
O Internacionalista n° 17 / NOTAS INTERNACIONAIS / julho de 2024
Irã – realizado o segundo turno das eleições
O baixo comparecimento às urnas expressa a desconfiança das massas iranianas
A derrota do candidato apoiado pelo Aiatolá expressa o descontentamento com o governo
O “novo” governo já jurou subordinação à teocracia
A luta em defesa das reivindicações e das liberdades democráticas terá de seguir seu caminho nas ruas
O “reformista”, Masoud Pezeshkian, com 16.384.403 dos votos, venceu as eleições para presidente da República Islâmica do Irã no segundo turno, derrotando o clérigo “conservador” Saeed Jalili, que obteve 13.538.179 votos. A participação foi de 49,8% do total do padrão: 9% a mais que no primeiro turno, mas ainda inferior à de eleições anteriores.
Sua vitória não significará uma mudança efetiva nos rumos e política do regime teocrático. Sua candidatura precisou ser aprovada pelo aiatolá Ali Khamenei e pelo Conselho de Guardiões da Revolução/CGR. Logo após noticiada a sua vitória, o “reformista” prometeu subordinação ao “líder supremo” e ao CGR. A eleição de Pezeshkian comparece como produto de um pacto entre as frações burguesas e pequeno-burguesas que dominam a política e economia nacionais. Seu plano de governo continuará com as medidas já anunciadas pelo ex-presidente Ebrahim Raisi, que morreu em um acidente no dia 19 de maio. São elas: 1) retomar as negociações sobre o Acordo Nuclear, em troca de aliviar as sanções econômicas vigentes; 2) manter as boas relações diplomáticas com a Arábia Saudita, que foram alcançadas após mediações da China; 3) continuar as relações comerciais preferenciais com a Rússia e a China (que serviram para contornar as sanções e aumentar a atividade econômica e as exportações); 4) desenvolver o projeto bilateral com a Rússia, de criar um mercado cambial e pagamentos binacional, assinado antes de sua posse; 5) aprofundar os laços com os BRICS e se integrar na Organização para Cooperação de Xangai (OCX). Assim mesmo, negocia com os “conservadores” uma mudança nos códigos de vestimenta, visando a aproximar um setor crescente da população para um apoio mais firme ao regime, em troca de uma limitada ampliação das liberdades individuais e religiosas.
No jornal O Internacionalista n° 17, publicado há poucos dias, tínhamos assinalado que “A classe operária e os assalariados servem de base para as disputas entre as classes possuidoras e seus agentes burocrático-religiosos …”. Essa caracterização mostrou-se válida, quando Pezeshkian, recém-eleito, afirmou que iria seguir o rumo traçado pelas gestões anteriores, e que se subordinaria ao aiatolá Khamenei. O que nos fatos significa que as necessidades mais prementes das massas, e que deflagraram manifestações e greves no passado recente, continuarão sem resolução. E na medida que se mostre impotente para cumprir seu programa de liberdades civis, religiosas e políticas, voltarão as greves e manifestações que, mais uma vez, colocarão a necessidade de avançar na independência de classe perante as das duas alas burguesas (“ultraconservadores” e “reformistas”) lutando por suas reivindicações.
O enorme abstencionismo é uma clara manifestação da profunda desconfiança das massas na via da democracia, tutelada por clérigos e militares, para modificar suas condições de vida e resolver seus problemas mais urgentes. É preciso avançar na construção do partido revolucionário, para que as massas unifiquem e centralizem suas lutas que há anos vêm fazendo, e assim abrirão caminho para sua emancipação política e social, erguendo seu próprio poder.
