O Internacionalista n° 19 / NOTAS INTERNACIONAIS / setembro de 2024


No site da LIT-QI (organização internacional à qual está ligado o PSTU), foi publicado um artigo (15/08/2024) sobre a invasão ucraniana na província russa de Kursk. Segundo seu autor, Pavel Polska, trata-se da mudança da “guerra de posições” para a “guerra de manobras”. Porém, qualquer “mudança tática” no curso de uma guerra exige mostrar os objetivos e os interesses por trás dessas. Somente assim será possível a correta caracterização de seu valor prático, e fundamentalmente de sua importância para a luta de classes e a situação política mundiais.
O imperialismo armou, treinou, proveu de informação, inteligência de satélite para designação de alvos russos, e até de tropas regulares (sob disfarce de “mercenários”, havia entre as tropas invasoras soldados poloneses, norte-americanos, franceses, georgianos, brasileiros, etc.) à Ucrânia, para atacar Rússia em seu próprio território. Viaturas blindadas, tanques, armas e mísseis recentemente entregues foram usados na invasão. Os satélites dos EUA e Inglaterra facilitaram as imagens da disposição das tropas russas e, assim, permitiram à Ucrânia planejar o ataque. Há muito se sabe que os equipamentos mais modernos da OTAN (HIMARS, ATACAMS, Patriot, etc.) não podem ser operados sem intervenção de “técnicos” e “especialistas”, ou seja, de militares na ativa de países imperialistas. E que os drones norte-americanos coletam dados que servem para os ataques na Criméia, Donbass e Rússia.
Como se vê, a “mudança tática” não seria possível sem a intervenção do imperialismo. Isso foi confirmado por ex-militares e funcionários do Pentágono com acesso à informação classificada. E assumido pelos EUA e pela União Europeia/EU: “Estamos participando ativamente do conflito”, disse o chefe da diplomacia europeia, Joseph Borrell, enquanto o Departamento de Estado dos EUA afirmou que não questiona o uso de seu armamento para Ucrânia se “defender”, ainda que seja atacando território russo. Também a Inglaterra e a França autorizaram o uso de seus veículos blindados, armas e mísseis em território russok, como medida de “legítima autodefesa”. A ação em Kursk mostrou que nem o regime títere de Kiev, nem o imperialismo, querem avançar nas negociações de paz.
Não houve qualquer vitória da Ucrânia nesta aventura que permita afirmar que houve uma mudança tática no curso da guerra. A destruição seguinte, pelas forças russas, das tropas mais bem treinadas e equipadas pela OTAN – e sem conseguir frear o avanço russo no Donbass – vão, conjunturalmente, favorecer a Rússia e comprometer o imperialismo em uma guerra direta com ela. Kursk deixou claro que a OTAN está atacando a Rússia, servindo-se para isso da bandeira ucraniana. Essa é a verdadeira “mudança tática” na guerra e, sobretudo, na situação política mundial. Entretanto, Polska afirma: a operação “não foi encorajada pelos EUA, nem pela OTAN ou pelas potências imperialistas ocidentais”, porque os EUA “proibiram” Kiev de “atacar o território russo com armas fornecidas pelo Ocidente”. De forma que a ação seria “expressão de um giro político no que diz respeito à subordinação absoluta e sufocante aos ditames e chantagens das potências” que “responde a uma profunda pressão das massas operárias e populares ucranianas, que … não se resignam a capitular perante os ocupantes”. E isso aconteceria porque a “sociedade ucraniana, que não está sob uma ditadura como a de Putin, e sim, tem na memória mobilizações massivas como a Maidan de 2014…”. Traduzindo: segundo o PSTU, a ação em Kursk teria sido impulsionada pela luta operária e popular, e teve sua raiz histórica na insurreição “revolucionária” de Maidan, em 2014.
A suposta “revolta operária” de 2014 foi protagonizada fundamentalmente pela pequena burguesia e, em particular, pelas organizações políticas e paramilitares ultradireitistas e nazistas, orquestrada e dirigida pelo imperialismo. Como assinalamos em O Internacionalista n° 10 (“10 anos do golpe contrarrevolucionário que abriu caminho à guerra na Ucrânia”), de dezembro do ano passado, o golpe de Maidan “foi organizado por frações da burocracia herdeira do estalinismo, aliadas às oligarquias burguesas e os partidos e correntes nacional-fascistas, e com apoio do imperialismo”. Por isso é que “A destituição de Yanukovich e a imposição de um o governo títere do imperialismo encerrou o curso da restauração capitalista no país, transformando a Ucrânia em semicolônia, e em uma nova base de operações para a expansão militar da OTAN sobre as fronteiras russas”. O decorrer da última década mostrou o acerto desse prognóstico: a Ucrânia é uma semicolônia e uma base da OTAN para impulsionar o objetivo de destruir a propriedade estatizada pelo proletariado revolucionário da Rússia, fragmentar o país em inúmeros estados étnicos e transformá-la em semicolônia – como já fez com a Ucrânia.
