
O Internacionalista n° 17 / julho de 2024
Editorial
As massas precisam superar as direções eleitoreiras e se organizar para defenderem seus empregos, salários e direitos
As pressões dos setores ligados ao capital financeiro especulativo sobre o governo Lula se concentram no sentido de que mantenha as condições para continuar pagando os juros e serviços da dívida pública. O que significa, na prática, preservar os fundamentos do Arcabouço Fiscal, manter o déficit público próximo de zero. Para isso, é necessário cortar gastos e reorganizar o orçamento, atacando os serviços públicos, como saúde e educação, em benefício do parasitismo financeiro. As lideranças empresariais da indústria e agricultura foram a Brasília para pressionar o governo a manter a possibilidade do uso de recursos devolvidos do PIS-Pasep para pagamento de outros impostos. O governo cedeu, passando por cima do Ministro da Fazenda, o que representou a perda de R$ 27 bilhões em arrecadação. No dia seguinte, os especuladores jogaram o dólar para cima e as bolsas de valores para baixo – e pressionaram abertamente o Banco Central para manter as taxas de juros elevadas, o que lhes garante ganhos bilionários. A disputa entre os setores burgueses autoproclamados “setores produtivos” com os “especulativos” resulta em preservação dos interesses gerais de ambos, e transferência do custo do problema para os assalariados e suas famílias.
O congelamento das taxas de juros pelo Banco Central foi apresentado como meio de enfrentar as tendências inflacionárias. Já sabemos que a inflação tem aumentado em todo o mundo, e mesmo onde se aumentam os juros, como nos Estados Unidos. As consequências das mudanças climáticas (secas e enchentes) em todos os continentes – que reduziram a produção de alimentos nos principais produtores, como o Brasil –, o alto endividamento estatal causado pela estatização das dívidas das multinacionais e grandes bancos desde 2008, os embargos contra os maiores produtores de vários insumos (como China e Rússia), o bloqueio do transporte marítimo de navios de empresas e países ligados ao genocidio palestino no Mar Vermelho pelos houthis, dentre outros fatores, empurram os preços dos alimentos, dos transportes, dos seguros e da energia para cima, e estes arrastam os demais consigo, em toda parte.
O Banco Central estadunidense tem mantido elevadas taxas de juros em seu país, supostamente para tentar conter as tendências inflacionárias. Pesquisa recente mostrou que a alta dos preços é a maior preocupação dos eleitores nos Estados Unidos. A alta dos juros atrai dólares de outros países, e vai pressionando internacionalmente o valor da moeda ianque para cima, artificialmente. O dólar tem ganhado valor em relação a todas as principais moedas do mundo. Note-se a contradição entre a tendência à desvalorização dessa moeda em seu país com a tendência à valorização internacional. Esta pressiona ainda mais as tendências inflacionárias em toda parte. Ao mesmo tempo, rebaixa em dólar os custos dos produtos exportados ao maior mercado consumidor do planeta, que é o estadunidense. Enquanto isso, cresce o uso de outras moedas no comércio internacional, especialmente do yuan, que é a moeda do maior produtor industrial mundial, a China, e se enfraquece o uso do dólar ianque. Esse conjunto de elementos contraditórios aponta para um tipo particular de “bolha” especulativa (monetária), que pode ser muito mais danosa que a imobiliária de 2007/08 nos Estados Unidos.
O resultado imediato para as massas tem sido a alta dos preços dos produtos de primeira necessidade. A inflação é um elemento de desorganização econômica geral, mas fundamentalmente é instrumento de rebaixamento geral do valor da força de trabalho. Os capitalistas têm como aumentar os preços e compensar a desvalorização da moeda nacional, preservando seus lucros. E combinam investimentos na produção com os especulativos, que ganham mais com o crescimento da dívida pública. Mas os assalariados têm de defender o poder de compra que vem de seus empregos, sua única fonte de sobrevivência, que são os salários. A organização de movimentos massivos, com os métodos da luta de classes e independência diante da burguesia, seus governos e instituições, é o único meio para alcançar esse objetivo.
Aos assalariados, não interessa qual é a taxa de juros, o preço do dólar, a fuga de dólares, a taxa de inflação. O que interessa é a capacidade de compra de seus salários e preservação da fonte deles, que são os empregos, além dos direitos sociais, que são salários indiretos. As reivindicações que correspondem à defesa dessas necessidades são as de salários suficientes para sobrevivência de si e de suas famílias, reajustado mensalmente de acordo com a inflação medida pelas organizações das massas, a defesa dos empregos por meio da estabilidade no emprego e divisão de todas as horas de trabalho disponíveis entre todos os aptos a trabalhar, de forma a que não fique ninguém desempregado, e a defesa dos direitos sociais, como saúde, educação, aposentadoria, etc. – o que hoje leva à luta contra as privatizações e à defesa da estatização ou reestatização sob controle operário das empresas estatais.
