
O Internacionalista n° 15 / NOTAS OPERÁRIAS / maio de 2024
SONOCA
Operários entram em greve pela volta de direitos retirados, e a encerram após um acordo parcial
Os operários da Sonaca, empresa do setor aeronáutico e “parceira” da Embraer, entraram em greve no dia 16/04, exigindo mudanças imediatas nos planos de saúde. O movimento se iniciou em resposta à morte de Adilson Alves de Carvalho, em 15/04, que teve uma parada cardíaca enquanto trabalhava, e foi trasladado em carro de aplicativo, porque a empresa não tinha profissional de saúde, nem ambulância. Internado, teve ainda de enfrentar entraves pela pouca cobertura do plano de saúde da empresa. Para piorar, estava em tratamento contra o câncer e teria de arcar com as consultas, exames e vários procedimentos médicos, cortados pela empresa. Sua morte escancarou a perda de direitos que atingiu brutalmente os operários da fábrica, e quase todos os setores produtivos, visando ao aumento dos lucros dos patrões.
Desde o começo da greve, o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região (CSP-Conlutas) orientou os operários a “ficarem em casa”, aguardando pelas negociações. Nos dias 22 e 23 de abril, realizaram-se as audiências de conciliação, que se encerraram sem acordo. Na audiência de dia 24/05, houve acordo, o qual o sindicato levou, no dia 25/04, para debate em assembleia. A proposta de acordo da direção foi apresentada como uma vitória, os operários aprovaram-na e encerraram a greve.
Os operários exigiam a volta do plano de saúde antigo, sem cobrança de coparticipação, além do abono de todos os dias parados e a estabilidade no emprego. A proposta da empresa não garante as reivindicações que deflagraram o movimento, apenas “parcialmente”. Quanto ao plano de saúde, está “previsto” o fim da coparticipação para gestantes e pessoas que tenham dependentes com autismo, bem como a “redução” da coparticipação para os demais empregados. Quanto à estabilidade, se garante apenas por 60 dias. Não foi noticiado se haverá novas reuniões para debater “novas propostas”. Mas, foi confirmado que se deixará um plantão com profissionais de saúde dentro da empresa.
O acordo com “sabor de vitória” propagandeado pelo sindicato é um acordo provisório, que não traz qualquer conquista definitiva, nem resolve o problema daqueles com enfermidades crônicas, como o caso de Adilson. Os operários ainda terão de continuar a pagar por parte dos atendimentos, consultas e procedimentos médicos, existindo ainda a possibilidade de a empresa retirá-lo mais à frente. A estabilidade por 60 dias é uma nuvem de fumaça, se se observa que a empresa poderá recorrer aos PDVs e às demissões. E se pagará apenas metade dos dias parados, e a outra metade será “recuperada” pelos operários. A Conlutas canta vitória pela consolidação de perdas de parte dos direitos anteriores, e sua recuperação parcial para um setor reduzido dos trabalhadores. A empresa sai ganhando, porque não se comprometeu a estender esses “direitos recuperados”, podendo retirá-los mais à frente, porque tem uma direção sindical que recorre às greves passivas e às negociações no campo de ataques.
Os patrões vêm retirando direitos trabalhistas, para aumentarem seus lucros. Reduzem os ganhos salariais diretos (rebaixamento salarial, PDVs, etc.) e indiretos (a exemplo do corte na cobertura dos planos de saúde). Surpreende, no entanto, que o sindicato que se diz classista não tenha feito uma greve, quando esse ataque foi desfechado. Se o tivesse feito, as condições da luta hoje seriam melhores e, talvez, Adilson estaria melhor protegido. Eis porque uma direção consequentemente classista nunca manda os operários para casa diante dos ataques, mas os organiza junto de outras fábricas em luta ou sob ataques, para golpear os patrões como uma só força, e arrancar todos os direitos e empregos perdidos! É a luta de classes e a correlação de forças surgida dela que determinarão o que se pode arrancar dos patrões!