A ocultação deliberada desses fatos demonstra o servilismo da LIT ao imperialismo. Por isso está ausente, na avaliação de Polska, “outra revolta” de massas cujo conteúdo foi progressivo, ao se erguer contra o golpe do imperialismo e ao rejeitar se subordinar ao governo títere. O Leste ucraniano, com o destacamento operário mais numeroso e consciente da Ucrânia (fato demonstrado historicamente já em 1918 e 1919), e de esmagadora maioria russa da região, começou uma luta de mais de 8 anos pela sua autodeterminação. Os agentes do imperialismo que subiram ao poder em Kiev (graças ao golpe contrarrevolucionário) se apoiaram na OTAN para deflagrar a guerra civil fratricida contra o Donbass. A Rússia invadiu a Ucrânia quando estava claro que se imporia aos russos do Leste sua centralização pela via militar, e quando se preparava a entrada do país na OTAN, rompendo assim os acordos de Minsk, que deviam “garantir a autonomia às regiões do Leste ucraniano”. A “integralidade territorial” defendida pelo imperialismo – e pela LIT – somente era e é possível com a guerra civil de esmagamento dos russos do Leste, e negando-lhes o direito à autodeterminação (que Lênin defendeu incondicionalmente), e servindo de peão para atacar a Rússia.
Assim como a LIT distorce os eventos do “Euromaidan”, distorce também o conteúdo dos estados em guerra para ocultar sua subordinação aos objetivos imperialistas. A LIT caracteriza a Rússia de imperialista, quando, segundo Lênin, não haveria, na época imperialista – com o término da visão do mundo entre as potências – espaço para o surgimento de novos países imperialistas. Seguindo esse raciocínio, Trotsky afirmou que a restauração capitalista na Rússia a transformaria necessariamente em semicolônia. A LIT não explica como a realidade teria contrariado Lênin e Trotsky. E menos ainda explica porque abandonou a tática bolchevique de guerra civil contra o próprio governo burguês (o inimigo em casa), se houvesse uma guerra inter-imperialista.
O autor rapidamente passa ao campo das especulações teóricas: 1) “esta incursão ucraniana revelou às massas que a Rússia está envolvida numa guerra de agressão”, 2) essa ação “A primeira incursão de um exército estrangeiro na Rússia desde a Segunda Guerra”, 3) o que leva a “uma possível nova dinâmica da guerra nos próximos meses”, fatos esses que 4) mostrariam aos russos as consequências da guerra “de opressão”, etc. Não está claro no raciocínio como uma invasão da Rússia pela Ucrânia poderia mostrar às massas o envolvimento daquela em uma “guerra de agressão”. Quanto à referência de “incursão” de um exército estrangeiro, refere-se ao exército nazista, mas o articulista não entra em detalhes para evitar as analogias inocultáveis entre os nazistas alemães e ucranianos. Tampouco houve mudança na “dinâmica da guerra”: a Rússia continua avançando no Donbass, e a Ucrânia beira à derrota – apenas a intervenção do imperialismo diretamente na guerra abriria uma possibilidade remota de mudar esse quadro. É parte das elucubrações fantasiosas do autor afirmar que os civis russos são deslocados “por segurança”, porque o governo russo teme “que comece a confraternização com as tropas ucranianas”. “Temos provas” disso, assegura. Quais são? Que “não há pânico por parte dos habitantes, mas sim diálogos com as tropas da FDU”. De onde tiraram essa informação tão “preciosa”? Das “fontes” da “resistência”, ou seja, dos militares ucranianos e estrangeiros que estão em Kursk, invadindo e assassinando civis russos. Ora, e as provas da “confraternização”? E os vídeos de russos apoiando os invasores que os libertam da “tirania” de Putin? Nada, absolutamente nada é apresentado como prova factual do que se diz. Polska insulta a inteligência dos leitores, ao desconhecer vídeos que confirmam crimes contra civis russos por ucranianos vestindo capacete alemão e distintivos nazistas.
