


O Internacionalista n° 18 / agosto de 2024
Editorial Internacional
A luta de classes mundial abriu um caminho revolucionário por meio da luta unitária em defesa dos palestinos e contra o sionismo e o imperialismo
O assassinato por Israel do líder do Hamas, Ismail Haniyeh, quando estava na capital do Irã, e o ataque sionista à capital do Líbano, Beirute, que matou Fuad Suhkr (comandante militar do Hezbollah), colocaram a ofensiva militar do sionismo e do imperialismo na região em um novo patamar. Em outros tempos, essas ações seriam encaradas diretamente como declarações de guerra de Israel, ao Irã e ao Líbano. E de fato são. Mas a concretização de uma guerra generalizada na região do Oriente Médio interessa apenas a um dos lados no conflito mais geral, mundial, entre as potências imperialistas lideradas pelos Estados Unidos, tendo Israel como seu instrumento (enclave) na região; e os dois maiores países de economias nacionalizadas pelas revoluções proletárias, Rússia e China, que têm muitos interesses na região e influência decisiva sobre a ação de governos e grupos militares organizados.
O governo Biden vinha manobrando com uma proposta de acordo de paz que permitisse obrigar o Hamas a negociar diplomaticamente, enquanto a matança de palestinos pelos sionistas prosseguia impunemente. Os seguidos bombardeios sobre acampamentos de refugiados, a partir de bases criadas em conjunto por Estados Unidos e Israel (como o píer construído que só serviu basicamente para isso), e matando centenas de palestinos que para ali tinham ido sob a promessa do governo de Israel de que estariam seguros, indicavam o verdadeiro caminho que percorriam os Estados Unidos e seu cão de guarda sionista. Não existe nenhuma intenção de paz por parte deles, apenas manobram diante das pressões mundiais contra o genocídio.
Somente é possível entender a obsessão estadunidense e sionista para a guerra se se compreende as tendências fundamentais da crise capitalista mundial e o choque de forças no terreno internacional entre duas formas de produção distintas, entre um capitalismo imperialista moribundo (em sua fase de composição) e as economias nacionalizadas que criaram as bases para a transição ao socialismo, embora debilitadas ao extremo pelas burocracias dirigentes no poder do estado em seus países. Os países imperialistas vivem há pelo menos duas décadas o retrocesso em sua fatia na produção industrial mundial. Recuo que permitiu que principalmente a China, mas também a Rússia, se aproveitassem para expandir seus negócios, interna e externamente. O que levou à situação atual: para sobreviver como potências, os EUA e a Europa e também o Japão necessitam da destruição em larga escala das forças produtivas mundiais, especialmente as chinesas. Isso permitiria a retomada das forças produtivas mundiais sob controle imperialista e sobre a base dessa catástrofe.
Por isso, o imperialismo se lança à maior ofensiva militar desde a 2ª guerra mundial. E tem na produção de armas e insumos uma fonte de consumo artificial que impulsiona uma cadeia industrial produtiva, amortecendo as tendências recessivas gerais.
Do outro lado, a China e a Rússia já têm preocupações demais com a guerra que as potências imperialistas impulsionam na Ucrânia e com as ameaças de guerra em outros países no Leste Europeu e no Sul do Oceano Pacífico – disputa por Taiwan. Embora sem uma aliança formal, tanto a China está envolvida na guerra na Ucrânia, como a Rússia apoia as manobras militares chinesas no Pacífico. O Irã acaba de aprofundar suas relações de proteção militar com a Rússia, e não dá um passo sem consultar a burocracia contrarrevolucionária. O Hezbollah libanês segue o mesmo caminho. Por isso, apesar de declamarem promessas de respostas “duras”, não dão o salto para a guerra aberta com Israel. Enquanto o imperialismo busca aprofundar a guerra onde puder, China e Rússia têm interesse em uma conjuntura que lhes permita ampliar ainda mais seus negócios.
Os Estados Unidos estão diante da disputa eleitoral mais acirrada das últimas décadas. A renúncia de Joe Biden abriu caminho para que Kamala Harris se lançasse a buscar apoios entre as forças econômicas mais potentes do imperialismo, no que tem sido bem-sucedida até agora. O imperialismo estadunidense não mudará a essência de suas políticas, seja com Harris ou com Trump. Assim como a vitória de Biden não alterou a essência das políticas trumpistas, algumas foram até aprofundadas pelo presidente democrata (intervenção militar, perseguição aos imigrantes, etc.). A crise mundial capitalista aberta em 2008 não se fechou, teve apenas altos e baixos em seu percurso. O que preocupa setores financistas são a baixa capacidade de Trump de lidar com os movimentos sociais (os democratas dirigem grande parte dos sindicatos), e de conter suas estúpidas afirmações, que interferem em acordos e negociações.
