
O Internacionalista n° 15 / maio de 2024
Editorial
Unidade burocrática das direções, divisionismo das organizações e das lutas
O 1º de Maio em São Paulo deste ano mostra bem o divisionismo que impera na organização dos explorados, de um lado; e o divisionismo das organizações e movimentos, de outro.
Três manifestações separadas: uma, governista, realizada pelas maiores centrais sindicais e partidos da base do governo burguês de frente ampla de Lula/Alckmin – com a presença de políticos e partidos da direita considerada aliada do governo, e com objetivos eleitorais de fortalecimento das candidaturas dessa frente burguesa; outra, da chamada “oposição de esquerda”, convocada pela CSP-Conlutas, PSTU e satélites, com o objetivo de fazer uma manifestação de oposição ao governo e à extrema-direita, mas no campo eleitoral – fortalecer as candidaturas do chamado “polo classista”; uma terceira, a tradicionalmente realizada na Praça da Sé, que antes se chamava de “internacionalista, classista e independente dos patrões e dos governos”, mas que, hoje, está sob clara influência política de setores que a usam como meio de disputa eleitoral – combater o chamado “fascismo” dos governos estadual e municipal, e defender as candidaturas de “esquerda”, além de acobertar politicamente a responsabilidade do governos federal nas mazelas sofridas pela população assalariada.
Percebe-se que todas as três manifestações têm um conteúdo de disputa eleitoral, nesse ponto, existe uma unidade entre elas. É uma unidade burocrática, não é resultado de uma unidade das massas, ainda que fosse eleitoral. Também existe uma unidade em rebaixar ou ocultar as reivindicações dos explorados, de modo a não prejudicar os interesses eleitorais. E mais uma unidade, que é a de apontar que, por diversas formas, é possível defender as reivindicações das massas através da disputa eleitoral, pressão parlamentar, ou judicialização das lutas, subordinando ou em oposição aberta aos métodos da luta de classes.
O pretexto de alguns, para essa conduta miserável, é a de que a extrema direita é um perigo, e que a forma de evitar que ela volte ao poder é defender com unhas e dentes o atual governo, que não passa de uma unidade da esquerda com a direita burguesa, na qual a esquerda comparece subordinada. Abandonam as reivindicações das massas, mesmo aquelas mais sentidas e imediatas, como emprego e salários, em nome da defesa de um governo burguês cuja política econômica é de ataques às massas, às suas condições de vida e trabalho, em nome do sustento do parasitismo financeiro e de maior superexploração do trabalho assalariado.
Para outros, tudo deve estar subordinado ao combate ao “fascismo”. Os governos municipal e estadual de São Paulo seriam “fascistas”. Daí a conclusão que tudo deve estar subordinado ao combate ao “fascismo”, e à defesa da democracia burguesa, até mesmo as necessidades mais sentidas das massas. Embora Tarcísio de Freitas seja um tipo fascista, um político de extrema direita em seu discurso, seu governo não pode ser precisamente caracterizado de fascista. Não é um governo de anulação do parlamento (o qual maneja com tranquilidade), nem voltado à destruição das organizações das massas. É um governo que está empenhado em desenvolver profundamente as medidas necessárias para preservar os lucros capitalistas em meio à crise econômica mundial: acelerar as privatizações, cortar gastos em serviços sociais públicos, aumentar o poder repressivo policial. Como a burguesia paulista é uma das mais reacionárias do país, Tarcísio se beneficia de uma ampla maioria parlamentar, assim como o faz Ricardo Nunes, o prefeito da capital. É a democracia burguesa o instrumento que utilizam os dois políticos da extrema direita para impulsionar seus ataques aos salários, empregos e direitos. E boa parte da esquerda pretende usar essa mesma democracia burguesa…. contra os interesses mais gerais e imediatos da burguesia! Está fadada ao fracasso mais absoluto.
O PSTU e seus satélites buscam uma via de “oposição de esquerda” aos dois campos burgueses que se apresentam eleitoralmente. Diante da democracia burguesa cada vez mais estreita, por conta das bases econômica e social que a sustentam, em decomposição, o centrismo busca cavar uma cunha eleitoral aí nesse meio. Enquanto expressão política da pequena burguesia radicalizada, o centrismo não será capaz de expressá-la em sua maior parte eleitoralmente. No campo da disputa eleitoral, a burguesia, com suas frações, arrasta a maioria a apoiar este ou aquele candidato, absolutamente comprometidos com as forças econômicas que os sustentam. Boa parte da classe média reacionária votará no bolsonarismo direitista. Uma parte mais empobrecida vai votar no petismo, sendo o psolismo um derivado dessa equação. Um setor vai votar contra o bolsonarismo, em qualquer candidato. O PSTU não tem a força econômica, nem a penetração nas massas, capazes de projetar suas candidaturas. Também vai fracassar, e arrastar com ele alguns satélites desavisados. Mas o fundamental nem é isso. O fundamental é que aponta para as massas a mesma saída institucional defendida por aqueles a quem se opõe “pela esquerda”.
