
O Internacionalista n° 15 / NACIONAL / maio de 2024
O AGRONEGÓCIO, AS FUMAÇAS E A DEVASTAÇÃO AMBIENTAL EM RORAIMA
O estado de Roraima tem enfrentado o agravamento de diversos problemas ambientais, desde o início de 2024, com a seca do Rio Branco, principal rio do estado, com as grandes queimadas, que atingiram 9 dos 15 municípios roraimenses, colocando-os em situação de emergência ambiental. Para se ter uma ideia, em fevereiro deste ano, Roraima concentrou 45% dos focos de queimada de todo o país.
As fumaças das queimadas se espalharam por várias semanas, na cidade de Boa Vista e em outros municípios, o que deixou a qualidade do ar em péssimas condições, afetando ainda mais a população mais pobre, que mal tem acesso à saúde.
Mesmo com o ar insalubre, com grandes perdas ambientais e perdas materiais dos povos indígenas e trabalhadores do campo, e do calor insuportável, o governo emitiu 55 licenças de queimadas, conforme denunciou o Greenpeace. E, em meio às denúncias de queimada, o governo também se posicionou afirmando não ter verbas para o seu combate, disponibilizando pouco mais de 300 profissionais para isso, quando a situação das queimadas já estava alarmante, com 1.691 focos em todo o estado.
É evidente a inexistência de qualquer medida concreta para combate efetivo à devastação ambiental. Por trás da ineficiência do governo, predominam os interesses do agronegócio, de que o próprio governador faz parte.
O governador Denarium (PP) é um empresário da área, que não só atende seus próprios interesses, como o dos demais empresários do agro. Denarium é um dos sócios-fundadores de projetos agropecuários, como o “Frigo10”, maior frigorífico do estado, e da “Coopecarne”, uma cooperativa dos grandes produtores agropecuários. No ano passado, em 2023, o governo de Roraima contratou um pecuarista, dono da “Agropecuária Garrote” e sócio de Denariun na “Frigo10”, que já fez uso de sementes transgênicas e agrotóxicos em terras indígenas, ignorando as leis e até convenções internacionais, das quais o Brasil é signatário.
As evidências da relação entre o governo do Estado e o agronegócio não demonstram apenas uma parceria entre estado e empresários, mas que há negócios do próprio governador na produção agropecuária. Denarium é fazendeiro, criador de gado, produtor de milho e soja. Como político, e articulador dos interesses do agronegócio, o governo segue rigorosamente a agenda ruralista. Os resultados para os agropecuários são excelentes. Em 2022, a safra de grãos cresceu 34,95%, em relação ao ano anterior, e a produção bovina aumentou 40%.
Além disso, Denarium já assinou doações de terras públicas para sócios do “Frigo10”, emitiu licenças ambientais para queimadas, repassou milhões para empresas de produção agropecuária, como a “Garrote”, e criou leis que favoreceram a compra de terras públicas por produtores rurais.
No mesmo ritmo que avançam os interesses do agronegócio, retrocedem os direitos dos povos indígenas que, muitas vezes, são ludibriados com a ideia de progresso e de investimento em suas terras. Assim, o governo aplica projetos nas terras indígenas, conseguindo autorização das próprias lideranças, e usando os próprios indígenas como mão-de-obra.
As mudanças climáticas, a seca extrema dos rios e o calor extremo atingem de forma violenta os povos indígenas e, de forma indireta, a população pobre das cidades, que já sofrem com outros problemas sociais. Observar a realidade concreta leva à compreensão de que os interesses materiais entre o agronegócio, que tem seus negócios gerenciados pelo estado, e os dos povos indígenas e da população trabalhadora do campo, são inconciliáveis. Por isso, as lutas não podem se submeter à conciliação dos movimentos com os governos ou com o parlamento, mas devem ocorrer de forma independente, denunciando o conluio entre o Estado e essas frações capitalistas, para que o conjunto da população pobre, bem como os indígenas em seus territórios, tenham garantidos seus direitos e condições de vida dignas.
