
O Internacionalista n° 14 / abril de 2024
Editorial / Campanhas salariais
Todos os governos burgueses estão ajoelhados diante do militarismo imperialista e do genocídio sionista
O Conselho de Segurança da ONU votou uma resolução de cessar-fogo em Gaza e libertação dos israelenses detidos pelo Hamas, em troca de Israel libertar 800 presos palestinos. Os EUA se abstiveram da votação, alegando a não condenação explícita do Hamas em 7 de outubro, e depois de fazer cinicamente uma série de emendas no texto. O governo Netanyahu imediatamente respondeu que não acatará a resolução e manteve o ataque sistemático ao sul de Gaza, matando dezenas ou até centenas por dia. As negociações no Qatar entre Hamas e Israel também não avançaram, o governo sionista não aceita nada que não seja a destruição completa do Hamas, e a posse do conjunto do território da Faixa de Gaza. O número de mortos pelo genocídio sionista superou os 32 mil, em grande parte, crianças. A fome se espalha na região, e as mortes por inanição ameaçam mais de meio milhão de palestinos. O governo genocida tem impedido a chegada de ajuda humanitária à região. Enquanto apenas alguns barcos chegam ali com alimentos e remédios, os aviões dos EUA mantêm os tanques e demais armas sionistas carregados para matar palestinos diariamente. Todos os recursos financeiros e militares necessários ao governo genocida continuam a chegar, vindos de países de todo o mundo – especialmente das potências imperialistas – decorrentes de acordos comerciais, militares, acadêmicos, etc. Apesar do cinismo das lágrimas de declarações de governos contra o genocídio, que partem de vários países, nenhuma ação concreta é tomada para inviabilizar os ataques sionistas. A omissão é, neste caso, colaboração e cumplicidade com o genocídio. O governo Lula/Alckmin está entre esses governos, apesar da retórica. O conjunto dos governos burgueses está subordinado às diretrizes belicistas que impõem os EUA. O imperialismo, diante do avanço da crise mundial do capitalismo em decomposição, busca compensar as tendências de recessão e inflação com o impulso à indústria armamentista – os EUA têm um orçamento militar anual de quase US$ 900 bilhões. O apoio ao sionismo no Oriente Médio, com provocações escancaradas aos países árabes simpáticos à causa palestina, é parte da política levada adiante contra a Rússia na Ucrânia, ou a pretendida no Sul do Pacífico contra a China (disputa por Taiwan).
A exigência de ruptura dos acordos e toda colaboração com Israel é defendida em todos os países pelas massas que majoritariamente se colocam ao lado dos palestinos contra o sionismo. As manifestações massivas em todos os continentes mostram que as massas assumiram essas bandeiras. São particularmente radicalizadas na Jordânia, Egito e Turquia. As massas exigem de seus governos a ruptura das relações com Israel e, setores delas se mostram dispostas a lutar contra o sionismo. Mas ainda não elevaram seu movimento ao choque mais radicalizado contra seus governos.
Alguns setores operários se movimentaram na direção do boicote ao envio de insumos para o genocídio sionista (Espanha, Bélgica, Grécia, Índia, Suiça). Greves, paralisações de carregamentos de equipamentos militares e ocupações de portos foram feitas em alguns países. Centenas de sindicatos estadunidenses se uniram para exigir o cessar fogo em Gaza. As massas oprimidas, tendo o proletariado à frente, podem impor o fim do genocídio em Gaza, e abrir caminho para avançar na luta anti-imperialista e anticapitalista. Seu obstáculo no momento são as direções das organizações de massa, que não impulsionam a luta de classes como meio de combate pelas reivindicações contra sua burguesia e seus governos.
O apego dessas direções ao democratismo burguês não é particularidade brasileira. Na Europa, por exemplo, as massas têm sofrido com medidas de cortes de gastos e de direitos, econômicos, sociais, e de manifestação e organização políticas. Os governos impõem as medidas por meio das democracias burguesas, ou até mesmo por cima delas. Veja-se a reforma da Previdência francesa, imposta por decreto e contra um forte movimento de massas em oposição a ela. O governo francês apoia a guerra na Ucrânia, gastando bilhões, enquanto corta a aposentadoria e favorece a importação de grãos ucranianos com isenção de impostos, o que prejudica duramente a produção de seu próprio país. As bandeiras de fim de todo gasto com a guerra e defesa das reivindicações das massas estão colocadas. Mas as esquerdas estão do outro lado das trincheiras, apoiando a guerra imperialista e os gastos militares do governo, à custa de ataques às condições de vida e trabalho em seu país. A crise mundial do capitalismo vai estrangulando as democracia burguesas em toda parte, e fortalecendo as tendências fascistas, e as candidaturas da direita tomam hipocritamente as reivindicações populares em suas mãos, fortalecendo-se nas disputas eleitorais. A chamada “defesa da democracia” – empunhada pelas esquerdas direitizadas –, que se manifesta como obstáculo à luta de classes pelas reivindicações das massas e desvio para as eleições, parlamento e justiça burgueses, acaba no final servindo ao avanço da mesma extrema direita que se diz combater. E a democracia burguesa defendida é usada como meio de despejar sobre as massas as contrarreformas de ataques às condições de vida e trabalho.
