
O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024
Israel – crise política avança
O sionismo será derrotado quando as massas romperem com a farsa democrática e avançarem na luta de classes
Durante as últimas semanas, foram noticiadas contínuas rupturas no interior do “Gabinete de Guerra”, entre a situação (ultradireita) e a oposição. Partidos e correntes reformistas e centristas criticam o regime terrorista sionista. Esquecem-se de que o “Gabinete” coloca todas as frações políticas sionistas sob um comando único, orientado a completar a limpeza étnica e a colonização da Palestina, com apoio do imperialismo.
Dissolução do “Gabinete de Guerra” não altera o curso histórico do genocídio
Quando o ministro de Defesa, Yoav Gallant, exigiu de Netanyahu um “plano” para a “governança de Gaza”, não o fazia defendendo o direito dos palestinos a se autodeterminar: apenas se preocupava com os custos (econômicos, diplomáticos, jurídicos) de continuar o genocídio em meio ao profundo isolamento de Israel. Sua divergência com Netanyahu não é “ideológica”. Depois foi a vez de Benny Gantz, da “Unidade Nacional” (oposição) renunciar ao “Gabinete de Guerra”. Como Gallant, renunciou após Netanyahu se recusar a apresentar seu plano para a “nova etapa do conflito”. Depois, somaram-se as divergências entre os comandos das Forças de Autodefesas de Israel (IFD) com Netanyahu. O chefe das IDF, Herzi Halevi, e o chefe dos serviços de segurança de Israel (Shin Bet), Ronen Bar, discutiram fortemente com Netanyahu sobre o “planejamento estratégico” da ofensiva militar, após a ONU acusar as IFD de “possíveis crimes de guerra”. A decisão da IFD de aprovar “pausas táticas” para fazer entrar em Gaza ajuda humanitária (como exigiam os países imperialistas) foi qualificada por Netanyahu e aliados ultradireitistas de “inaceitável”. Tem sido corriqueira a destruição de comboios de ajuda humanitária pelos colonos judeus ultradireitistas, objetivando matar de fome os palestinos, medidas essas que nenhum dos “opositores” criticou ou propôs frear.
Situacionistas e opositores sionistas constituíram, em meio a suas divergências, uma “unidade nacional”, visando a esmagar em sangue o Hamas, e impor em Gaza o controle sionista. Diferem em qual deve ser esse “governo”: se um formado por palestinos subservientes como na Cisjordânia, ou então por uma força multinacional controlada pelos EUA; ou se é o próprio estado de Israel que deve governar (a proposta da ultradireita). Todas as propostas significam o avanço à ocupação colonial, uma acobertando-a por trás de tinturas jurídicas e políticos farsescos; e a outra, sem qualquer máscara ou retórica democrática.
Oposição e situação estão unidas no objetivo da colonização militar da Palestina
A dissolução do “Gabinete de Guerra” não altera, nem modifica a aliança do governo, entre Netanyahu e a ultradireita, que ainda mantém a maioria no Parlamento. Não se pode falar, portanto, de uma crise do governo. Ocorre que a situação política mundial tem sido cada vez mais desfavorável ao regime sionista. A oposição está planejando aproveitar eleitoralmente a situação para se apresentar como uma alternativa “moderada” e “progressista” do sionismo, e capaz de achar uma solução negociada com o imperialismo, os países árabes e a ANP. Não é por acaso que setores da imprensa e de intelectuais sionistas falam na necessidade de garantir a existência de um Estado palestino para ludibriar os países árabes, abafar as massivas manifestações pró-palestina e romper o isolamento de Israel.
O maior obstáculo a essa manobra – e não tão somente para o governo ultradireitista – é que, após nove meses de ofensiva militar, não houve a tal derrota de Hamas. De fato, Israel não conseguiu alcançar nenhum de seus “objetivos estratégicos”. E agora está aberta a via de uma “Guerra” com o Hezbollah. A perspectiva para o sionismo é incerta, no que diz respeito ao espírito de luta e combate dos palestinos. Enquanto a ANP caiu vergonhosamente em apoio popular, por seu papel traidor e colaboracionista com o sionismo, o apoio ao Hamas se mantém em Gaza e cresce na Cisjordânia. Também cresceu o apoio à luta armada entre a população palestina (+8%): 54% do total dos palestinos a consideram a única forma de confrontar Israel e estabelecer um Estado palestino. Ainda se se levar em conta que o apoio das massas árabes à resistência palestina cresceu nos últimos meses, assim como a solidariedade de milícias árabes, a situação de Israel é antagônica à possibilidade de vitória.
