
O Internacionalista n° 18 / NOTAS INTERNACIONAIS / agosto de 2024
Congresso dos EUA recebe o genocida Netanyahu
A democracia burguesa dos EUA está comprometida com a defesa do holocausto palestino
As massas devem impor com sua força coletiva o fim do genocídio e a derrota do sionismo e do imperialismo
Benjamin Netanyahu, acusado por crimes de guerra na Corte Internacional de Justiça/CIJ, foi recebido de braços abertos pelo Congresso dos EUA, com um grande cerimonial, organizado por deputados e senadores republicanos, e parte da bancada dos democratas. 127 deputados (dos 212) e 28 senadores (dos 51) do Partido Democrata participaram da recepção ao genocida. Foi o quarto discurso de Netanyahu no Capitólio, mas foi a primeira vez em que um vice-presidente estadunidense não comparece a esse tipo de evento. Horas antes, foi entregue uma carta de 230 funcionários do Capitólio, exigindo que se boicotasse a atividade.
Netanyahu pediu que os EUA apoiassem Israel até cumprir os objetivos da “guerra” contra o Hamas. Chamou Biden e Trump de “aliados”. Afirmou que “praticamente nenhum civil” morreu em Gaza, deixando a entender que dezenas de milhares de mulheres, crianças e homens massacrados eram apoiadores ou integrantes do Hamas porque, como disseram vários de seus ministros, “Não há inocentes em Gaza”. Por isso é que não fez qualquer menção a um cessar-fogo ou aos acordos de Oslo, que “garantem” a criação de um Estado Palestino. Disse ainda que se estava travando uma guerra “entre a barbárie e a civilização”. E exigiu de seu aliado norte-americano que acelerasse a entrega de armas. Em resumo: fez uma defesa aberta e clara do mais brutal holocausto da história recente e da opressão colonial.
O genocida foi ovacionado de pé 58 vezes pelos republicanos e democratas presentes. Assim, rendia-se homenagem a um criminoso, colonialista e racista, defensor da limpeza étnica em toda a Palestina. Discursos e aplausos aconteceram para decorar cinicamente as dezenas de mortes (a maioria de mulheres e crianças) anunciadas nos campos de refugiados e nos bairros de Gaza pelos bombardeios sionistas nesse dia.
Na frente do Congresso, manifestaram-se milhares de ativistas, denunciando o genocídio na Palestina, e chamando a prisão de Netanyahu, por crimes de guerra, como resolvido pela CIJ. Cantava-se “Palestina livre”, e erguiam-se faixas pelo “Cessar-fogo Já!” e o “Fim à assistência militar dos EUA a Israel”. Os protestos acusaram ainda o Congresso e o governo dos EUA de cúmplices do genocídio. Hatem Abu Dayyeh, coordenador da Rede da Comunidade Palestina, disse que “Netanyahu e os membros do Congresso … são parceiros no crime”. Reem Assil, do Centro Organizador e de Recursos árabes, assinalou que “é inconcebível que o governo dos EUA esteja recebendo um criminoso de guerra reconhecido internacionalmente como responsável pelo assassinato em massa de palestinos … incluindo mais de 40 membros da minha família”. Na medida que Netanyahu desenvolvia seu discurso, desfechou-se a repressão policial contra as manifestações: centenas foram presos e dezenas ficaram feridos.
Dentro do Congresso, dezenas de manifestantes judeus gritaram pelo cessar-fogo, e acusaram Netanyahu de criminoso de guerra. Um dia antes, 500 jovens judeus ocuparam o térreo de uma das alas do Congresso, protestando contra a visita de Netanyahu e o apoio do governo democrata ao genocídio, gritando “não em nosso nome”. Ruslana, membro e organizadora do Shoresh, coletivo de judeus antissionistas, afirmaram: “o principal apelo agora é parar o genocídio, mas, no longo prazo, é desmantelar o sistema de apartheid e encontrar uma solução estatal que garanta direitos iguais, liberdade e segurança para todas as pessoas entre o rio e o mar”. Uma organizadora do coletivo Vozes Judaicas pela Paz (JVP), adendou a essa declaração que “Como descendentes de pessoas que sofreram genocídios e pogroms… [pedimos] ações decisivas para acabar com esse genocídio hoje”. Tiveram como resposta dos legisladores sua remoção à força pela polícia.
A sórdida imagem do Congresso e do governo dos EUA, aclamando e protegendo o genocida Netanyahu, é antagônica aos protestos e às tendências de luta e ao internacionalismo instintivo das massas contra o sionismo e sua “solução final” fascista para os palestinos. De um lado, a burguesia e pequena burguesia racista e obscurantista estão unidos para apoiar o genocídio, com palavras e ações. De outro, os trabalhadores e estudantes avançam na sua unidade em defesa dos oprimidos palestinos. É o retrato do antagonismo entre classes opressoras e oprimidas que se processa em todo o mundo.
