O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024


Conservadores, liberais, social-democratas e “verdes” obtiveram 63% dos votos nas eleições para o Parlamento Europeu: um retrocesso de 10%, em relação às últimas eleições. Sua vitória foi garantida pela votação nos países econômica e demograficamente “pequenos”, que são maioria na União Europeia (UE). Na França, Itália e Alemanha, cresceram os partidos ultradireitistas. Apenas os partidos “conservadores” de direita (social-cristãos) mantiveram quase que inalterados seus resultados eleitorais.

Na França, o Reagrupamento Nacional (RN) se colocou na primeira posição, conquistando 32% dos votos (30 deputados), dobrando os obtidos tanto por liberais quanto por “socialistas”. Na Alemanha, Alternativa para Alemanha/AfD ficou em segundo lugar, com 15 deputados, atrás dos conservadores, e superando a coalizão de governo do chanceler Scholz (14 deputados). Na Itália, o “Irmãos da Itália” conquistou 24 deputados (28,8%), ficando à frente do Partido Democrático/PD (24,1%). Na Polônia, Hungria e Áustria, se consolidaram os partidos nacional-chauvinistas. Na Bélgica, também ganhou a direita reacionária, o que levou o primeiro-ministro a renunciar. Na contramão dessa tendência, na Finlândia, Dinamarca e Suécia, ganharam terreno, os partidos socialistas e ex-comunistas. A apatia, perante uma eleição que não modifica em nada as condições de vida das massas oprimidas da Europa, e não resolve seus problemas, se expressou – espontânea e inconscientemente – no elevado abstencionismo, que chegou a 49%.

A derrota de liberais, republicanos e socialistas na França levou o presidente francês, Emanuel Macron, a dissolver a Assembleia Nacional (onde não conta com maioria), e a convocar novas eleições para o dia 30 de junho. A manobra poderá acabar sendo um tiro no pé de Macron, uma vez que o RN poderá sair vencedor do pleito eleitoral, caso mantenha os índices eleitorais e consiga costurar uma aliança com setores dos partidos direitistas. A esse objetivo se orienta Marine Le Pen, presidenta do RN. Sucedem-se reuniões com os representantes e diretores dos principais monopólios das finanças, do comércio e da indústria francesa, para convencê-los a apoiar o RN. O RN lhes oferece o mesmo plano de governo aplicado por Macron: manter o congelamento de salários, ampliar a redução de contribuições patronais, rejeitar estabelecer preços mínimos para produtos agrícolas, não ampliar a legislação “verde”; ou seja, garantir seus elevados lucros, à custa do empobrecimento da população. Esse “plano” de governo ajudaria o RN a se aproximar da eleição para o governo, mas o colocaria em choque com os setores dos assalariados e dos agricultores que apoiam o partido ultradireitista, precisamente porque prometia-lhes manter direitos e salários e condições para manter os negócios da pequena burguesia rural.

É muito provável que a AfD obtenha importantes vitórias no Leste da Alemanha, nas próximas eleições gerais. Sua projeção se deve ao retrocesso industrial do país, o aumento dos preços dos produtos de consumo, a inflação acelerada e o crescimento da imigração, que começa a se refletir no desespero de setores do proletariado, diante da concorrência de mão-de-obra mais barata, e da pequena burguesia, que aponta para os volumosos subsídios sociais, que desviam recursos que deveriam ser voltados a garantir as condições de vida da população nacional. AfD cresce à custa da aliança do governo (social-democratas, “verdes” e liberais), e do profundo descontentamento com o governo de Scholz. Se a crise persistir, é questão de tempo para que a AfD repita o feito do RN na França.

A crise, aberta pela derrota dos partidos da situação e pelo ascenso da ultradireita, ameaça agravar os problemas dos governos da França e da Alemanha. Da estabilidade política desses dois países depende em grande parte o futuro da União Europeia. É por isso que o avanço da ultradireita tem assombrado os partidos socialistas, socialdemocratas e até setores da esquerda revisionista. Começa-se a ouvir na França chamados para formar uma grande “frente popular”, para barrar a vitória do RN. Entretanto, a alta da luta de classes e a profunda desagregação econômica nas potências econômicas da Europa trabalha em favor da ultradireita, ou então acelerará a virada direitista dos governos liberais e social-democratas, obrigando seus governos a se direitizarem ainda mais, para se manterem no poder.

Diante do curso da crise e da projeção do intervencionismo bélico dos governos da Europa na guerra da Ucrânia, e sua cumplicidade no genocídio em Gaza, tudo para garantir os lucros monopolistas e do capital financeiro, tas massas são levadas a romper e a se chocar com os governos social-democratas e liberais. Diante da ausência de uma direção revolucionária capaz de dirigir a luta das massas sob um programa de luta de classes e de independência política de classe, a ultradireita e a guinada reacionária da direita “democrática” se fortalecem. A maior confluência entre a direita “conservadora” e a “liberal” com os partidos ultradireitistas corresponde aos objetivos e métodos traçados pela burguesia europeia em meio à decomposição da economia no continente e, particularmente, a suas projeções bélicas.

