explica ainda porque a “greve” (ainda não confirmada) foi convocada no mesmo dia de convocada a sessão na Alesp para tratar da privatização da linha 7.
Nota-se que a burocracia de esquerda (PSOL nos metroviários, e PSTU na Conlutas) está em pleno acordo com a burocracia reformista (CTB, pelo Sitaema) e direitista (Força, ferroviários e eletricitários) em defender a “unidade burocrática” que afundam a luta nos métodos da judicialização e pressão parlamentar. O fazem contra o setor das bases e do movimento contra as privatizações, que exigem a unidade construída desde as assembleias de base e comitês unitários para radicalizar o movimento. O fizeram também no ano passado (na assembleia de metroviários de novembro), quando se unificaram às burocracias direitistas, contra convocar novas assembleias que poderiam votar a continuidade. Por isso, de que serve gritar que estamos em “uma guerra”, se se a evita ao unificar com as direções governistas que enterraram a disposição de luta das bases e as arrastaram à farsa da Alesp? A Conlutas e o PSOL se negam a romper o “calendário” de conciliação de classes que levou à derrota da Sabesp. Uma guerra que sequer a Conlutas travou na GM, para impedir os PDVs que desgraçam os operários. Hipocrisia essa que compartilham junto do representante do Comitê de luta contra aumento das tarifas, que impõe ao movimento formas deliberativas e de ação acordadas por cima, e se negam a defender a estatização sob controle de usuários e trabalhadores do transporte rodoviário na cidade de SP. Essa bandeira poderia unificar as lutas, junto aos trabalhadores e usuários, ao invés de uma declaração vazia na reunião.
Enquanto essa hipocrisia dos setores ditos “classistas” e de “esquerda” roda à solta com a conivência cúmplice da burocracia reformista e direitista, que posa de democrática, os gritos de “Fora Tarcísio” deixaram claro qual a “estratégia” das direções burocráticas, incluída a psolista dos metroviários: usar a “unidade” burocrática para servir à campanha e candidatura de Boulos-Marta. Esse é o verdadeiro conteúdo da unidade “acima das diferenças”, sob o espantalho de “derrotar o fascismo”. Qualquer posição que critique a unidade burocrática e traidora é rotulada de serviçal da direita. Mas, na prática, quando se abre mão da luta de classes ao redor das reivindicações mais sentidas, se abre o caminho para os ataques direitistas da burguesia e seus governos, de direita ou de esquerda.
A “retomada” da luta será de novo marcada pelos métodos de controle burocrático e rejeição da ação direta. Quer dizer, pelo objetivo de “pressionar” a Alesp (Assembleia Legislativa de S. Paulo) e negociar como “revertê-las”. Como Tarcísio é antagônico à conciliação, daí a importância da luta neste ano pelo “governo próprio” de Boulos na prefeitura. Ora, as burocracias sabem que as privatizações são objetivo do governo Lula. Mas, usam apenas as do governo Tarcísio para seus ataques, porque servem a esses interesses eleitorais. Demonstram que só se importam em usar os sindicatos e lutas em favor do democratismo e da conciliação de classes. Esse é o real conteúdo do calendário, que tem apenas um dia de greve (26/02, dia do “leilão” da linha 7), e o restante são atos simbólicos na Alesp (08/02), em dia de audiência pública, participação em blocos de carnaval (desde 09/02), participação nas audiências judiciais contra perseguidos dos metroviários, e uma panfletagem “unificada” no dia anterior ao leilão da linha 7 (22/02).
Sob controle da burocracia e presa ao cretinismo parlamentar e judicial, as manifestações e greves voltadas a servirem de base da manobra eleitoral do reformismo pró-imperialista serão fatalmente derrotadas. E a privatização da CPTM por “fatias” continuará. Essa é, na verdade, a lição “trágica” de 2023 com a Sabesp. Foi uma imposição pela força do governo, contra um movimento organizado pelas burocracias, e que subordinou as duas greves de 24 horas aos métodos democratizantes. Tarcísio venceu a conciliação de classes e unidade burocrática, não os trabalhadores que ainda não desenvolveram toda sua capacidade de luta e força coletiva. Ou seja, o governo venceu porque não teve de enfrentar a democracia operária e a ação coletiva das massas, a greve por tempo indeterminado e paralisação de todos os serviços, até a retirada dos projetos de lei privatistas. Portanto, a lição é que não se derrota o governo com “narrativas”, e não se freiam as privatizações impostas pelo capital financeiro no campo institucional manejado pelos capitalistas.
As direções sindicais burocratizadas, contrárias aos métodos próprios dos trabalhadores, sempre procuram uma via de acomodação e subordinação prática da luta grevista à democracia e instituições burguesas. O que significa negar na prática que somente os trabalhadores do setor e o conjunto da população assalariada, que dependem dos serviços ameados de privatização, podem assumir, com suas próprias mãos e métodos de luta, a defesa do caráter público e estatal dos serviços públicos essenciais. Enquanto a direção não tiver de enfrentar um movimento radicalizado das bases, que lhe imponham seu programa e seus métodos próprios, os trabalhadores arcarão com derrotas. O que exige forjar uma direção classista e combativa, em luta aberta contra as burocracias pelegas e traidoras. Essas são as principais lições surgidas do ano passado, e que continuam presentes como tarefas a serem cumpridas.