O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024


No dia 26/06/2024, durante três horas, um setor do exército a mando do General Juan José Zúñiga cercou a sede do governo boliviano, ameaçando um golpe de estado para depor o governo de Luis Arce. Unidades blindadas, militares e Polícia Militar (PM) do exército fecharam o acesso à Praça Murillo, na cidade de La Paz, onde está situado o Palácio Quemado. Em declarações, Zúñiga disse que o objetivo era destituir o governo e colocar em seu lugar um novo “gabinete”, escolhido por fora da fração “masista” liderada pelo presidente, e também da oposição interna, liderada por Evo Morales. Exigiu ainda a imediata libertação do ultradireitista Camacho e da ex-presidente Yanina Añez, que estiveram à frente do governo provisório, após a renúncia de Morales, em 2019. No dia anterior à aventura golpista, Zúñiga tinha sido “afastado”, por se manifestar pelo impedimento da candidatura de Evo Morales nas próximas eleições, de 2025.

O imperialismo estadunidense não deu nenhuma indicação de que apoiava a aventura golpista. Mas também só se manifestou condenando o golpe depois de 29 horas. É possível que tenha aguardado para ver o desfecho da empreitada, para somente depois se posicionar. Uma mudança de governo, passando-o para as mãos de seus apoiadores mais fiéis, não seria de seu total desagrado. Não existe golpe bem-sucedido no continente em que os EUA não estejam metidos em sua preparação e organização. Mas Arce não pode ser chamado de “obstáculo” às políticas ditadas de Washington. Os governos reformistas ou de tinturas nacionalistas estão hoje todos, sem exceção, agindo para sustentar o parasitismo financeiro e aumentar a superexploração do trabalho, cortando salários, empregos e direitos. A crise econômica os pressiona, por conta da insatisfação crescente das massas e maior divisão interburguesa. A direitização crescente das burguesias nacionais garante o fortalecimento de suas políticas antinacionais e antipopulares por dentro da democracia burguesa, sempre deformada e em decomposição. Enquanto a democracia burguesa serve para impor as medidas ditadas pelo imperialismo e burguesia nacional, ela é o instrumento preferencial dos exploradores.

A aventura militar deixou claro que a suposta tentativa de golpe pretendia impedir que, qualquer que fosse o eleito no ano que vem, não fosse ninguém do MAS, mas sim da oposição direitista. Em 2019, os EUA apoiaram as movimentações dos setores fascitizantes e direitistas que cavalgaram sobre a massiva rejeição popular ao golpe eleitoral de Evo Morales, que, não podendo constitucionalmente concorrer a um novo mandato, apoiou-se na Justiça Eleitoral aliada para se perpetuar no poder. Sem a direção revolucionária organizando a revolta operária e popular, a direita conseguiu se impor, graças à renúncia de toda a linha de sucessão do MAS e com o apoio do alto comando militar e policial, para desviar a luta das massas e garantir o governo transitório direitista de Añez.

Zúñiga não conseguiu o apoio de comandos e guarnições militares que estavam “aquarteladas”. Enquanto o general fazia suas declarações e a PM reprimia os populares que se aproximavam para se manifestarem contrários à tentativa de golpe, Arce nomeava novos chefes do exército, marinha armada e aeronáutica na casa de governo sitiada pelos pretensos golpistas. Recém-empossado, o novo chefe do exército ordenou que Zúñiga e suas tropas se retirassem. Enquanto isso, governos latino-americanos condenavam o golpe. Com a afluência das massas à Praça, e sem qualquer apoio explícito das FFAA e no exterior, Zúñiga recuou. Na noite do mesmo dia, foi preso. Abriu-se um processo penal contra ele e dezenas de oficiais militares, por atentado contra o “estado de direito”. O decorrer de horas entre a tentativa de golpe militar e a detenção dos ex-chefes do exército e da marinha indicou o quanto o golpe estava isolado, tanto perante a população, quanto de explícito apoio militar e político.

O golpe mostrou muito de improviso, e foi impulsionado por um general incapaz de ganhar os comandantes militares para impor um novo governo. Certamente, não contava com a organização e apoio dos EUA. Os EUA passaram do sustento a Evo Morales ao apoio a direita e ultradireita em 2019, quando já não havia mais como mantê-lo no poder, visando a garantir seus interesses, como, por exemplo,  a exploração das jazidas de lítio (Bolívia possui a maior reserva mundial, com 24% do total), e melhorar a posição mundial das indústrias capitalistas que concorrem com a China, que investe pesadamente nos continentes africano e latino-americano, e inunda os mercados com seus produtos, com mais tecnologia e menor custo . A crise do governo reacionário que caiu de paraquedas no poder, e a persistência do apoio popular ao reformismo masista, reconduziram o MAS ao poder, terminando Camacho e Añez presos. Esse percurso político foi acompanhado da crescente influência econômica da China e Rússia, injetando bilhões e bilhões de dólares nas economias nacionais da América Latina, enquanto EUA e aliados retrocedem, impossibilitados de “concorrer”, pela desagregação de suas economias nacionais.

Arce foi convidado de “honra” na reunião dos BRICS na Rússia, no mês passado. Assinaram-se acordos comerciais muito favoráveis ao governo russo, que somam-se aos assinados com a China, em troca de bilionários investimentos em tecnologia médica, desenvolvimento de usinas nucleares e industrialização da exploração das reservas bolivianas de lítio. No Peru, a China fez um investimento bilionário na construção de um porto moderno e gigantesco para exportações desse mineral – e outros minérios e mercadorias – que se integrarão na “Rota da Seda” chinesa, resultando em elevados lucros a setores das burguesias boliviana e peruana, bem como grande arrecadação de impostos aos governos. O que, em última instância, reforça as posições das burocracias e economias russa e chinesa perante os EUA.

Esses interesses estão na base dos choques entre as potências capitalistas e Estados Operários degenerados. E explicam porque a embaixada norte-americana na Bolívia ficou calada durante as três horas em que o golpe estava tentando se erguer. A ausência de apoio militar explícito ao golpe se deve também a essas condições. China e Rússia garantem investimentos que revertem em aumento dos orçamentos e, portanto, em maiores benesses para os mandos militares e capacidades técnico-militares das forças armadas. Mas, também reflete a profunda crise em que se debatem os EUA, onde estão por acontecer as eleições. A Central Obrera Boliviana/COB, as organizações camponesas e milhares de populares condenaram o golpe e se colocaram à disposição de enfrentá-lo nas ruas para defender a “democracia”. As duas frações do MAS (que se digladiam pelo poder) convocaram que se enfrentasse o golpe, embora seus objetivos políticos sejam eleitoralmente diferentes: Morales quer garantir sua eleição e Arce sua reeleição. Entretanto, confluem na prática em impedir a volta ao poder da direita e ultradireita, o que levaria a retirar das instituições a burocracia estatal forjada no parasitismo do estado sob os governos de Morales e Arce.

O principal problema colocado às massas bolivianas é que o fracasso da aventura militar não se deveu a sua intervenção revolucionária. O “reforço da democracia”, portanto, levará à centralização política e mais ataques contra suas condições de vida e trabalho. Está aí expressa a tragédia da ausência de sua direção revolucionária mundial, que seja capaz de impulsionar sua luta independente e aproveitar as crises dos governos para desenvolver a luta por seu próprio poder. A luta das massas passa pela defesa de suas reivindicações por meio da unidade nacional sob um programa comum contra os governos e a burguesia.

O caminho revolucionário percorrido pelo POR dos tempos de G. Lora deve ser retomado para tornar consciente o instinto político revolucionário do proletariado e das massas.