
O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024
ESPECIAL PARA O SITE // Sobre as eleições na França
Ultradireita sai à frente nas eleições.
A ilusão de derrotar a ultra direita nas eleições leva à prostração e maior submissão das massas à burguesia direitista
O Reagrupamento Nacional (RN), partido ultradireitista dirigido por Marine Le Pen, venceu o primeiro turno das eleições legislativas convocadas pelo presidente Macron, após este ter decidido a dissolução da Assembleia Nacional, perante a esmagadora derrota eleitoral de Ensemble (Juntos pela República) e os partidos direitistas e liberais para o Parlamento Europeu. RN obteve 34% dos votos; a Nova Frente Popular (NFP), 29%; e o Ensemble, com 21%. Liberais e republicanos juntos obtiveram ao redor de 12% dos votos. Lamentável foi a votação do Novo Partido Anticapitalista (NPA), que obteve míseros 0,2%. Haverá segundo turno no dia 20/07, que acontecerá entre os candidatos que obtiveram mais de 12,5% nas regiões, e será marcado pela feroz ofensiva na disputa pelos eleitores dos partidos derrotados. Já há renúncia de pelo menos 180 candidatos em favor da derrota da extrema direita no país. O que concretiza uma aliança da NFP com os governistas de Macron.
A vitória do RN é produto da direitização geral da burguesia, no continente e internacionalmente: uma consequência de sua passagem para posições abertamente reacionárias e autoritárias. Governos “socialistas”, social-democratas, “conservadores” e liberais vêm aplicando em cada país as contrarreformas que destróem as condições de vida dos explorados, em proveito dos lucros parasitários dos monopólios e dos oligarcas das finanças. O financiamento e envio de armas para Ucrânia e Israel, por exemplo, são um pesado fardo orçamentário para o estado, que continua despejando bilhões de euros nas indústrias de guerra, à custa de retirar direitos, destruir empregos e rebaixar salários. As massas têm se revoltado continuamente contra os ataques, e recorrem à ação direta. E os governos respondem com repressão e maior aparelhamento do estado policial, para esmagar a revolta das massas, perseguir e encarcerar os que lutam, assim como os que se opõem ao genocídio em Gaza ou à ofensiva belicista contra Rússia, etc.
Quanto mais Macron avançava para a direita em sua política externa e interna, mais se preparava a vitória eleitoral da ultradireita e do RN. Isso explica a presença de uma espécie de passagem dos governos social-democratas ou liberais para os partidos e governos fascistizantes e ultradireitistas. A vitória eleitoral de Meloni na Itália, que sendo anteriormente rejeitada pela burguesia italiana e europeia como um “perigo” à democracia, foi rapidamente assimilada nas estruturas e relações continentais, é um claro exemplo disso. É seguindo seu exemplo que Le Pen percorreu as sedes das principais empresas da burguesia imperialista francesa, prometendo-lhes que manteria o país no quadro da União Europeia, ainda que exigindo mudanças que favoreçam à França diante da Alemanha – em franca crise e rápida desagregação industrial. O nacionalismo imperialista mais marcado do RN expressa a oportunidade que se apresenta à burguesia francesa de tirar proveito do atual retrocesso alemão. O mesmo verifica-se com a ascensão da ultradireitista Alternativa para Alemanha (AfD), ainda que ajustado às particularidades da Alemanha.
A vitória de RN passa por dentro da própria democracia burguesa. O RN cresceu e se fortaleceu em seu interior. Evidentemente, não expressa seu desenvolvimento e fortalecimento; mas sua decadência e desagregação. Abandonam, uma após outra, todas as máscaras do “Estado de Bem-estar”, e surgem de seu seio os estados policiais e as medidas autoritárias dos governos, sejam de esquerda ou da “direita radical”. A Assembleia Nacional na França mostrou essa decomposição, quando aceitou a imposição de Macron da reforma da Previdência por decreto, ou quando compactuou com as medidas terroristas de estado contra as massas, etc.
