
O Internacionalista n° 19 / NOTAS INTERNACIONAIS / setembro de 2024
Convenção Democrata
Convenção democrata confirma candidatura de Kamala Harris, endossando a trama palaciana contra Biden e a continuidade do genocídio na Palestina
A Convenção Nacional do Partido Democrata, em Chicago (Michigan, 18/08), oficializou a candidatura de Kamala Harris a presidente. Chicago é o berço de uma das maiores comunidades palestino-árabe dos EUA. Protestos aconteceram no primeiro dia contra Biden e Harris, por apoiarem o genocídio palestino e prometerem manter a política de apoio ao sionismo. Cartazes chamavam a não votar nela e liam-se faixas com palavras de ordem tais como “A ocupação da Palestina é crime” e “Pela vitória da resistência Palestina”.
Temia-se que os protestos pudessem acabar em confrontos, como os ocorridos na Convenção democrata de 1968 (também em Chicago), quando milhares protestavam contra a Guerra do Vietnã, e foram brutalmente reprimidos. Mas, não havia decisão de boicotar a Convenção e, portanto, não foi alterado o teatro montado para referendar a escolha da Harris, feita pela cúpula, após a debandada de frações burguesas que obrigaram Biden a renunciar – ou ser destituído da candidatura. Tudo indicava que Biden seria derrotado por Trump, e era impossível ocultar o estado avançado da deterioração de suas capacidades físicas e intelectuais. Segundo fontes do partido vazadas na mídia, antes mesmo do debate com Trump, que o mostrou atordoado e intelectualmente afetado, existia um plano para tirar Biden da disputa.
A trama palaciana contra Biden procura reverter a possibilidade de derrota dos democratas, e apresentar a candidatura de uma mulher negra e filha de imigrantes como se fosse uma virada “geracional e progressista” no interior do partido. A manobra, de um lado, objetivou isolar os manifestantes pró-Palestina, se apoiando em um setor ligado aos “movimentos pelos direitos civis”, e, de outro, conter na Convenção as manifestações dos delegados pró-Palestina, abafando as denúncias de cumplicidade no genocídio, com gritos e vivas para Harris. Em meio ao discurso de Harris, gritaram-se palavras de ordem pelo cessar-fogo e pelo fim da ajuda dos EUA a Israel. “Kamala, Kamala, não podes esconder-te , não votaremos no genocídio”, ouvia-se. Harris respondeu acusando quem gritava de servir aos interesses de Trump. Enquanto Harris atacava em seu discurso os delegados favoráveis ao embargo a Israel, manifestantes foram despojados das bandeiras palestinas, delegados pró-Palestina eram impedidos de falar, e uma mulher usando um hijab era atingida por um cartaz de Biden, quando se pronunciava contra o discurso do presidente. Essas retaliações e a cumplicidade de grande parte dos delegados demonstraram o quanto o Partido foi cooptado pelo financiamento e pelos interesses sionistas, que são os da grande burguesia que controla sua cúpula.
Convenção vota “programa” que endossa o genocídio
Harris conta com apoio do Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos, que financia e endossa sua candidatura. No seu discurso, deixou claro que preservará o apoio e o financiamento de Israel, ou seja, que seguirá sendo cúmplice do genocídio palestino, como foi durante todo seu mandato de vice-presidente. Os delegados que acharam possível que assumisse uma posição diferente, caso aumentassem a pressão política foram derrotados. Até a deputada “progressista” Ocasio-Cortez, que condenou no passado os massacres de palestinos, fez uma virada de 180 graus, afirmando que apoia o direito de Israel à “autodefesa”, desde que se retomassem as conversações para avançar na resolução dos “dois Estados”.
Na Convenção, foi aprovado o “programa de governo” de Harris. Não há uma só linha que fale de cessar-fogo imediato, dos massacres ou de embargo, como exige a Corte Internacional de Justiça/CIJ e a ONU. Entretanto, diz explicitamente que o “Memorando de Entendimento de 2016 é inquebrável”. Refere-se ao acordo Israel-EUA, assinado por Barack Obama (vigente até 2028), que provê uma ajuda militar anual fixa em valor de US$ 3,8 bilhões para Israel. Harris mostra, assim, seu apoio “inquebratável” ao genocídio e ao envio de armamentos. O governo Biden-Harris foi muito além, superando, por dezenas de bilhões em bombas e armas, esse acordo. A menção hipócrita de lutar por um “futuro melhor para o povo palestino”, à qual Harris referiu-se no seu discurso, significa que ou os palestinos aceitam seu destino, ou serão dizimados ou expulsos de suas terras ancestrais.
