
O Internacionalista n° 16 / junho de 2024
Editorial Internacional
Quanto mais o imperialismo afunda na crise econômica, mais tem de impulsionar sua solução pela via das guerras
O pedido de prisão por “crimes de guerra” contra Netanyahu e Gallant, bem como contra três lideranças do Hamas, emitidas pelo promotor-chefe do Tribunal Penal Internacional (TPI), foi resultado da pressão crescente das massas pelo fim do genocídio, e da heróica resistência das massas palestinas. O desinvestimento de dezenas de universidades em empresas e instituições sionistas; o embargo de armas contra Israel decretado por Espanha e Bélgica; a ruptura das relações comerciais da Turquia com Israel; a queda dos lucros de empresas pelas campanhas de boicote e desinvestimento, se contrapõem efetivamente à maquinaria bélica sionista. As pequenas vitórias conquistadas pelas massas em luta – apesar e contra a repressão dos governos – indicam a possibilidade de avançar na derrota do sionismo e imperialismo. Se a classe operária em cada país pôr em ação prática sua força coletiva, visando a estrangular as bases do sionismo e os lucrativos negócios de armamentos do capital monopolista, um passo firme será dado para ajudar o povo palestino a conquistar a Palestina una em todos seus territórios históricos, livre de toda opressão e de sionismo, do rio ao mar.
Qualquer derrota do intervencionismo imperialista na Palestina, assim como na Ucrânia, atingirá uma das principais fontes de lucros do capital financeiro e instrumento do colonialismo e opressão nacionais. Isso assombra a burguesia. Ainda que, com a guerra, os lucros dos capitalistas continuarão, o retrocesso de suas forças produtivas acabará enfraquecendo suas capacidades militares para impor uma derrota à China e à Rússia, se se materializar uma guerra aberta com esses países. É nesse sentido que o isolamento do sionismo e o avanço militar da Rússia atrapalham os planos imperialistas, de dar um salto na ofensiva na destruição das propriedades nacionalizadas pelas revoluções, destruição essa que é a única alternativa para a sobrevivência do capitalismo – ainda seja por um breve período de tempo.
As economias imperialistas se desagregam e se mostram incapazes de garantir sequer as condições de vida das massas em seus países. Antes, precisam destruí-las para alimentar o parasitismo da indústria militar e sobre as dívidas públicas dos estados. Todavia, há inúmeros impedimentos a seu objetivo de reconstituir cadeias produtivas e de logística industrial como almejam para superar os avanços verificados na indústria militar dos Estados Operários degenerados na produção de munições convencionais. O ritmo de produção dessas munições, para alcançar uma “paridade” na produção contra a Rússia, exigiria triplicar as capacidades industriais dos EUA e Europa em até dois anos, anos e garantir as matérias-primas essenciais (a exemplo da pólvora) das que têm falta. E é pouco provável que contem com esse tempo, se as tendências bélicas abrirem caminho a um choque militar mundial.
China e Rússia vêm estendendo e ampliando sua integração e projetando sua influência, enquanto os países imperialistas retrocedem. A maior integração industrial interna da China e Rússia, produto da indústria nacionalizada e da centralização dos recursos e das forças produtivas internas, deram aos Estados operários degenerados uma vantagem, no caso de um cenário de guerra generalizada vir a deflagrar.
A China está a caminho de ser a mais bem equipada marinha de guerra, já tendo ultrapassado, em números de barcos e navios, os EUA. Conquistou a tecnologia para a produção em massa de mísseis hipersônicos e, recentemente, a “fronteira tecnologia” básica para produzir seus próprios semicondutores. Seus produtos mais baratos e em massa inundam mercados, deslocando os produtos norte-americanos, europeus e das semicolônias. O gigantesco excedente de valor criado pelo proletariado chinês se reverte no mercado mundial, com montantes por vezes superiores aos dos países imperialistas. A Rússia hoje produz mais munições convencionais que todos os países reunidos no bloco imperialista que a combatem na Ucrânia, e por um quarto de seu valor! Para as particularidades da guerra travada na Ucrânia, a produção e reparação de armamentos convencionais, em volume adequado às necessidades de reposição dos estoques no front, se tem mostrado decisiva no campo de batalha. Essa vantagem da Rússia se dá graças a uma integração mais elevada dos processos produtivos internos, se comparados à “dispersão” das cadeias produtivas das potências. Maciços investimentos chineses com juros rebaixados, entrega de produtos alimentícios de graça pela Rússia a países africanos, ajuda militar e econômica para desenvolver infraestruturas econômicas básicas em países aliados, etc., são táticas das burocracias para alavancar sua influência e afastar o imperialismo de suas anteriores posições comerciais e militares. E isso acaba agravando as tendências bélicas e os conflitos militares.