Em meio a essas tendências antagônicas, manobram setores do Partido Democrata. Kamala Harris e a deputada Ocasio-Cortez, que denunciaram as “atrocidades” israelenses, continuam firmes em seu apoio à defesa de Israel, e aprovando bilhões de dólares que financiam o genocídio. A duplicidade moral é uma marca registrada dos cínicos políticos, funcionários e deputados democratas, e também uma manobra eleitoreira para recuperar o apoio de um amplo setor das bases contrárias ao apoio de Biden e Harris ao genocídio em Gaza. Na disputa eleitoral aberta contra Trump, a profunda desilusão dos eleitores do partido com os chefes democratas pode ser um tiro no pé, e afundar a candidatura de Harris. É por isso que ela não foi ao Congresso, mas garantiu a Netanyahu um encontro, logo após seu discurso. Como suas declarações seriam difundidas como parte da campanha, Harris se apresentou demagogicamente como não compactuando com os “excessos” de Israel e defensora de uma solução pacífica (cessar-fogo) e, ao mesmo tempo, mostrando aos lobistas bilionários sionistas que podem injetar milhões de dólares para apoiar sua campanha, porque, se eleita, ela será uma “aliada” de Israel e apoiará suas ações.
Essa hipocrisia e cinismo na boca de quem é apresentada por setores da esquerda como uma “candidata das minorias”, é mais um exemplo de que na democracia norte-americana não existe soberania popular do voto, mas imposição ditatorial da burguesia, que lucra muito com o genocídio, e precisa de seu enclave sionista no Oriente Médio para impor seus interesses gerais na região. O mesmo se verifica na França e na Alemanha, que aprovaram leis que criminalizam manifestantes pró-palestina por apologia de “antissemitismo”, assim como leis que obrigam os solicitantes de asilo a renegarem qualquer crítica a Israel. As democracias burguesas se apresentam sem disfarces como instrumentos da glorificação do fascismo e do genocídio, indicando até onde chegou a direitização da política burguesa.
Os atos que reuniram, unitária e organizadamente, manifestantes de origem palestina, árabe e judia, sob as palavras de ordem “Palestina Livre!” e “Fim do genocídio”, assinalam que se abriu uma profunda fenda na retórica sionista que dominou os discursos ideológicos e ações políticas por décadas no país. Um marco dessa ruptura foram as ocupações de universidades, exigindo o fim das relações acadêmicas com instituições acadêmicas e técnicas israelenses. Mas, fundamentalmente, as ações diretas e de massas dos operários da Espanha, Grécia, Índia e Inglaterra, que impediram o envio de armas para Israel e, ocupando fábricas, obrigaram a fechar algumas subsidiárias da indústria militar ligadas a Israel.
Antes da chegada de Netanyahu aos EUA, uma “coalizão de sindicatos” – que representam quase a metade dos sindicalizados nos Estados Unidos – enviou uma carta a Biden, pedindo a suspensão de toda ajuda militar do país a Israel, e “garantir um cessar-fogo imediato e permanente na guerra em Gaza”. Os assinantes são a Associação de Comissários de Bordo–Trabalhadores das Comunicações da América (AFA-CWA), o União de Trabalhadores dos Correios de América (APWU), a União Internacional de Pintores e Ofícios Afins (IUPAT), a Associação Nacional da Educação (NEA), o Sindicato Internacional dos Empregados de Serviços (SEIU), o Trabalhadores Unidos da indústria Automobilística (UAW) e o Trabalhadores Unidos da Eletricidade, Rádio e Máquinas (UE). Esses sindicatos compõem a AFL-CIO, reúnem mais de 6 milhões de trabalhadores, e compreendem setores vitais da economia. Somaram-se às assinaturas da “carta”, o Sindicato Internacional dos Trabalhadores da Alimentação e do Comércio (UFCW), que favoreceu a formação (contra a vontade de setores das direções) da coalizão sindical Rede Nacional de Trabalhadores pelo Cessar-fogo, que exige do Congresso que se aprove um projeto de lei pelo “cessar-fogo imediato e o fim do cerco de Gaza”.
A “carta” foi aprovada em convenções convocadas especialmente para esse objetivo, mostrando um massivo apoio dos delegados e das seções regionais dos sindicatos, e uma crescente pressão das bases para que se tomasse uma posição clara contra Israel, contra a decisão de um setor do conselho executivo da AFL-CIO, que já anulou ações e petições de sindicatos de base com o mesmo conteúdo. A capitulação das direções mostra o elevado grau de centralização e estatização dos sindicatos, enquanto que a “coalizão sindical” não supera uma posição democratizante, e reforça as ilusões democráticas de que ainda é possível pressionar os democratas a que mudem sua posição a respeito de Israel.
Somente a irrupção das bases da classe operária e dos sindicatos norte-americanos, sob um plano de ação unitária e nacional, na base da formação de movimento mais amplo e mais radicalizado, e que se oriente a atingir e atacar os interesses da indústria dos armamentos e empresas ligadas ao sionismo (paralisando fábricas e portos interrompendo o envio de armas etc.), poderá abrir caminho à derrota do sionismo na Palestina, e impor à burguesia norte-americana suas reivindicações, com a ação direta. É com essa orientação que o movimento pro-palestina dará um passo na ruptura com a democracia e instituições comprometidas com o genocídio, e se abrirá uma via para que a estratégia revolucionária se una às tendências de luta, projetando assim a luta de classes.
