O Internacionalista n° 15 / maio de 2024

Editorial Internacional

As mudanças nas relações de forças mundiais condicionam as guerras e os alinhamentos


O ataque massivo de drones e mísseis do Irã contra Israel e a resposta desse ataque ao Irã, semanas depois, mostraram uma mudança profunda nas relações de forças mundiais. Tanto o ataque iraniano quanto a resposta israelense foram protocolares. Não visaram a deflagrar uma guerra regional internacionalizada e em grande escala. As retaliações foram contidas, de um lado, pela Rússia (aliada estratégica do Irã), e, de outro, pelos EUA. Tanto o governo teocrático iraniano como o regime genocida sionista precisam ser avalizados e apoiados pelo imperialismo e pela casta burocrática estalinizada.
Os EUA não compactuaram com o ataque à embaixada iraniana em Damasco, Síria. Israel pretendia com essa ação unilateral arrastá-los a um apoio mais amplo contra Irã, e romper o isolamento do estado genocida sionista diante dos movimentos operários e populares, mas também das instituições políticas mundiais, pela sua política de genocídio e apartheid racista na Palestina. O sionismo é ciente das necessidades do imperialismo de continuar os conflitos bélicos, para estender os ganhos parasitários de sua indústria armamentista e, assim, equacionar as tendências de queda que abalam sua economia.
Aos EUA, interessa a continuidade do genocídio contra os palestinos e da guerra na Ucrânia, que resultam em fabulosos lucros monopolistas. Mas, não podem estender os choques militares de forma ampla, sem se chocar com sua permanente falta de fundos e dinheiro para fazer a guerra em múltiplas frentes. O agravado processo de desindustrialização e a própria divisão mundial da produção capitalista têm impedido cada vez mais o imperialismo, especialmente norte-americano, alcançar seus objetivos estratégicos, tanto na concorrência da guerra comercial, quanto na manutenção de suas capacidades militares. O que se verifica tanto na incapacidade de produzir em escala e ritmo suficiente para continuar sua guerra contra a Rússia na Ucrânia, e abrir novas frentes de conflito na Ásia contra a China, simultaneamente.
Ainda que é certo que essa tendência até agora esteja equacionada pelo volume de riquezas ainda disponíveis, traduzido em um gigantesco volume de armas e munições nas décadas anteriores, a situação de avanço russo na Ucrânia demonstra que existe o risco potencial de se ampliarem as guerras, e os EUA não teriam como imediatamente elevar a produção bélica ao ritmo de produção russo e chinês. Por isso é que ainda que interesse ao imperialismo a destruição maciça de forças produtivas mundiais, especialmente das economias nacionalizadas pelas revoluções, assim dando sobrevida à decomposição capitalista, tem à sua frente não apenas os gargalos produtivos de suas economias, mas o rápido desenvolvimento das economias nacionalizadas no mercado e no comércio mundiais e, particularmente, na indústria militar.
A Rússia continua crescendo em sua produção industrial, agrícola e militar a ritmos estáveis. Apesar de manifestar os reflexos da crise mundial no interior de sua economia, a China conseguiu, na base de sua indústria nacionalizada, continuar a dar saltos na produção, ainda que menores, e conquistar posições produtivas mais vantajosas em ramos de produção chave mundial, a exemplo de tecnologia de ponta. Esses avanços refletem-se no desenvolvimento das indústrias militares e de suas capacidades bélicas. A indústria nacionalizada russa – apesar de sua direção burocrática contrarrevolucionária – tem permitido não apenas manter um elevado nível de vida das massas diante do bloqueio econômico imperialista e dos gastos de guerra, como elevar sua produção industrial militar várias vezes, incluindo novos avanços tecnológicos que lhe deram grande vantagem na Ucrânia diante da coalizão imperialista, que arma e sustenta a guerra contra a Rússia.