Por trás da crise política, comparece a econômica
Isto, enquanto manifestantes começaram a se manifestar novamente contra o governo Netanyahu, acusando-o de não se importar em garantir o retorno dos mais de 100 reféns israelenses, ainda sob poder do Hamas. As palavras de ordem “renúncia de Netanyahu” e “novas eleições”, que tinham refluído nos primeiros meses do ataque de Hamas, foram retomadas nas condições de isolamento do sionismo e de avanço da luta de classes em favor dos palestinos. Soma-se ainda à crise política interna, uma profunda e grave crise econômica. As gastanças de guerra estimam-se em US$ 70 bilhões, até 2025 (os gastos de defesa cresceram de 5,3% para 9%). Grande parte desse crescimento para compra de armas, aviões, munições e tecnologia militar norte-americana, francesa, alemã etc., enriquece a burguesia estrangeira e nacional. Indústrias Aeroespaciais de Israel, Rafael Advanced Defense Systems e a Elbit viram crescer seus preços das ações muito além de sua capacidade de produção real. Enquanto isso, a economia civil encolheu e retraiu, a inflação disparou, e agravou os déficits orçamentários.
A estagnação econômica e a maciça retirada de investimentos estrangeiros (caíram 70%) já provocaram uma queda de 20% do PIB, se comparado ao ano passado, enquanto o consumo registrou uma queda de 27%. E ainda, combina-se a reversão dos investimentos diretos em Israel com seu crescimento no exterior – aumentando três vezes em relação ao ano passado. O Estado é o maior motor da economia, por meio da importação e exportação de armas e tecnologias de defesa. Porém, seus esforços militares são subsidiados diretamente pelo imperialismo e por governos com quem mantém suas relações comerciais. Um golpe direto na economia e no comércio exterior atingiria as capacidades de guerra do sionismo, e significaria um grande feito para a luta das massas pela derrota do sionismo.
A centralização ditatorial e militar é uma necessidade do estado sionista
A decisão do Tribunal Penal Internacional (TPI) e da Corte Internacional de Justiça (CIJ), de acusar lideranças do sionismo por crimes de guerra, não parou os massacres. Da mesma forma que novas eleições em Israel não afetarão o curso da limpeza étnica e do terrorismo colonial. No jornal O Internacionalista/OI n° 3 (abril de 2023), na nota “Governo ultradireitista manobra com a Reforma Judicial para continuar massacrando e reprimindo os palestinos”, assinalamos que a crise política, pelo rechaço da população israelense à Reforma Judicial, bloqueava o governo em seu objetivo de avançar na centralização política das instituições. O que fez com que o o governo ultradireitista “engavetasse” temporariamente a Reforma. Tratava-se de uma “manobra visando a estabilizar a ‘frente interna’ para … continuar a ofensiva colonial e genocida do sionismo contra os palestinos”. O mesmo reafirmamos no jornal OI n° 5 (julho de 2023), quando assinalávamos que o objetivo de Netanyahu em estabelecer negociações com a oposição ao redor da Reforma era o de “ter mãos livres para novas incursões militares que impulsionam os negócios da burguesia sionista…”, e que isso exigia equacionar “a profunda divisão nacional”. Finalmente, a manobra ficou escancarada em 24 de julho, quando a Reforma foi aprovada pelo Knesset. Eis porque afirmamos: “disciplinar e centralizar ditatorialmente as decisões e instituições judiciais” era um objetivo para retomar a colonização e a limpeza étnica dos palestinos (OI n° 6, de agosto de 2023).
A “unidade nacional” foi alcançada após 7 de outubro, e centralizou todas as frações sionistas por trás do objetivo da colonização militar de Gaza, sob a justificativa de “derrotar o Hamas”. Com a retomada dos protestos de um setor da população, exigindo a saída de Netanyahu por ser incapaz de trazer os reféns tomados pelo Hamas de volta para casa, é que essa “unidade nacional” sofreu um abalo. Não há, porém, qualquer discordância na verdadeira “unidade nacional” entre sionistas de “esquerda” e de direita quanto à colonização e ao genocídio dos palestinos. Por isso é que a centralização autoritária do governo de Netanyahu de 2023 não foi um desvio da curva, antes foi um prenúncio do que ocorre agora, com uma ainda maior centralização autoritária nas mãos dele. E é por isso também que a oposição foi parte dessa centralização no “Gabinete de Guerra”. A sua saída apenas permite que o governo de Netanyahu aprofunde a concentração dos comandos administrativos e militares.