É por isso que os chamados a construir uma “frente popular” exigiriam mais que um ponto de apoio firme nos sindicatos (não apenas nas suas cúpulas), e sim fundamentalmente em uma fração da “burguesia democrática”. Mas, a esmagadora maioria dos governos ditos “democráticos” e seus partidos apoiam e financiam a guerra da Ucrânia, manifestam sua conivência com os grupos nazifascistas ucranianos, e apoiam e financiam o genocídio na Palestina, para garantir os lucros da indústria militar, compensando a desagregação industrial, o estreitamento dos mercados e a perda de “competitividade” diante da  China. Vem destruindo direitos, avança na precarização trabalhista e impõe um retrocesso às aposentadorias para, dessa forma, retirar, dos bolsos dos assalariados, montantes de recursos para a indústria de guerra e para o parasitismo financeiro. Os governos “democráticos” recorrem a medidas ditatoriais (a exemplo de Macron), para impor as imposições dos monopólios, assim como a ultradireita recorre atualmente à roupagem democrática para se projetar. À guinada da burguesia para apoiar um governo abertamente fascitizante, bastaria integrar os social-democratas e liberais como oposição tolerada, do mesmo modo que a ultradireita é tolerada e integrada hoje como oposição dos governos democratas, conservadores ou liberais.

A bancarrota da pretensão de unidade capitalista da Europa, segue, com seus ritmos e formas particulares, à decomposição da democracia parlamentarista em todos os países do continente, especialmente nas potências imperialistas. A direitização e a fascistização dos governos é um resultado da desagregação do capitalismo. Por isso, se antes o capital financeiro e industrial era relutante em recorrer a um governo de feições fascistizantes, o curso da crise aproxima cada vez mais a própria burguesia dessa necessidade. As conversas entre empresários e o RN na França são um reflexo dessa mudança, ainda que não ainda desenvolvida. O avanço da ultradireita por meio e através de mecanismos democrático-parlamentares não é uma particularidade de hoje. Verifica-se um curso histórico semelhante ao ocorrido na pré-segunda guerra mundial, com o ascenso do nazismo e fascismo. Isto enquanto crescem, ainda mais agora, os gastos militares e o intervencionismo militar das potências, para garantir os negócios capitalistas; enquanto as massas são sacrificadas em nome de seus lucros, e se impõe a destruição maciça de forças produtivas, objetivo voltado especialmente à economia nacionalizada pelas revoluções proletárias, para dar sobrevida ao capitalismo moribundo.

Claro que um avanço da ultradireita não seria tranquilo e pacífico para a burguesia, e teria um efeito imediato na luta de classes. Observa-se por toda Europa uma alta dos movimentos operários e populares contra as políticas de arrocho, de ataque e de financiamento das carnificinas na Ucrânia e na Palestina. Uma possível ascensão de regimes fascitizantes traria também o perigo de uma explosão da luta de classes em escala continental. O maior perigo que enfrentam as massas exploradas e oprimidas da Europa na atual conjuntura é que esse percurso histórico aconteceria no momento de completa ausência de sua direção revolucionária mundial e de total subordinação de suas direções sindicais e dos partidos às frentes amplas burguesas, em nome de “derrotar a ultradireita”.

A união capitalista da Europa desmorona econômica e socialmente, e arrasta para o buraco suas formas democráticas de governo. Não é possível ao proletariado e demais assalariados derrotarem as tendências fascistizantes, chauvinistas e xenófobas no quadro das instituições burguesas e da democracia formal. Assim como não mais é possível defender os direitos conquistados por meio da democracia burguesa, cada vez mais estreita e cada vez mais usada de meio para impor as medidas de ataques às massas, e melhorar as condições de vida no marco da economia capitalista em decomposição. Somente será possível barrar a brutal ofensiva da burguesia imperialista contra as condições de vida e trabalho, e derrotar suas manifestações políticas mais reacionárias, desenvolvendo a luta de classes, conquistando a independência política, e dando passos na luta pela derrubada revolucionária da burguesia. As atuais tendências da luta de classes são favoráveis ao objetivo de avançar por esse caminho. Mas, isso exige que se ergam as bandeiras e as reivindicações imediatas que favorecem a derrota da burguesia e da ultradireita em todos os países, e do imperialismo no mundo todo. A partir desses passos, será possível erguer as bases iniciais da luta estratégica do proletariado, para colocar o continente no caminho da transição ao socialismo, sob a forma dos Estados Unidos Socialistas da Europa.