
O Internacionalista n° 18 / NOTAS INTERNACIONAIS / agosto de 2024
Eleições nos EUA
Trump e Harris são duas faces do imperialismo
A luta pelas reivindicações e a defesa das conquistas proletárias é o programa que fará avançar a luta de classes
A disputa eleitoral de outubro vem apontando como provável vencedor o ex-presidente Donald Trump e, até um mês atrás, comparecia como reedição da eleição de 2020 que deu a vitória a Biden. No primeiro debate televisivo, Biden mostrou-se atordoado e perdido, reforçando as especulações de estar sofrendo uma doença mental degenerativa. Os alarmes soaram forte no Partido Democrata, que via escorregar pelas mãos a ilusão que ainda se guardava em sua vitória. Na cúpula partidária, começaram a se movimentar as peças e se realizarem manobras para impor a renúncia de Biden. Os capitalistas e financiadores começaram a estrangular o fluxo de dinheiro para sua campanha, congelando US$ 90 milhões. As bases partidárias se movimentavam no mesmo sentido, exigindo a troca do presidente pela vice-presidente, Kamala Harris, a qual supostamente poderia vencer Trump. Estima-se que sua ascendência asiática e negra poderia servir para reatar os apoios entre as “minorias” que estavam sendo perdidas, pela oposição crescente das massas à política do governo de apoio ao genocídio palestino.
Biden resistia às pressões, e quis manter sua candidatura. Porém, o “atentado” falido contra Trump na Pensilvania serviu para que realizasse uma rápida manobra de campanha, em que se apresentava como o candidato que enfrenta até a morte, em defesa de eleições limpas e de seu retorno ao governo pelas vias democráticas, reforçando as pesquisas que lhe davam uma vitória sobre Biden, e liquidificando as últimas esperanças deste chegar à vitória. Dias depois, renunciou e apoiou Harris, para continuar na corrida eleitoral. Menos de 24 horas depois, Harris consolidava sua candidatura com apoio da cúpula partidária, da convenção do partido e com US$ 81 milhões que em poucas horas começaram a engraxar a maquinaria eleitoral da nova democrata, alcançando US$ 200 milhões num único dia.
Na primeira intervenção pública como candidata, Harris alertou que Trump “levaria o país para trás”. A escolha seria, portanto, entre a democracia e o autoritarismo, entre os direitos civis e a falta de liberdades. Mas, o discurso “progressista” enfrenta um grande entrave, que não será desfeito com palavras. Houve um princípio de ruptura entre um amplo setor das bases democratas e a cúpula partidária, por conta das medidas repressivas ordenadas contra os protestos estudantis nas universidades pelo fim dos convênios acadêmicos com instituições sionistas. Sindicatos e organizações de base do partido exigem do governo o embargo imediato do envio de armas e bombas para Israel. A política pró-sionista, defendida por Biden, Harris e a esmagadora maioria dos legisladores democratas, levou a um amplo setor da base a questionar seu apoio eleitoral aos democratas. Harris manterá a mesma política, embora agora faça manobras retóricas para se apresentar como “progressista”. Apresenta seu currículo como “defensora dos direitos civis” e “dos direitos das mulheres”, e assim procura ocultar seu declarado apoio ao governo genocida de Israel. Foi parte dessa manobra, negar-se a participar no discurso de Netanyahu no Congresso dos EUA. Mas, logo após encerrado o encontro, reuniu-se com o chefe do genocídio para garantir que continuará apoiando Israel. Harris é um agente dos interesses do capital financeiro, que saqueia as nações oprimidas, e defensora dos negócios da indústria militar e da burguesia imperialista no mundo todo.
Democratas e republicanos se alternam no governo, e nada muda na política mais geral do imperialismo norte-americano imperialista. Por isso é que a troca de um presidente reflete mudanças táticas da burguesia. A possibilidade de escolha de Trump no lugar de Harris é condicionada pelo interesse dos monopólios em não retroceder ainda mais no mercado mundial, perante o avanço da China. Isso explica o crescente apoio das frações da burguesia à política exterior de Trump, orientada a diminuir a ajuda na Ucrânia (repassando os custos para a burguesia e governos europeus) e concentrar mais recursos e medidas de guerra comercial e manobras bélicas contra China. A escolha de Vance como candidato a vice-presidente reflete essa mudança tática no campo das candidaturas republicanas.
O avanço irresistível da Rússia na guerra e seu fortalecimento econômico – apesar do bloqueio e das sanções – mostrou claramente para a burguesia imperialista dos EUA que seguir gastando bilhões em uma guerra que se inclina a favor da Rússia, injetando bilhões de dólares e esgotando as armas, enquanto a China continua avançando na América Latina, Ásia e África, já não é um “bom negócio”. Um choque em duas frentes (Rússia e China) é inviável ao capitalismo norte-americano em decadência. Não muda, porém, o apoio irrestrito a Israel, que se manterá, qualquer seja o governo de plantão. Preservar seu vassalo no Oriente Médio é do interesse dos EUA para cercar a China e a Rússia, e impedir que avancem em sua ofensiva diplomática e comercial,, enfraquecendo o apoio dos governos árabes aos interesses norte-americanos.
O apoio de todo um setor da burguesia a Trump se explica ainda pela necessidade de arrastar amplos setores da pequena burguesia para servir de ponto de apoio contra as tendências de luta presentes (e crescentes) na classe operária e demais oprimidos, prometendo poupá-la da crise econômica que se aprofunda. O intervencionismo contra China exigiria impor esforços de guerra e econômicos, agravando a super exploração e disciplinando os assalariados. Para esse stor dos capitalistas, não há espaço para movimentos anti guerra, anti sionistas ou reivindicatórios que possam vir a potenciar a luta de classes, quando os EUA se projetam em choque contra os Estados Operários degenerados, e visam a aumentar a opressão direta sobre as semicolônias.
Para os explorados dos EUA não interessa quem ganhe: Trump ou Harris. Qualquer que seja o vencedor, continuará o intervencionismo imperialista, o apoio ao genocídio palestino e o objetivo de derrotar a China e a Rússia, ainda que isso signifique destroçar a economia norte-americana e desgraçar os explorados do país. Para os palestinos, tampouco muda nada, porque continuarão sendo trucidados por milhares de bombas, exportadas dos EUA para Israel. Para os estados operários degenerados, a mudança de governo na maior potência imperialista não altera em nada as manobras militares sobre suas fronteiras. E, para a classe operária mundial, significa que serão ameaçadas suas conquistas históricas (a propriedade estatizada pelas revoluções), e que pagará com sua miséria pela barbárie do capitalismo apodrecido.
Essa situação ressalta a ausência de uma direção revolucionária, capaz de responder, a partir de uma posição de classe, as tarefas colocadas pela crise. As massas não podem contar com os falsos marxistas que apoiam a derrota dos Estados Operários, ou se negam a organizar e radicalizar a luta operária contra o sionismo e o imperialismo em seus países. Afundados no democratismo burguês e no cretinismo parlamentar, são um freio objetivo para a fusão das tendências de luta das massas com o programa e a estratégia revolucionários. Essa é a tarefa que deve ser assumida pelos que que defendem as conquistas históricas do proletariado mundial, sem apoiar em nada as burocracias herdeiras do estalinismo, e se apoiando nas lutas defensivas pelas reivindicações e nos métodos da ação direta, levando as massas a derrotarem suas burguesias e governos, aproximando-as ao menos um passo da revolução socialista no mundo todo.