O novo ano letivo nos EUA começou com uma extensão e aprofundamento das leis repressivas contra os protestos no interior dos campi. A Lei de Conscientização sobre Antissemitismo (ver nota “Congresso dos EUA criminaliza a luta pró-Palestina: defender as liberdades democráticas com a luta de classes!”, OI n° 16 – junho 2024), aprovada por democratas e republicanos, é um instrumento do sionismo e do imperialismo para conter as próximas lutas contra o genocídio e pelo embargo a Israel. Se eleita, Harris se apoiará no avanço das restrições às liberdades de expressão e de organização, e recorrerá à repressão para garantir que não sejam ameaçados os interesses dos monopólios e dos sionistas.
Sionistas apoiam Harris – que apóia os sionistas
Em 2017, em uma conferência do Comitê Americano-Israelense de Assuntos Públicos, ou AIPAC – organização sionista dedicada a “comprar” presidentes e deputados (financia 342 dos 535 membros do Congresso), enchendo de dólares suas campanhas e cobrando-lhes quando eleitos o apoio irrestrito aos interesses sionistas – Harris afirmou: “Estou do lado de Israel devido aos nossos valores partilhados, que são tão fundamentais para a fundação de ambas as nossas nações … os laços entre os EUA e Israel são inquebráveis…”. A defesa da opressão colonial, do direito à posse militar de terras e recursos, da implementação do genocídio em nome da “democracia” e do suprematismo racista, eis os “valores partilhados” com o sionismo. Com seu discurso na Convenção neste ano, Harris apenas reforçou essa “comunhão de valores”, que visam a manter em pé o enclave imperialista no Oriente Médio.
O oportunismo de se apresentar como “mulher negra e filha de imigrante” como atestado de progressismo foi duramente criticado pelo Black Agenda Report (BAR), um site que promove a produção intelectual, cultural e jornalística de negros e negras dos EUA, fundamentalmente. Segundo lembra o BAR, “Um dia depois de manifestar apoio a um cessar-fogo, o governo Biden-Harris liberou 3,5 mil milhões de dólares adicionais em ajuda militar a Israel” e, logo a seguir, foi aprovada “uma venda de 18,8 bilhões de dólares adicionais em equipamento militar”. Por isso é que assinalam que a apresentação de Kamala Harris “como uma candidata progressista” e que “já obteve um apoio esmagador da população negra” não deveria ser endossada, e sim denunciada. Para o site, sempre é importante “documentar a traição dos enganadores negros que trabalham ao serviço do império dos EUA”.
Votar em Harris é votar na opressão e no genocídio
Os democratas “progressistas” e “socialistas” recorrem a todas as manobras retóricas possíveis para arrastar as bases partidárias a votar em Harris. Levanta-se o espantalho de que um governo Trump significaria o “fim das liberdades democráticas” e a “destruição dos direitos civis”. Fala-se que, sendo eleita, se poderá pressionar para uma mudança na política de Estado em relação a Israel. Afirma-se que existe no partido um espaço para as divergências internas, e assim, para a luta pelo convencimento de lideranças, deputados e senadores. E que a grande influência dos democratas entre os sindicatos e a ascendência de novas lideranças sindicais, a exemplo de Shawn Fain, presidente do United Automobile Worker/UAW, publicamente a favor de um cessar-fogo e de políticas “progressistas”, permitem ir conquistando progressivamente uma influência maior e, desta forma, levar a uma mudança da política.
Essa demagogia democratizante já foi trucidada pelo ocorrido na Convenção e nos 4 anos de governo de Biden/Harris, que pouco ou nada se diferenciou do governo Trump/Pence. O governo atual aprofundou o fechamento de fronteiras e a expulsão de imigrantes, estendeu a guerra comercial, reforçou a política intervencionista nos países oprimidos, manteve o militarismo contra Rússia e China, e apoiou o genocídio palestino. Isso levou a um setor de base dos democratas a organizar um movimento conhecido como “voto descomprometido”, que conseguiu se expressar em mais de 700 mil votos de protesto contra o genocídio nas primárias. E que fez campanha na Convenção por um abaixo-assinado (apoiado por 200 delegados) por um cessar-fogo para Harris na Convenção. Desfeita a ilusão que Harris poderia mudar de posição, grande parte desse setor descontente está chamando a não votar nela, nem em Trump.