Com Harris ou com Trump, os EUA terão de lidar com as pressões combinadas de recessão e inflação. As manobras para tentar preservar o valor da moeda ianque diante das pressões inflacionárias, por meio de alta nas taxas de juros (que atraiu bilhões de dólares para dentro de seu país), se esgotaram. Os dados econômicos internos, especialmente os de empregabilidade, apontam para a recessão que se avizinha. As pressões sobre o Banco Central ianque se inverteram: agora, reivindicam que haja cortes nas taxas de juros, para conter a recessão. Já se negociam contratos com previsões de taxas de longo prazo ao redor de 3,86% ao ano (hoje, estão entre 5,25% e 5,5%). Os preços, que vinham caindo até alcançarem os 2,5% anuais, tenderão agora a subir. E o dólar, que só vinha se sustentando internacionalmente de forma artificial, tende a se desvalorizar e a ser menos usado nas transações internacionais, retomando as tendências de fortalecimento da moeda chinesa e de moedas regionais no mercado mundial. São as contradições objetivas de um capitalismo em decomposição que estabelecem as tremendas dificuldades para que a maior potência imperialista consiga fazer frente à situação. Tendências recessivas e perda de força de sua moeda, interna e externamente, pressionarão o governo dos EUA a intensificar seu intervencionismo de toda forma. A escalada no Oriente Médio, assim como a maior pressão sobre a Venezuela, são parte desse percurso.
As eleições na Venezuela aconteceram sob fortes pressões anteriores e presentes do imperialismo. Maduro cedeu tudo o que pôde, mas não a absurdos como a inscrição de candidatos em flagrante violação da legislação eleitoral do país. Os dias que antecederam as eleições foram de relativa calmaria. O imperialismo jogou com as cartas que tinha: pesquisas forjadas, ameaças, etc. O regime chavista respondeu com seu controle sobre a imprensa, o judiciário e as forças armadas. Logo depois de encerrada a votação, a justiça eleitoral apontou Maduro como reeleito, com 51,2% dos votos. A oposição pró-imperialista ficou com 44%. Imediatamente, os EUA e seus aliados rechaçaram o resultado. Passaram a exigir as listas com os resultados de cada urna. Ao mesmo tempo, “estranhamente”, aconteceu um hackeamento dos computadores da justiça eleitoral venezuelana, o que impedia a divulgação das informações exigidas pelos EUA e seus lambe-botas (aí incluída parte da esquerda democratizante pró-imperialista). China e Rússia reconheceram o veredicto da justiça eleitoral venezuelana. Os EUA passaram a reconhecer o candidato derrotado González como presidente eleito, sem apresentar dados concretos, a não ser o resultado de algumas urnas em que teria vencido Maduro. Imediatamente, os governos lacaios mais submissos aos EUA o seguiram: Argentina, Peru, Equador, Uruguai etc. Brasil e Colômbia ficaram em cima do muro, exigindo as atas de resultados antes de aceitarem os resultados. A Bolívia reconheceu a vitória de Maduro. Tudo indica que se repetirá o fenômeno Guaidó, que anteriormente, com apoio dos EUA, se autoproclamou presidente do país, mas fracassou. Os EUA almejam se apoderar do petróleo venezuelano e garantir as reservas de Essequibo, território em disputa com a Guiana, para não ter de depender da produção árabe e russa.
Novamente, por trás dos atores que encenam o drama, estão as forças fundamentais da conjuntura mundial. Qualquer posição que não defenda o país atrasado, com qualquer que seja seu governo, diante das pressões e intervencionismo imperialistas, está ao lado do capital financeiro contra o proletariado mundial. E está completamente perdido para a causa da revolução socialista.
Temos assistido na França como a Nova Frente Popular (NFP) salvou ou governo direitista de Macron de um vexame eleitoral, e agora colabora para a formação de um novo governo, onde ela comparece subordinada e centralizada por essa fração do imperialismo francês. Diante das necessidades de contenção das tendências da crise mundial, as burguesias de todos os países caminham para a direita, para usar a democracia burguesa em decomposição como meio de aplicação de suas políticas mais reacionárias, por meio dos métodos mais repressivos. O caso francês é uma amostra viva da direitização das esquerdas e sua assimilação da democracia burguesa imperialista, negando a revolução e ditadura proletárias. As “esquerdas” europeias ajudam a eleger Ursula Van Der Leyen, sabidamente nazista, como chefe do parlamento europeu. As bandeiras da esquerda que expressam as reais necessidades das massas são abandonadas em troca da “defesa da democracia”, e deixadas para serem levantadas hipocritamente pelas forças burguesas de extrema-direita. A burguesia imperialista vai usando elementos governantes de extrema direita (Itália, etc.) e direita (França, Alemanha, etc.) ou falsamente de esquerda (Inglaterra, Espanha, etc.) para impor suas medidas e atacar as massas. Com quaisquer rótulos, aplicam as medidas protecionistas do parasitismo financeiro e de maior exploração do trabalho assalariado – com cortes de direitos e precarização.
As massas têm reagido aos ataques da burguesia em toda parte. As manifestações multitudinárias em favor dos palestinos e contra o sionismo e o imperialismo são a ponta de um iceberg, que leva as massas às ruas, para com seus métodos próprios de luta, defenderem suas condições de vida e trabalho. O obstáculo têm sido as direções, de todos os tipos, que ou bloqueiam as lutas ou as conduzem para as instituições da democracia burguesa. A crise de direção revolucionária se manifesta com toda força, com a direitização das esquerdas que, democratizantes que são, acompanham o estreitamento da democracia burguesa assentada em uma economia em decomposição. A falta da direção revolucionária se evidencia mais e mais. As massas em luta terão de se voltar às experiências históricas do proletariado mundial para reconstruírem suas direções revolucionárias, seu partido mundial, assentado nesse programa.