É precisamente esse caráter progressivo das economias estatizadas em permitir avanços relativos em meio às tendências de estagnação da produção capitalista que a burocracia tenta preservar com todas suas forças, não para avançar em direção à derrota do imperialismo, mas para ter vantagens em seu objetivo de negociar com ele, uma vez que, da permanência dessas bases materiais conquistadas pela revolução, depende sua existência de casta parasitária. Isso explica porque a Rússia, assim como a China com suas particularidades, faz de tudo para não projetar as tendências bélicas e evita um conflito direto com o imperialismo. Seja na Ucrânia, seja no Oriente Médio, enquanto o imperialismo precisa estender esses conflitos, as burocracias estalinistas procuram, por todos os meios, freá-los e negociar tréguas, acordos de paz, etc.
Essas mudanças são expressão das contradições da anarquia da produção e concorrência capitalistas, e das tendências históricas progressivas das economias nacionalizadas pelas revoluções proletárias, apesar das deformações burocráticas. O que se reflete nas tentativas do imperialismo em conter Israel, e da Rússia e da China fazer o mesmo com o Irã. Mas, não apenas refletem mudanças na base econômica mundial, como também as contradições nas relações entre as classes mundiais, que hoje se mostram muito desfavoráveis ao imperialismo e ao sionismo. A revolta dos estudantes universitários norte-americanos contra o apoio e colaboração (científica, acadêmica, econômica, etc.) de suas instituições com o sionismo, assim como a crescente atividade e ações coletivas (bloqueios de portos e aeroportos, bloqueios de indústrias militares na Inglaterra, manifestações contra o genocídio em Gaza se projetando por todas as bases sindicais, etc.) de destacamentos operários atuam contra os interesses econômicos do imperialismo e do sionismo. No Oriente Médio, revela-se a impotência dos regimes burgueses em continuar negociando o sangue palestino para preservar seus interesses, sem entrar em choque com a revolta das massas contra sua inação e cumplicidade com o genocídio palestino. O mesmo curso geral se observa na Europa. São permanentes e crescem as manifestações dos assalariados e oprimidos europeus contra o envio de armamentos para Ucrânia à custa de destruir direitos e rebaixar as condições trabalhistas e salariais. Essas condições projetam os choques de classes antagônicas da sociedade e abrem um caminho para estrangular o sionismo e derrotar a burguesia imperialista.
As condições da luta de classes são muito favoráveis aos explorados e aos demais oprimidos. O instinto anti-imperialista entre as massas surge por toda parte e se estende mundialmente. O instinto internacionalista do proletariado se expressa nas ações (ainda muito limitadas) que levam ao estrangulamento das capacidades militares de Israel, inclusive superando a conivência de suas direções sindicais e políticas com os governos burgueses, que continuam negociando com o sionismo e se subordinando aos interesses do imperialismo. A revolta estendeu-se ainda para todas as camadas dos explorados, que reagem aos ataques dos capitalistas. Essa contradição entre as tendências de luta e a cumplicidade e caráter reacionário de seus governos, sejam de esquerda ou de direita, colocam a importância prática e tática das bandeiras que projetam a derrota do sionismo e das burguesias, que permitam unir as lutas instintivas com o programa e estratégia revolucionária.
Lutar pelas reivindicações mais sentidas das massas e a ação direta contra a indústria e o transporte de armamentos nos países imperialistas, radicalizando os combates e manifestações para arrancá-las dos governos com a luta de classes, isso ataca a base de sustentação do belicismo e do parasitismo financeiro, que desgraça os palestinos e os explorados. É nesse sentido que a derrota do sionismo e do imperialismo na Palestina e na Ucrânia, e a defesa da economia estatizada da Rússia e China contra as ameaças de sua destruição pelo imperialismo, interessam ao proletariado, para abrir caminho à conquista de suas reivindicações e ao avanço para a derrota da burguesia mundial em cada país e no mundo todo, interligando as lutas pelas reivindicações à luta revolucionária mundial.