O imperialismo impõe barreiras alfandegárias e realiza intervenções militares para frear esses avanços, enquanto procura ampliar suas indústrias, parasitando das riquezas das semicolônias e atacando as massas nas potências. Mas, isso depende de que as massas não se revoltem. O que está longe de ser garantido. É o que demostra o levante na Nova Caledônia, na França, Inglaterra, e quase todos os países capitalistas envolvidos na guerra da Ucrânia ou no genocídio na Palestina. Na África, ex-colônias de países imperialistas se aproximam da China e Rússia, retirando, da contabilidade burguesa, riquezas que vêm subsidiando suas indústrias.
Para o capitalismo contornar momentaneamente essa profunda crise e frear conjunturalmente seu retrocesso, tem de atacar militarmente os Estados Operários e destruir profundamente as economias nacionalizadas, enquanto impulsiona a centralização de todos os recursos produtivos e submete à disciplina militar a força de trabalho nas potências e nas semi-colônias. Isto para dar uma sobrevida ao seu esgotamento histórico. A primeira via levaria à guerra direta com Rússia e China, quando sua economia está profundamente debilitada e em retrocesso, sua indústria militar não está nas melhores condições de o fazer; e ainda, a projetar a luta de classes (e a profundas crises revolucionárias) .
A indústria capitalista conta com séculos de existência. As conquistas técnicas e produtivas alcançadas garantem aos países imperialistas um poderio bélico que permanece em grande parte inalterado. Mas, a anarquia da produção e a concorrência pelos lucros resultaram no seu atrofiamento. Isso não se passa com a indústria nacionalizada, apesar de essa refletir as contradições do mercado mundial, e sofrer da natureza de sua burocracia, que barra sua projeção revolucionária pelo mundo todo. O certo é que a permanência da propriedade nacionalizada e suas demonstradas capacidades de crescer em condições do bloqueio econômico imperialista, apesar das burocracias serem obstáculos a seu livre desenvolvimento), se traduzem hoje em crescimento econômico e maior produtividade industrial, o que acaba se manifestando como maior força militar na guerra na Ucrânia e maior capacidade de enfrentamento militar ao redor de Taiwan.
Esses são os fundamentos que explicam o agravamento das tendências bélicas, da opressão colonial, do genocídio na Palestina e as crescentes tensões militares ao redor de Taiwan e no Mar da China. A ligação entre esses fenômenos de profunda barbárie social é a decomposição do capitalismo. As manobras imperialistas no campo diplomático, comercial, político etc. procuram “comprar tempo” para evitar um choque com seus “adversários estratégicos” quando não tem garantida superioridade militar e econômica – diferentemente da época da 2a Guerra Mundial, em que os EUA estavam em ascensão econômica, agora, todas as potências imperialistas se encontram em declínio. As leis objetivas do capitalismo impõem freios a suas manobras. O fato das burocracias buscarem chegar sempre a um acordo que preserve as bases econômicas e fonte de seu poder e ganhos as leva a abandonar os oprimidos à sua própria sorte quando são massacrados, como na Palestina.
As tendências bélicas se nutrem dos processos econômicos mais profundos, e não se irão alterar, até que se imponha a derrota militar e destruição da propriedade nacionalizada da Rússia e China; ou se realiza a Revolução Política nos estados operários degenerados e as massas exploradas e oprimidas dos países imperialistas derrotam suas burguesias, abrindo passagem à transição ao socialismo. A vitória dos sionistas na Palestina e do imperialismo na Ucrânia a empurraria as massas para o caminho do aprofundamento da barbárie. Sua derrota abrirá caminho à luta revolucionária do proletariado e das massas oprimidas no mundo todo e em cada país. A luta pelo fim do capitalismo, pela defesa da propriedade nacionalizada e pela autodeterminação dos povos oprimidos, são a via pela qual se avançará na construção de verdadeiros partidos revolucionários e se ajudará efetivamente as massas oprimidas a obterem vitórias contra seus opressores e algozes.