Virada tática da burguesia após a troca de Biden por Harris
No jornal de julho, assinalamos que -– até esse momento – verificava-se um maior apoio de setores da burguesia à candidatura de Trump, especialmente porque seu programa em política exterior se orientava a concentrar esforços intervencionistas em Israel/Oriente Médio, e na luta contra a China. Sua proposta de retirar progressivamente ajuda e apoio à guerra na Ucrânia correspondia à conjuntura, que mostrava ser impossível uma derrota militar da Rússia sem um confronto bélico aberto. O que os EUA não estão em condições de garantir, se se abre um choque também com a China.
Biden-Harris têm se adaptado a essa avaliação da correlação de forças militares na Ucrânia, diminuindo entre democratas e republicanos a principal diferença na política exterior que a burguesia avaliava como mais um fator para apoiar esse ou aquele candidato. Assim, passou a ser decisivo, nos seus cálculos, qual dos possíveis governos lhes garantia condições para continuar a impor seus interesses por toda parte, com a menor resistência interna das massas norte-americanas. A troca de Biden por Harris trouxe para a campanha o controle sobre os sindicatos e os movimentos que estiveram na base da organização dos protestos e greves nos últimos anos. Esse controle tornou-se um “valor diferencial” na avaliação da burguesia para manter sua política de opressão e de expansão belicista, enquanto se mantém abafada a luta de classes no país. O crescente apoio da maioria das frações da burguesia a Harris e o retrocesso (relativo) de Trump nas pesquisas é uma manifestação dessa mudança tática. Sobretudo, porque um possível governo de Harris seguirá condicionado “pelo interesse dos monopólios em não retroceder ainda mais no mercado mundial, perante o avanço da China” (OI n° 18, de agosto de 2024) e, aliás, manterá a política belicista contra a Rússia e a genocida na Palestina.
O democratismo e eleitoralismo são um câncer para a luta revolucionária das massas
Nada mudará para os palestinos com qualquer governo que seja eleito, “porque continuarão sendo trucidados por milhares de bombas, exportadas dos EUA para Israel” (OI n° 18). Tampouco mudará a ofensiva contra os Estados Operários degenerados da Rússia e da China, contra os quais a política adotada visa a destruir a propriedade estatizada conquistada pelas revoluções proletárias. Não mudará o curso da opressão imperialista sobre as semicolônias e a repressão política, rebaixamento dos salários, destruição de direitos e a precarização em que se afundam há décadas os assalariados norte-americanos, em benefício dos lucros monopolistas.
Esses são os fundamentos que guiam a política de Estado da burguesia estadunidense, e que condiciona todos os governos de plantão. Ocasio-Cortez demonstra que, mesmo a partir de um partido dito “progressista” de um Estado imperialista, não há como, de fato, mudar nada em favor dos oprimidos. Ao contrário, são os “progressistas” que mudam de opinião em exclusivo benefício dos interesses da burguesia. Apesar disso, correntes ditas “socialistas” (como o DAS) provavelmente devem chamar o voto em Harris para “derrotar a ultradireita”. Há um setor ultraminoritário de vanguarda que está defendendo a ruptura com o Partido Democrata e a construção de um “outro partido”. Mas, não se propõem a construir um partido para a revolução e a ditadura proletárias, e sim para participar nas eleições como “oposição de esquerda”.
Os EUA têm sido palco de uma alta da luta de classes e de solidariedade internacionalista com os palestinos. A ocupação das universidades, as manifestações de rua e a unidade dos sindicatos ao redor da exigência de que se imponha um cessar-fogo e um embargo a Israel são manifestações do choque entre explorados e a burguesia, como há décadas não se via na principal potência imperialista. Mas, sem contar com uma direção e um partido revolucionários, esses movimentos são iludidos e arrastados a votar e a apoiar um governo burguês que manterá e aprofundará tudo contra o qual estão lutando.
A contradição entre o que as massas fazem no campo da luta de classes com o que fazem no campo da política burguesa (as ilusões democráticas, eleitorais) somente começará a ser superada por uma vanguarda com consciência de classe que lute pela “fusão das tendências de luta das massas com o programa e a estratégia revolucionários” (OI n° 18, de agosto de 2024). Desenvolvendo as lutas defensivas pelas reivindicações, retomando os levantes universitários e os unificando com as manifestações contra o genocídio, chamando os operários a paralisarem as fábricas e a bloquearem os portos, impedindo a produção e a exportação de armas e bombas a Israel, assim como enfrentando a repressão com a ação e a força coletiva das massas, é como as massas darão passos para derrotar a burguesia imperialista e o sionismo, abrindo um caminho para a luta revolucionária pelo seu próprio poder, sob o programa proletário e os métodos da luta de classes.
