O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024


O Partido Trabalhista/PT obteve a maior votação de sua história nas eleições gerais, convocadas pelo ex-primeiro-ministro conservador Rishi Sunak. O líder dos trabalhistas desde 2020, Keir Starmer, foi eleito primeiro-ministro. Os conservadores sofreram a maior derrota nas últimas décadas, obtendo apenas 131 cadeiras na Câmara dos Comuns, contra 410 do PT. Os Liberais Democratas obtiveram 61, e Reforma do Reino Unido, do ultradireitista Nigel Farage, 13 assentos. A abstenção alcançou 40% do total.

A vitória “trabalhista” foi garantida por um amplo deslocamento dos que antes votavam nos conservadores. A “média de votos” obtida por estes nessas eleições ficou bem abaixo das de 2017, quando o “radical” Jeremy Corbyn estava à frente dos trabalhistas. É por isso que, apesar da participação não superar 60%, a vitória dos trabalhistas se deu por uma maioria esmagadora de votos. Diferentemente de Corbyn, Starmer encabeça a ala partidária mais conservadora e reacionária dos trabalhistas. E não se pode esquecer de que esses partidos são frações da mesma burguesia imperialista inglesa.

Para garantir sua candidatura e o apoio da burguesia, Starmer expurgou os dirigentes e candidatos associados às pautas antiguerra na Ucrânia e contra o genocídio palestino. A expulsão de Corbyn, no ano passado, expressou essa “direitização” do partido, de forma a garantir sua vitória eleitoral e atrair votos liberais e conservadores descontentes com os rumos dos governos. Outro exemplo dessa direitização é o eleito Wes Streeting, que é cotado para ocupar um cargo ministerial, e é um defensor da privatização do Serviço Nacional de Saúde (NHS). Grande parte dos eleitos pelos trabalhistas têm adotado posições “racistas” contra a população islâmica, juntando-se às posições sionistas.

Corbyn apresentou sua candidatura “independente”, tendo por uma de suas principais bandeiras a defesa do fim do genocídio palestino. O que lhe valeu conseguir um alto índice de votação, maior que qualquer outro candidato ao parlamento. Sua defesa dos palestinos foi duramente criticada por Starmer, que defende o “direito de Israel a se defender”, quer dizer, mostrou-se um cúmplice do genocídio palestino, e um subordinado aos financiadores sionistas de sua campanha. Porém, Corbyn não estará sozinho na Câmara dos Comuns, defendendo essas posições. Outros quatro candidatos “independentes” (também ex-trabalhistas) formarão junto dele um bloco parlamentar.

O partido extremista de direita Reforma do Reino Unido cresceu, mas muito abaixo dos indicadores dos partidos ultradireitistas da França, Alemanha, Itália, etc. Sua “agenda” reacionária em relação aos imigrantes, e de ruptura da Inglaterra com a União Europeia/UE, foi assimilada pelos conservadores e também por setores dos trabalhistas já em 2015.

A derrota conservadora mostrou o profundo descontentamento da população com os rumos da economia e da política nacionais. As benesses do “Brexit” para o país e sua população não se confirmaram. O exorbitante aumento do custo de vida, devido ao crescimento inflacionário (2,3%, acima da meta prevista de 2% para este ano, e com um acumulado de 20%, desde o Brexit), a estagnação do PBI (0,6%, o que é considerada uma recessão técnica) são expressão do fracasso. Evidenciam como a ruptura com a UE aprofundou a escassez de mercadorias, como ovos e laticínios, que antes inundavam os mercados a preços baixos, dentre outros aspectos, e explicam a “revolta eleitoral” da população contra os conservadores.

Noticiada a vitória, Starmer apresentou uma síntese de seu “programa” de governo: 1) “reconstruir” o NHS, elevando os salários dos funcionários para que “trabalhem mais horas”, e contratar 8,5 mil novos profissionais, visando a aumentar o número de consultas médicas e acabar com as “longas fileiras de espera”; 2) investir na criação de uma empresa de “energia verde”, que ajude a “reduzir as tarifas”, a criar novos empregos e a conquistar a “independência energética”; 3) introdução de uma legislação mais rígida contra “crimes ambientais”; 4) fechar as “lacunas fiscais” da educação privada, objetivando aumentar a arrecadação para a educação pública e “contratar mais professores”; 5) elevação do salário mínimo de acordo ao custo de vida; 6) reforço da luta contra a criminalidade e a imigração ilegal; 7) melhorar o sistema de ferroviais e transporte do setor estatal, criando uma “estrutura unificada” que centralize aos operadores ferroviários sob controle do estado; 8) permanecer fora da União Europeia e dentro da OTAN; 9) manter o apoio à Ucrânia; 10) aprofundar e estreitar as relações com os EUA e, finalmente, 11) impulsionar um acordo para retomar a discussão dos dois estados na Palestina.