A decadência industrial dos EUA tem sido aproveitada principalmente pela China, cuja indústria alcançou um terço da produção industrial mundial. Mas também pela Rússia, que paralelamente expande seus negócios no Oriente Médio, na África e América Latina. As duas economias, que tiveram seus ramos fundamentais nacionalizados pelas revoluções proletárias, conseguem crescer em meio à crise mundial capitalista, por conta da centralização e planejamento, ainda que burocrático, e de não terem de se submeter à concorrência e à anarquia da produção capitalista. Mas o controle das burocracias que expropriaram o poder econômico e político das massas continua sendo o elemento de liquidação das conquistas revolucionárias do proletariado. Essas camarilhas agem sempre com o único propósito de preservar a fonte de seu poder político e seus ganhos – a propriedade nacionalizada. Por isso, são incapazes de levar adiante a luta anti-imperialista, mesmo na situação de declínio das potências. Por isso, não moveram uma palha em defesa dos palestinos massacrados pelo sionismo, quando a Rússia tem tropas na vizinha Síria, e tem influência sobre governos vizinhos. Essa atitude vil comprova a grande importância que tem a defesa do programa da revolução política nos países onde houve a revolução social e burocracias tomaram o poder. Programa que foi abandonado pela esmagadora maioria dos que se dizem “trotskistas”. O dever revolucionário diante da opressão de uma nação oprimida é defendê-la da agressão de um país opressor. A falta de ação de Rússia e China quanto ao genocídio palestino é mais uma prova do papel contrarrevolucionário dessas burocracias.
O caráter contrarrevolucionário desses dois governos não impede que o proletariado mundial mantenha a defesa da propriedade nacionalizada nesses países como conquistas revolucionárias, em oposição a toda pretensão das potências imperialistas de destruí-las. Toda vitória do imperialismo é uma derrota do proletariado mundial, e toda derrota da burguesia mundial é uma conquista do proletariado em seu caminho em direção ao socialismo. Assim, a posição do proletariado na Ucrânia e na Palestina é a mesma: derrota militar do imperialismo e do sionismo, sem apoiar governos ou suas políticas e métodos.
As eleições na Rússia mostraram um grande apoio popular ao governo Putin, não pelo resultado eleitoral, certamente manipulado pela burocracia autoritária, mas pelo grande comparecimento popular às urnas. Resultado que indica fortalecimento do poder da burocracia reacionária, e maiores dificuldades em travar a luta política pela sua derrubada e pela restauração do poder das massas sobre a política e a economia. O fortalecimento da burocracia vem de fatores externos a ela, que são o crescimento da economia russa favorecido pela crise capitalista, e avanços militares na guerra contra a OTAN na Ucrânia, decorrentes do enfraquecimento da ajuda militar das potências, em particular dos EUA. Uma guerra em que a burocracia não tem como buscar a vitória, que dependeria de uma ação revolucionária que impulsionasse a luta das massas contra os governos, não apenas da Ucrânia, mas de toda a Europa. Mas Putin quer apenas garantir circunstancialmente a fonte de seu poder político e ganhos, nada mais – está em busca de mais um acordo com o imperialismo. Este busca manter a guerra que lhe garante a exportação de armas e insumos, e assim ajuda a preservar sua economia nacional.
A decomposição capitalista afeta diretamente a vida das massas em toda parte. É tamanha que países inteiros passam ao controle de gangues assentadas em atividades ilegais, como acontece no Haiti, na maior parte do Equador, e se retoma na Colômbia. As diferenças dizem respeito mais às particularidades de desenvolvimento nacional que às tendências gerais. O México já tem uma trajetória de décadas de domínio da criminalidade sobre regiões e setores econômicos. No Brasil, também se acentuam as disputas de organizações criminosas, infiltradas na Polícia e no aparato do Estado, como comprova o planejamento do assassinato de Marielle Franco e de seu motorista em 2018, e a ação policial genocida em áreas como a Baixada Santista em São Paulo, ou na Bahia, sob diferentes governos. A diferença está na força ainda existente de ramos da economia nacional.
Diante do aprofundamento da decomposição do capitalismo mundial, dada pelo esgotamento da fase de recomposição de forças produtivas gerada após a 2ª Guerra Mundial, vivemos nos últimos anos um período de avanço da luta de classes mundial. As grandes manifestações em favor dos palestinos indicam as tendências das massas, que já se manifestaram antes, por exemplo, no levante nacional contra o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, e das greves na educação e nas montadoras, que ali se seguiram, nos levantes das massas no Equador, Bolívia e Chile, ou nas poderosas greves em países europeus e a greve geral na Índia. Se as contradições do capitalismo obrigam as massas a se mobilizarem, encontram pela frente o obstáculo das direções de suas organizações de massas. A crise mundial de direção revolucionária se expõe com toda clareza nessas situações. Demonstra a necessidade do partido mundial da revolução socialista, a ser reconstruído a partir do programa e das tradições do marxismo, do leninismo e do trostkismo. A firme defesa das reivindicações das massas, que se chocam todas com as burguesias e seus governos, por meio da luta de classes, com a democracia operária e independência de classe, permitirão desenvolver a fusão desse programa com as ações revolucionárias das massas, elevando-as ao nível da conquista de seu poder próprio. É por isso que lutamos.
