
O Internacionalista n° 17 / julho de 2024
Editorial Internacional
A direitização da burguesia exige do proletariado e demais oprimidos erguer a luta de classes
As eleições para o Parlamento Europeu e para a Assembleia Nacional na França expressaram um mesmo fenômeno comum, que teve como marca a eleição de Trump, em 2018, vem desenvolvendo-se e ganhando escala mundial, e maior força social: a direitização da burguesia como classe em seu conjunto.
O reacionarismo burguês tem por fundamento material a desagregação do capitalismo, que impede que os capitalistas possam conceder ou sequer prometer qualquer melhora nas condições de vida das massas. Uma época de violentas contrarreformas se deflagrou, com o estopim da crise mundial em 2008/2009. O esgotamento da divisão mundial do trabalho e das esferas de influência sob domínio imperialista foi sendo desnudado e colocado abaixo, pela fortaleza econômica e projeção mundial da China e da Rússia.
As relações antagônicas entre os estados capitalistas e operários degenerados não podem ser resolvidas pelas combinações diplomáticas, barreiras alfandegárias, mecanismos fiscais e monetários. E, quanto mais se aprofundam, mais transformam a política exterior monopolista em intervencionismo bélico contra a China e a Rússia. O imperialismo é empurrado o tempo todo pelas leis objetivas da desagregação capitalista para que resolva suas contradições destruindo as economias nacionalizadas pelas revoluções, e por isso precisa derrubar as burocracias que resistem a abandonar seu parasitismo sobre a economia estatizada. É a destruição dos estados operários degenerados e de suas bases econômicas, conquistadas pelas revoluções proletárias, que permitirá os capitalistas, na base da reconstrução, equacionar conjunturalmente suas contradições, e criar artificialmente uma recomposição das forças produtivas e sobrevivência das relações de produção e de propriedade, que destroem a riqueza social, e a força de trabalho que a produz em larga escala.
Momentaneamente, as tendências bélicas que decorrem dessa dinâmica e leis econômicas puderam ser contidas e atenuadas pela intervenção dos estados e medidas diplomáticas, fiscais e monetárias. Mas, não há como assegurar seu desenvolvimento sem arrastar ainda mais para o buraco o regime burguês, e desagregar ainda mais as relações econômicas e sociais capitalistas. Na política interna, a burguesia em seu conjunto caminha para o reacionarismo de direita, aplicando sucessivas contrarreformas, que esfolam o couro dos assalariados para manter os lucros parasitários dos capitalistas. O que periodicamente produz revoltas e levantes defensivos das massas, para manterem seus direitos e condições de vida. O aparelhamento dos estados policiais e a cotidiana repressão se tornam métodos corriqueiros dos governos (desde a esquerda até a ultradireita), para garantir os negócios da burguesia. A democracia se decompõe seguindo essa tendência, e torna-se impotente para equacionar e conter minimamente os choques sociais. A centralização autoritária e medidas ditatoriais projetam a militarização das relações entre as classes, e acabam penetrando todas as esferas da vida civil e econômica. E acaba elevando ao poder do estado os partidos e programas fascitizantes.
A eleição de Trump e o agravamento da guerra comercial contra o estado operário degenerado chinês – que viria a se constituir com a passagem do tempo na principal força econômica e industrial do mundo – indicou o marco da mudança das relações políticas e estatais, ao acirrar o choque entre o desenvolvimento das forças produtivas nacionalizadas e as forças produtivas privadas capitalistas em decadência. A China avançou até se converter na principal fonte de criação de riquezas e valor no comércio mundial, enquanto os EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Japão retrocediam.
Ainda que o nacionalismo imperialista adquirisse sua primeira forma política mais precisa nos EUA, por meio de Donald Trump, logo se refletiria em todos os países do mundo. A chegada ao poder dos EUA da ultra direita reacionária indicou o curso mais geral que se adotaria nos países semicoloniais e capitalistas desenvolvidos. Os governos Bolsonaro, Orbán, Bukele, Milei, Meloni, Netanyahu, dentre tantos outros, são manifestações nacionais dessa tendência de reacionarismo burguês e direitização fascitizante da política burguesa mundial. Esses governos não chegam ao poder por meio de rupturas das instituições democráticas, e sim se apoiando nelas e nas combinações e negociações parlamentares. Sem nenhuma dúvida, a formação do atual governo de Benjamin Netanyahu foi o ponto mais alto dessa direitização burguesa mundial.
A ultra direita racista, colonialista e terrorista tomava posse de um estado estruturado de fora para dentro para servir de enclave e base de manobras ao imperialismo. Para continuar a limpeza étnica e genocídio palestino, precisou destruir os alicerces da divisão republicana de poderes e centralizar ditatorialmente o aparelho militar sionista, para a nova fase do extermínio e colonização na Palestina. A Reforma Judicial foi parte desse percurso. Do seio da democracia israelense, propagandeada como a única da região e a mais progressiva das democracias “ocidentais”, surgia um governo preparado e apoiado pelas frações sionistas, de esquerda e direita, para massacrar, roubar terras e continuar a colonização militar da nação oprimida, em uma escala até então insuspeitada.
Isso se passa enquanto a democracia formal – cada vez mais farsesca – funciona como cortina de fumaça para desviar as massas da luta de classes, e corromper politicamente suas direções. A contradição, aparentemente paradoxal, da democracia ser o veículo do fortalecimento da ultra direita reacionária e antidemocrática, resolve-se na prática com a violência repressiva e a vigilância policial exercida sobre as massas nas fábricas, nos campos, nas minas e em todos os âmbitos da economia e da vida social e civil. É em nome da democracia que se declarou a guerra contra Rússia, se massacram palestinos, e se prepara a escalada bélica contra China e Coreia do Norte.
A importância do processo eleitoral na Europa que deu a vitória à ultradireita no Parlamento Europeu (ainda que dividida em inúmeras legendas e partidos nacionais), e no primeiro turno na França, se combina com o avanço da ultradireita espanhola e a eleição da fascista Meloni na Itália, à eleição de Bolsonaro e Milei, dentre tantos outros exemplos, mostrando que a ultradireita não é um fenômeno restrito, mas geral, que expressa a decomposição da economia capitalista e da burguesia como classe. Não há, em nenhum país do mundo, uma fração progressiva da burguesia, de forma que até os governos ditos “democráticos e populares” nos diversos países se direitizam, sob os impactos da crise capitalista e as imposições do grande capital monopolista, e apoiam a guerra travada pelo imperialismo contra Rússia, ou então continuam financiando o holocausto palestino (com exceção de alguns poucos países).
A tendência geral de barbárie, centralização autoritária e violência social em larga escala não será debelada no campo da democracia burguesa, e sim no da luta de classes. Toda e qualquer subordinação eleitoral e toda e qualquer ação as direções que procurem abafar as tendências de luta da massas em benefício de combinações eleitorais, quando existem condições objetivas para a unificação mundial das lutas dos explorados para derrotar, imediatamente, o sionismo e imperialismo; ou que acabem ajudando o objetivo imperialista da derrota da Rússia e China, que leve à destruição das conquistas revolucionárias do proletariado, é uma traição, e contribui para reforçar as tendências fascitizantes que se nutrem da sobrevivência da decomposição econômica e social capitalista. Sem destruir o regime burguês a partir dessas bases, travando uma guerra civil contra a própria burguesia em cada país, e assim abrindo caminho para a transição ao socialismo sobre a base da propriedade estatizada, não haverá como bloquear a direitização da burguesia e as tendências bélicas, que afundarão as massas na barbárie social.