As massas sofrem com uma série de problemas, parte deles próprios do capitalismo em decomposição, parte deles vindos dos ataques recentes aos salários, empregos e direitos, por meio de contrarreformas e pacotes. Um quarto das moradias brasileiras convive diariamente com o problema da fome, enquanto o governo Lula/Alckmin lhe mantém com um salário mínimo miserável. Metade dos assalariados brasileiros trabalha sem direitos trabalhistas, hoje, em relações de trabalho precarizadas. As privatizações servem aos capitalistas para embolsar fortunas, enquanto os serviços só pioram e ficam mais caros. O número de moradores de rua só aumenta, enquanto existem dez vezes mais imóveis fechados (dados da capital paulista). As violências nos bairros pobres, raciais, sexuais, a menores, só têm aumentado, apesar das leis de proteção. O narcotráfico progride, em meio à destruição física e mental da juventude. Povos indígenas e a natureza são destruídos, de acordo com os interesses de capitalistas, legais e ilegais.
É plenamente possível construir um movimento unitário das massas para enfrentar essa situação, a partir dos métodos da luta de classes. Os ataques dos capitalistas são centralizados e atingem a maioria oprimida simultaneamente. Alguns setores reagem, fazem movimentos, greves e manifestações, mas são mantidos isolados, divididos pelas direções. Podem-se ver greves de categorias irmãs, com reivindicações idênticas, mantidas isoladas lado a lado pelas direções burocráticas.
Vimos há algumas semanas que os professores do estado do Ceará não conseguiram que sua proposta de greve fosse votada em uma assembleia, porque a direção sindical a impediu burocrática e autoritariamente. As bases foram para cima da direção e a expulsaram aos pontapés do local. Mas não recompuseram imediatamente a assembleia para continuar a discussão e a aprovação das medidas necessárias, dentre elas a greve. O fato mostrou a ausência de uma fração revolucionária capaz de realizar essa tarefa ali. O partido revolucionário só pode passar de potencialmente revolucionário para efetivamente revolucionário se consegue dar expressão às tendências revolucionárias instintivas presentes nos movimentos.
A contradição entre o divisionismo burocrático e eleitoreiro das direções sindicais e a necessidade da mais ampla unidade das massas na luta de classes em defesa das suas reivindicações gerais e específicas leva a que as lutas possam ainda ser, de um lado, contidas ou derrotadas, mas também, de outro lado, leva à superação da política das direções e conquista da unidade classista e independente dos patrões e governos. As forças da História são maiores que as dos aparatos burocráticos, mas dependem também da presença e ação política da militância do partido revolucionário.
As condições objetivas do capitalismo em decomposição empurram as massas para as lutas no mundo todo. As mobilizações em defesa dos palestinos alcançam todos os rincões, até mesmo onde o sionismo e o imperialismo impõem seus domínios, como nos EUA. As centenas de prisões de estudantes nas universidades, em onze estados ianques, não destruíram seu movimento. Mas ainda é preciso estendê-lo às fábricas, especialmente àquelas de produção de armamentos e insumos voltados à exportação para Israel, e também para a Ucrânia.
A contradição entre as tendências de lutas das massas no mundo e as atitudes cúmplices de todos os governos em relação ao genocídio em Gaza demonstra a necessidade de voltar as bandeiras corretas de estrangulamento do enclave do imperialismo no Oriente Médio – Israel –, e de derrota militar do sionismo e imperialismo em toda parte – também na Ucrânia – como reivindicações das massas a serem defendidas e conquistadas por meio da luta de classes mundial, em cada um e em todos os países.
O internacionalismo hoje se traduz de forma prática e concreta na luta do proletariado mundial contra a burguesia mundial. Cada passo avante dado pelo imperialismo em qualquer parte do mundo, assim como dos governos nacionais a ele subordinados, será à custa de ataques às condições de vida e trabalho das massas. Cada derrota sofrida pela burguesia em cada um e em todos os países aproximará o proletariado da revolução socialista em toda parte.