Polska parece ter um lampejo de consciência e, subitamente, afirma ser “prematuro para fazer previsões”. Mas, é precisamente previsões sem fundamento e especulações sobre bases falsas que ele nos presenteou, desde que começou seu texto! Sequer se preocupou com a veracidade das fontes ou em comparar informações contraditórias. Será que para os morenistas tudo o que vem dos russos é mentira, e o que vem dos ucranianos é verdadeiro? Não sabemos, mas sim sabemos que o autor apresenta teorias sem qualquer responsabilidade material ou fática que comprove o afirmado.
Tudo se resume a uma lógica formal bem deformada: se a Rússia é invasora e a Ucrânia é uma nação oprimida, e se o imperialismo diz que se “nega” atacar a Rússia, então a ação em Kursk se fez contra a vontade dele, e expressa uma tendência de luta revolucionária contra a “guerra de agressão”. É recorrendo a esse caminho errático que nos oferece a sua conclusão: a invasão “torna-se a base de uma política revolucionária para esta guerra de libertação nacional”, porque “A classe operária e os jovens trabalhadores com armas nas mãos estão dando as suas vidas para expulsar os ocupantes e salvar a Ucrânia”. Resumindo: “São os trabalhadores que têm o direito de decidir e controlar o país e o seu governo.” Para isso, nada melhor que “exigir aviões, artilharia de longo alcance, Himars e Atacams e munições”, e que “toda a indústria esteja a serviço da defesa nacional e das necessidades do povo”.
A invasão sob comando e direção do imperialismo JAMAIS pode ser “base” da política revolucionária, e sim da contrarrevolucionária. A tal “guerra de libertação” é uma guerra travada pelo imperialismo contra o estado operário (ainda que muito degenerado) russo, visando à sua destruição e transformação em semicolônia. Uma vitória dessa farsesca “guerra de libertação” levaria a remanchar duplamente as cadeias da opressão imperialista sobre a Ucrânia, Rússia, a chamada “Eurásia”, e por todo o mundo. Quanto à falsificação de que o exército ucraniano possa ser confundido com a classe operária e trabalhadores “em armas”, basta dizer que seus sindicatos não têm qualquer controle ou direção sobre as tropas: estão subordinados à hierarquia militar reacionária – ao comando da OTAN – e à burguesia vendida ao imperialismo. Não é suficiente vestir trabalhadores com roupas militares, para fazer do exército uma expressão da “luta proletária”. Menos ainda se não existir partido nem direção revolucionárias que os guiem.
É correto afirmar que a classe operária e os oprimidos têm direito a se autodeterminar e decidir os rumos do país. Mas, para isso é necessário derrubar a burguesia (nacional e imperialista), expropriar suas propriedades e erguer a propriedade nacionalizada, extinguir os destacamentos contrarrevolucionários da reação burguesa com o terror revolucionário, etc., o que não pode acontecer sem tomar o poder por meio da insurreição proletária. Somente assim poderiam criar bases para relações fraternais com os russo-ucranianos e os próprios russos. Isso foi o que aconteceu na revolução de Outubro de 1917. Não se pode inventar nada, apenas retomar essa experiência e o programa bolchevique.
Defender o governo burguês, apoiar sua guerra e combater junto ao imperialismo é tudo ao contrário disso. Parece que os morenistas até se esqueceram da recomendação principista de Lênin de nunca votar nos créditos, nem apoiar os planos de guerra de qualquer governo burguês. Exigir mais armas que o governo burguês comprará para enriquecer os capitalistas e combater a Rússia, à custa das condições de vida dos explorados ucranianos, assim como se submeter aos objetivos e direção da guerra traçados pelo imperialismo, é cuspir sobre o exemplo dos revolucionários Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht.
A LIT cavou sua trincheira de classe ao lado da contrarrevolução burguesa, contra os métodos e tática leninistas e as conquistas revolucionárias do proletariado, que permanecem em pé na Rússia, sob a forma da propriedade estatizada. A única posição revolucionária é a que defende essas conquistas, sem se subordinar aos métodos nem à política da burocracia russa na guerra . É aquela que defende, abertamente, a derrota do imperialismo e do governo fascitizante de Kiev, que permitirá preservar as conquistas revolucionárias, enfraquecer a burguesia imperialista, e favorece avançar para a derrota das potências – e também de seus governos vassalos, a exemplo do sionista – pelos explorados e oprimidos. Qualquer outra posição leva ao caminho da reação burguesa, como claramente o demonstra a subordinação vergonhosa da LIT aos interesses do imperialismo na Ucrânia.