A vitória esmagadora da ultra direita nas eleições ao Parlamento Europeu afundou no desespero os socialistas, comunistas e o partido de esquerda França Insubmissa. Rapidamente, se uniram para “derrotar” a ultradireita, recorrendo às combinações eleitorais já fracassadas no passado. Assim nasceu a NFP, que é apresentada como a única forma de derrotar o “fascismo”, reunindo todas as “forças progressistas”. Seu programa é uma mesclade lugares comuns em defesa de reformas e dos direitos conquistados, que não alteram as profundas desigualdades, e menos ainda atacam os monopólios. Ao que se combina uma clara posição belicista em relação à Rússia, e de indefinição diante do genocídio na Palestina. Ainda que possam servir à burguesia, no caso de uma alta da luta de classes, que ameaçasse o regime burguês. Não existindo esse perigo, a NFP servirá de instrumento da burguesia contra as massas para continuar impondo suas imposições autoritariamente. A “Nova Frente Popular” não passará de mais uma máscara democratizante da burguesia para atacar as massas.
Se o objetivo de Macron, convocando eleições antecipadas, era impedir a ultradireita de ganhar apoio eleitoral no decorrer dos próximos anos, e se apresentar como um avalista da unidade dos partidos burgueses para cumprir esse objetivo, sua derrota (e a de seu partido) mostrou que burguesia, cada vez menos, se “assusta” com a ultra direita, que se mostra disposta a domesticar seu programa, e preservar a farsa democrática, para defender seus interesses de classe. Se a RN conquistar maioria parlamentar no segundo turno, poderá haver uma ou outra mudança nos métodos de governo. Mas, logo ficará claro que o apoio da burguesia a seu governo demonstrará que não precisa ainda recorrer ao fascismo, porque as direções das massas estão afundadas até o pescoço no pacifismo, e está ausente a direção revolucionária capaz de organizar os oprimidos por trás da estratégia proletária.
Foram noticiadas renúncias dos candidatos, da esquerda e da direita, pior colocados, em favor daqueles com maiores probabilidades de vencer em suas regiões, visando a barrar a “vitória da ultradireita”. 121 candidatos da NFP desistiram, em favor de republicanos e liberais, e ao redor de 60, da coalizão governista. Entretanto, um setor do governismo se nega a favorecer a “extrema esquerda”. Se essa situação permanecer, se não obtiver maioria, a RN irá negociar, na Assembleia, estes e outros apoios. Qualquer que seja o resultado das manobras, porém, não há como barrar o avanço da RN: é questão de tempo até consumar seu objetivo, uma vez que as tendências da situação mundial e nacional o favorecem.
O “choque” entre a ultra direita e a esquerda se dá no quadro da democracia burguesa, e não da luta de classes, mostrando que se, de um lado, as instituições e métodos democrático-burgueses podem servir à burguesia para resolver seus conflitos e desviar a luta das massas, de outro lado, que a NFP pode servir ao objetivo burguês, de desviar setores radicalizados da esquerda e dos movimentos populares organizados por trás das ilusões democráticas.
Embora muitos setores operários e populares fossem arrastados a apoiar a NFP, no maior comparecimento eleitoral em décadas, uma alta porcentagem da população não votou: quase 40% do total deram as costas às eleições no primeiro turno. Pelas mesmas razões que citamos mais acima, é provável que parte dessa população se dirija a votar no segundo turno, para “derrotar os fascistas”. Ainda mais se se confirmar que os candidatos da burguesia derrotados decidam apoiar o RN, o que poderia levar a um crescimento dos votantes contrários à sua vitória.
Destacam-se ainda os protestos, contestando e rejeitando a vitória da ultra direita. Muitos dos que votaram na NFP saíram às ruas, para expressar seu descontentamento. Setores que não votaram também confluíram nas mobilizações. As ações de rua são, porém, protestos limitados. Não expressam uma tendência das massas a darem as costas às eleições e avançar na luta de classes. Logo retornará a campanha eleitoral do 2o turno, e a maioria esmagadora das correntes reformistas e “marxistas” (como fazem também no Brasil) farão campanha para que se vote contra a RN, apoiando assim a NFP.
O espantalho da “frente popular” para derrotar a ultradireita, a história já o demonstrou (na França e na Alemanha), que anestesia os explorados e lhes impede de avançarem na sua independência de classe. Na França, Alemanha, e também em nosso país, é preciso convocar as massas a não caírem no engano das promessas eleitorais, e organizá-las para impor suas reivindicações mais elementares com a luta de classes. Assim é que se avançará na derrota da ultra direita, e também se romperá com as traições das direções sindicais e políticas das massas. Qualquer outra política diante de tamanhos ataques da burguesia e de seus governos, é uma traição, e significa desperdiçar criminosamente uma oportunidade única na nova etapa da luta de classes, para unificar e centralizar os combates contra a burguesia e seus governos.
