O Internacionalista n° 19 / setembro de 2024

Editorial Internacional

A disputa eleitoral nos EUA tem por base uma mesma política imperialista de agravamento do genocídio palestino, de ofensiva bélica contra Rússia e China, e aumento da opressão das massas e nações oprimidas


Segundo pesquisas, Kamala Harris conseguiu reverter a “derrota certa” dos democratas contra os republicanos, quando Biden ainda era candidato: 45% contra 41%. Foi exitosa a troca de Biden por Harris, forçada pela cúpula democrata e bilionários doadores. Ao aceitar sua candidatura na Convenção do partido, Harris disse que manterá seu apoio inabalável a Israel e Ucrânia.
A cumplicidade no genocídio do governo Biden/Harris foi combatida por centenas de milhares de estudantes que ocuparam as universidades nos Estados Unidos exigindo o cessar-fogo e a ruptura dos acordos das instituições universitárias com Israel e suas universidades. Destacou-se também o surgimento de um movimento interno ao Partido Democrata (PD) nos últimos meses, que nas primárias depositaram votos de denúncias contra a política do governo Biden no holocausto na Palestina. Setores do PD e pequenos partidos aliados decidiram não votar em Harris por conta disso. Na Convenção Democrata, essas posições se manifestaram, obrigando Harris a atacá-los e se apoiar na demagogia democratizante e dos “direitos humanos”, a fim de usar os movimentos de mulheres e negros pelos direitos civis, para silenciar e atacar as denúncias e exigências do movimento pró-Palestina taxando-os de serviçais de Trump.
A troca de Biden por Harris modificou o quadro eleitoral nos EUA, de acordo com os interesses de setores da grande burguesia e da indústria militar, e teve efeitos imediatos na situação política mundial. A Ucrânia invadiu a província russa de Kursk, com apoio do imperialismo norte-americano e europeu. Harris disse que apoiará a Ucrânia na sua luta pela “libertação” da opressão russa, o que significa endossar a ofensiva militar para destruir o estado operário degenerado. Dias após seu discurso na Convenção, novos envios de armas foram repassados para Israel, o que favoreceu a ampliação da ofensiva genocida sionista sobre a Cisjordânia, onde foram “confiscados” 23,7 km2 de terras, muito mais que nos últimos 20 anos. Defato, Harris deu carta branca a Israel para completar seu objetivo de expulsar palestinos ou massacrá-los, se resistirem. Tudo é feito para preservar o estado de Israel como base de manobras da burguesia norte-americana no Oriente Médio, um verdadeiro enclave militar.
Também foi apresentado e votado o “plano econômico” de Harris, que garante os lucros bilionários dos capitalistas da indústria bélica na Palestina, Ucrânia e Ásia, e ainda da fração que obtém seus lucros no mercado interno, e está sendo atingida pelo agravamento da destruição das condições de vida das massas e das tendências recessivas. Disso se trata a política de “créditos reembolsáveis” para os “mais necessitados”: serão injetados bilhões de dólares pelo estado, para subsidiar os lucros dos empresários dos serviços e comércio, no mesmo momento em que a espiral inflacionária destrói os ganhos dos assalariados (que não conseguem comprar a mesma quantidade de mercadorias e serviços do passado), e em que o desemprego segue em alta e alcançou seu nível mais elevado, desde 2021.
Para cumprir os objetivos de seu “programa”, um possível governo Harris deverá manter sob controle a luta de classes. Nos últimos anos, cresceram as manifestações e a radicalização dos movimentos estudantis, populares e operários. Aconteceram greves que romperam a paralisia de mais de cinco décadas, abrangendo professores, funcionários, assalariados dos serviços e importantes destacamentos operários. A greve geral nacional e unificada do sindicato dos operários metalúrgicos da indústria automotiva, a UAW, no ano passado, conseguiu derrotar uma das mais poderosas frações capitalistas, e impor aumento salarial, ampliação de direitos, e abriu caminho a um processo de sindicalização que é visto como uma greve ameaça pelos capitalistas. Estudantes conseguiram que algumas universidades suspendessem e rompessem com acordos acadêmicos e econômicos entre suas universidades e instituições de Israel. Também neste ano, a iniciativa da UAW e de outros sindicatos constituiu uma frente sindical para pressionar o governo democrata por um cessar-fogo na Palestina. Como se vê, um crescimento da luta de classes enfrenta o objetivo de um futuro governo democrata, de manter equacionados os choques dos assalariados contra o parasitismo dos capitalistas, particularmente da indústria militar.