Manobras diplomáticas e viradas táticas para preservar o sionismo
O que não tem faltado ao sionismo são armas, petróleo e tudo necessário para continuar o genocídio. O governo norueguês reconheceu o “Estado Palestino”, mas continua enviando e vendendo armas a Israel. O governo brasileiro denunciou o genocídio, mas continua facilitando o envio de petróleo que engraxa o aparelho bélico e militar que trucida vidas palestinas. São muito mais os governos que fazem o mesmo, ainda que sem recorrer à demagogia retórica ou política eleitoral de Lula.
Se, por conveniência, o imperialismo (e objetivando preservar o regime sionista) “armasse um acordo” junto à oposição sionista de uma saída eleitoral à crise política, seria com o objetivo de dar uma nova forma a essa centralização ditatorial e militarista. Qualquer que seja a tática da burguesia imperialista e sionista, sionistas “de esquerda” e ultradireitistas compartilham das responsabilidades do genocídio. E, qualquer que seja a solução política, terá também por objetivo impedir que os países imperialistas sejam obrigados a tomar medidas contrárias ao sionismo, obrigados pela irrupção de massivos movimentos contra o genocídio e pela ruptura dos acordos com o Estado de Israel.
Essa pressão tem levado alguns governos a posarem de “humanitários” e a suspender (temporariamente) o envio de armas, e a declarar (demagogicamente) o reconhecimento do Estado palestino. O apoio a um “Estado palestino”, convivendo lado a lado do Estado genocida, é uma manobra diplomática para que os explorados e oprimidos se subordinem às saídas negociadas entre o imperialismo, sionistas e burguesias árabes. Enquanto ecoavam os resultados do massacre de 270 palestinos para resgatar 4 reféns israelenses, e os EUA desmontavam o cais que serviu à operação assassina, um barco dos EUA especializado em exploração marítima de jazidas de gás roubava gás nas costas de Gaza, e Israel apresentava um plano de guerra contra o Líbano.
Derrotar O sionismo e os governos imperialistas é a via para o fim do genocídio
O Estado sionista só se criou e hoje sobrevive graças ao imperialismo. Especialmente, graças à paralisia e à cumplicidade das direções sindicais e políticas, que se negam a convocar os operários a estrangular e romper as engrenagens da maquinaria de guerra imperialista e sionista. No Brasil, entramos agora na campanha eleitoral, e muitas correntes e partidos correm atrás das combinações eleitorais supostamente para “derrotar a extrema direita”, subordinando as bandeiras palestinas ao que é possível nas “condições dadas”.
Um exemplo disso são algumas das correntes e partidos que estão na Frente em Deefsa da Palestina São Paulo, que recentemente entraram em cheio na campanha eleitoral do “progressista” Boulos. Ele não diz uma palavra sobre o genocídio palestino, procurando não abalar os apoios financeiros e alianças eleitorais de setores sionistas, essenciais para sua campanha e sua possível “vitória”. Na França, os “progressistas” correm atrás da “Nova Frente Popular” para derrotar o ultra direitista Reagrupamento Nacional, chegando até a apagar dos programas qualquer referência à defesa dos Palestinos, para, assim, conquistarem o voto progressista dos setores “sionistas de esquerda”, ou que se dizem contrários ao “terrorismo islâmico”. Parece que a vitória eleitoral de alguns vendidos ao grande capital, ou a governabilidade da frente ampla burguesa que comanda o país, vale muito mais e é muito mais “relevante” para boa parte da esquerda que frear o genocídio de todo um povo.
Essa hipocrisia é antagônica à ação internacionalista das massas oprimidas, que se projetam institivamente pela única via para derrotar o sionismo e frear o genocídio: a luta de classes com os boicotes, paralisações de universidades, bloqueio de rodovias e portos, ações diretas que obrigam a fechar subsidiárias das indústrias de armamento israelenses, etc. Enquanto a reedição pelos governos da farsa do “estado de direito” em Israel, e da existência de supostas forças “progressistas” sionistas, objetivam impedir essa explosão da luta de classes. Portanto, enganam-se e enganam as massas (o que é pior) os que correm atrás de impor a renúncia de Netanyahu, de exigir novas eleições ou de votar em candidatos burgueses “de esquerda”, como se isso fosse frear os massacres ou a colonização da Palestina. Somente atacando as bases econômicas e políticas sionistas em todos os países é que os explorados e oprimidos alcançarão o cessar fogo definitivo. Só com a destruição do Estado construído sobre base do colonialismo imperialista e genocídio da população nativa histórica, será possível começar a caminhar para uma solução duradoura e construir um Estado palestino livre, do rio ao mar, e socialista.