Poderia parecer que Starmer esteja defendendo um retorno ao “Estado de bem-estar” e reformas progressivas, que contrariassem os interesses da burguesia. Mas, seu conteúdo farsesco fica explícito, quando se avalia que, por exemplo, a “reconstrução” do NHS não tem qualquer proposta orçamentária ou planejamento de obras públicas para ampliar sua infraestrutura e, assim, mudar décadas de seu esvaziamento. Tudo se reduz a equiparar o número de assalariados ao crescimento de pedidos de tratamentos e consultas. A imposição de planos de saúde privados se dará diante da maior demanda de imigrantes que trabalham na Inglaterra por salários de miséria (os gastos do estado nesse ponto reduzem o valor da força de trabalho para o patronato). Disso trata a proposta de reduzir as “filas” de atendimento, contratando mais empregados com jornada de trabalho estendida. Quanto à política de reduzir a “lacuna fiscal” da educação privada (leia-se “não pagamento de impostos”), é provável que se acabe “compensando” os capitalistas com subsídios e outras medidas. No que diz respeito ao aumento do salário mínimo, não reconhecerá as perdas acumuladas e será fixado sobre o valor de uma “cesta básica” mais reduzida. Sobre o “reforço da segurança” e das fronteiras, trata-se de uma medida reacionária visando a cortar “gastos” do estado com subsídios.

Cada ponto do “programa” é um prato requentado de reformismo que as tendências gerais da crise e direitização da política burguesa mostraram ser impraticáveis, pela necessidade de imposição dos interesses capitalistas contra as massas. O caráter reacionário e direitista do “programa” se expressa mais claramente na política exterior: manter a guerra contra Rússia e o apoio ao genocídio em Gaza. Ou seja, manter os lucros da burguesia imperialista com as despesas com armas, em meio à desagregação econômica.

Os trabalhistas são um partido da burguesia imperialista, de forma que a troca dos conservadores pelos “trabalhistas” é a troca pelas eleições de um governo burguês rejeitado por outro, rodeado de fortes ilusões democráticas. A queda de cinco primeiros-ministros em menos de seis anos (Cameron, Theresa May, Boris Johnson e Sunak) indicou à burguesia a necessidade dessa troca. Nas condições de elevação da luta de classes, especialmente após as lutas grevistas de 2020/2023 (operários ocupando fábricas de armas com vínculos com Israel, greves do funcionalismo da saúde e dos professores, massivas e nacionais manifestações contra o genocídio em Gaza, paralisação de operários petroleiros e ferroviários, etc.), o governo Starmer garante aos capitalistas seus interesses, por meio da conciliação de classes e do maior controle político sobre os sindicatos. Eis porque a passagem dos trabalhistas da oposição para o governo é continuidade da política direitista, sob uma máscara “progressista”.

Por isso é que o recém-eleito se colocará em choque com as massas, que maioritariamente se colocam do lado dos palestinos, exigem a ruptura das relações entre Inglaterra com Israel, e que começam se revoltar contra as gastanças de guerra na Ucrânia, enquanto milhões e milhões de ingleses afundam em suas condições de vida e trabalho. Ainda que o controle dos trabalhistas sobre os sindicatos garanta para a burguesia inglesa que continue lucrando em meio à desagregação econômica geral do país, também abre a porta para um choque entre as bases e suas direções, quando se voltem a defender suas reivindicações pela luta de classes, e também contra o governo, quando forem reprimidos em nome de defender a “governabilidade” de Starmer, e se imponham os ataques exigidos pelo capital financeiro.

Essa é a tendência mais geral da situação política, marcada pela direitização reacionária da política burguesa. É preciso defender a independência dos movimentos e sindicatos em relação ao Estado, chamando a defender as reivindicações com a luta de classes. Por essa via, as massas darão passos práticos para desenvolver o programa e a estratégia revolucionários.