Junto à necessidade de controlar os sindicatos e movimentos está a perseguição e repressão. O ano letivo das universidades norte-americanas começa com uma nova lei contra protestos, que restringe e cerceia o direito à livre expressão e organização de manifestações. Qualquer governo burguês que seja eleito, contará com um arcabouço legal que facilitará esmagar e criminalizar os protestos. Essa centralização visa a intervir nos sindicatos e cooptar as direções, para evitar que as greves atinjam os interesses dos capitalistas. Como acontece na Europa ou na América Latina, a direitização e fascistização dos democratas se realiza por dentro da democracia burguesa, e graças, fundamentalmente, à conciliação de classes praticada pelas direções sindicais e populares. Na França e na Alemanha, ergueram-se aparelhos jurídicos repressivos e ditatoriais que criminalizam manifestações e protestos em favor dos palestinos. Na Itália, o governo fascistizante aprovou leis que restringem as liberdades de organização e reunião. Os orçamentos militares deram um salto, visando a sugar os explorados da Europa em benefício dos lucros da indústria militar, que alimenta a guerra travada pela Ucrânia contra a Rússia. Na América Latina, quase todos os governos seguem financiando o genocídio palestino. Intervenções e manobras golpistas, orquestradas pelo imperialismo, ameaçam os governos que não se subordinem totalmente a suas ordens, como na Venezuela e Honduras. Por toda parte, avançam os ataques às liberdades democráticas e a destruição de empregos, salários e direitos, em benefício do parasitismo financeiro. Governos e Congressos dos países democrático-burgueses aprovam contrarreformas violentas, orçamentos que aparelham o Estado policial, e ainda mais leis repressivas. Todos os países “democráticos” reforçam as formas ditatoriais do domínio da burguesia. A candidatura de Harris e as medidas democratas são manifestações dessa tendência reacionária.
O capitalismo monopolista dos EUA não tem como frear seu retrocesso geral no mercado mundial, sem ampliar a destruição de forças produtivas em escala global, especialmente a propriedade nacionalizada pelas revoluções proletárias, afundar os explorados na barbárie, e oprimir mais brutalmente as massas e nações oprimidas nas semicolônias. Essa tendência geral é acompanhada pelas burguesias europeias, japonesa e inglesa, e a unificam no objetivo imediato de derrotar a Rússia, e preparar as condições para a derrota da China. As eleições nos EUA prenunciam a ampliação das crises, da opressão social e nacional, e das tendências bélicas. Nada muda para as massas mundiais.
As massas se projetam na luta de classes, na medida em que são impulsionadas pelas condições objetivas da desagregação capitalista. Há muitas décadas não se via uma confluência e unidade tão ampla das massas ao redor de reivindicações e objetivos comuns. Mas, não avançam em sua ofensiva política e nos métodos da luta de classes contra os governos e os capitalistas, porque são desviadas, contidas ou traídas por suas direções sindicais e políticas. As direções e partidos que se reivindicam de esquerda continuam iludindo as massas, com as promessas de melhorar suas condições de vida e direitos dentro da institucionalidade burguesa, deixando assim o campo livre para a burguesia impor ataques e destruição das condições de vida das massas, por meio das instituições e ilusões democráticas.
A política democratizante e de colaboração de classes é um bloqueio reacionário às tendências instintivamente revolucionárias presentes entre as massas, que se levantam contra o genocídio e as guerras do imperialismo contra as nações oprimidas e os estados operários degenerados. A luta de classes e a solidariedade internacionalista das massas não podem se desenvolver e se elevar conscientemente ao objetivo da luta pelo poder, sem sua direção política revolucionária mundial. Para avançar na reconstrução da direção revolucionária internacionalista, devem ser defendidas e impulsionadas as bandeiras e consignas que aceleram a luta de classes e ação coletiva dos explorados, pela conquista de suas reivindicações. Por essa via, se avançará no objetivo de impor aos governos a ruptura de todas as relações com o estado genocida de Israel, e pôr um fim a ofensiva belicista do imperialismo contra Rússia e China. Será possível impor um freio à destruição maciça de forças produtivas, que ameaça afundar as massas e a economia mundial na barbárie mais profunda.