A crise mundial capitalista leva as burguesias de todos os países a assumirem posições cada vez mais reacionárias, de ataques a salários, empregos e condições de vida e trabalho das massas, e mais ainda, de medidas para sustento do parasitismo financeiro a partir das dívidas públicas. A direitização geral das burguesias é uma necessidade para impor essas medidas. E a imposição de cada uma delas tem de ser feita esmagando a resistência das massas, seja por meio da colaboração traidora das direções das organizações de massa, seja por meios repressivos.
Não há espaço para desenvolver uma colaboração de classes reformista, base político-social das democracias burguesas, que são a forma mais avançada da ditadura de classe da burguesia sobre a maioria explorada. As posições de extrema direita progridem no mundo todo, e, quando não, governos de esquerda assumem as políticas da burguesia que se direitizam cada vez mais. A burguesia mundial não tem outro caminho que não seja o protecionismo ao parasitismo financeiro e o aumento brutal da superexploração do trabalho, por meio dos ataques às condições de vida e trabalho das massas. Essa política se concretiza de várias formas, dentre elas, as guerras abertas.
É o que vemos no Brasil. O protecionismo ao parasitismo financeiro é a essência da política econômica do governo burguês de Lula. As contrarreformas trabalhista e previdenciária dos direitistas Temer e Bolsonaro foram preservadas. As chamadas políticas de costumes, ideários da extrema direita, avançam mais agora que com Bolsonaro. O desmatamento e queimadas são recordes. Qualquer novo gasto anunciado pelo governo, que não seja para sustentar os parasitas capitalistas, é achincalhado e pressionado para ser revogado. R$ 350 bilhões em subsídios a grandes empresas são mantidos. R$ 450 bilhões para financiar o agronegócio são disponibilizados.
As esquerdas se perderam ao assimilarem a democracia burguesa imperialista decadente. Diante dos ataques às massas em benefício dos capitalistas, que certamente fortalecem a extrema direita na prática, se voltam à defesa direta ou indireta do governo Lula, e à disputa eleitoral, parlamentar e judicial. Nos estados e municípios, na sua maioria governados por figuras reacionárias (políticos de cunho fascista), renunciam à luta de classes, o que deixa os governos todos de mãos livres para aplicarem as medidas direitistas – privatizações, cortes de gastos em saúde e educação, destruição do ensino e saúde públicos, etc. Em nome do “combate à extrema direita”, na prática, favorecem a aplicação das medidas reacionárias, o que vai fortalecendo os governos de extrema direita.
Nas atuais condições, a burguesia direitista e ultra direitista podem se dar ao luxo de manter sua linha de usar a democracia burguesa em decomposição para impor as medidas reacionárias. As esquerdas estão metidas até o último fio de cabelo na disputa eleitoral e nas combinações parlamentares, que é o campo próprio da disputa entre as frações burguesas. Os partidos e correntes democratizantes subordinam absolutamente tudo à disputa eleitoral e negociatas parlamentares. Sequer são capazes de colocar as vidas palestinas acima do financiamento de suas campanhas e da busca pelo voto dos eleitores reacionários e sionistas. Essa conduta delinquente, apesar de todo empenho na caça aos votos, não resultará em derrota da extrema direita, nem mesmo em cidades onde poderá haver um governo ligado à frente ampla de Lula/Alckmin. Isto porque os governos burgueses de todos os naipes servem à classe dominante, e a burguesia exige as medidas reacionárias de proteção dos parasitas sobre a base do esmagamento das necessidades dos explorados.
As massas têm realizado movimentos por suas reivindicações, onde seu descontentamento consegue superar a política subserviente das direções. Mas ainda não conseguiram superá-las política e organizativamente, recuperando as organizações para a luta de classes. Sem que possam se unificar nacionalmente a partir das reivindicações e por meio da luta de classes, não terão como se defender dos ataques crescentes da burguesia direitista. Trata-se de um fenômeno mundial.
As movimentações de massa avançam nos continentes. As respostas aos ataques dos capitalistas e de seus governos, que são centralizados sobre as maiorias nacionais, se erguem em toda parte. Somente não derrotam seus inimigos de classe, e caminham para a conquista de seu poder próprio por meio da revolução socialista, por não possuírem em seu seio direções revolucionárias, que expressem em programa a assimilação da rica experiência da luta de classes mundial.
Diante de uma situação mundial em que avançam as tendências revolucionárias das massas, e em que os exploradores não têm qualquer possibilidade de apontar a uma saída progressiva, a crise de direção revolucionária do proletariado se manifesta na sua forma mais grave. Realça a necessidade de reconstruir o partido mundial da revolução socialista.
