
O Internacionalista n° 19 / NACIONAL / ELEIÇÕES / setembro de 2024
Como Arcary procura transformar a capitulação à burguesia em uma “estratégia eleitoral socialista”
É vergonhosa a posição eleitoral da Resistência/PSOL, ainda que tente ser vestida da roupagem retórica socialista por Valério Arcary, que na sua coluna do dia 21 de agosto (“Eleições em São Paulo”) explica por que votar em Boulos, em cinco pontos, nos que se resume a direitização dos centristas.
Segundo se explica, a principal mudança da conjuntura eleitoral é a ascensão de Pablo Marçal, que divide o bolsonarismo e ameaça retirar Nunes do segundo turno. Porém, isso não alteraria o choque entre “As duas correntes políticas nacionais mais poderosas”: o lulismo (leia-se, “campo progressista”) e o bolsonarismo (leia-se, “campo reacionário”). São essas duas forças que definirão o pleito e condicionam a estratégia eleitoral e a campanha da esquerda. Destaca ainda que, nestas eleições, é muito difícil ganhar nos “debates técnicos”, ou apresentando as melhores “soluções de gestão”, porque a gestão de Nunes não foi tão catastrófica, “ao contrário de Bolsonaro durante a pandemia”. Mas, fundamentalmente porque “as camadas médias estão divididas”, e cuja opção eleitoral é “condição sine qua non para a vitória de Boulos”. Por isso é que a “disputa política e ideológica” é o fundamental a ser feito na campanha. Eis: “acusar … que Marçal é um golpista e Nunes é um bolsonarista dissimulado”.
O primeiro passo é “a unidade da esquerda na maior cidade do país”. Mas, é o “convencimento” das “camadas médias” o que definirá a eleição, uma vez que Lula “garantiria” com seu apoio a votação das “camadas populares”. Realizada a somatória mental desses votos, tem ainda o empecilho de que “não há nenhuma dissidência burguesa apoiando Boulos, ao contrário de Lula em 2022, que tinha Alckmin e uma fração da classe dominante, minoritária, mas influente, ao seu lado desde o primeiro turno, e não é provável que haja deslocamento em um segundo turno”. Boulos está associado às lutas por moradia, o que tem espantado votos em eleições anteriores. A mudança de sua imagem nesta eleição, somada aos passos assinalados acima, poderia garantir sua vitória. Por isso, seria necessária a “lucidez estratégica de que a derrota do bolsonarismo em São Paulo será vital para as eleições presidenciais de 2026”. O que exigiria “um engajamento militante do ativismo”, sem o qual “não será possível vencer”.
Boulos vem apresentando “propostas técnicas” e “soluções de gestão” que preservam os interesses dos capitalistas, e oferecendo para isso um maior controle de sindicatos e movimentos – que Nunes ou Marçal não podem oferecer. Foi essa mesma vantagem que oferecia Lula, e que a burguesia avaliou como condição decisiva para apoiá-lo em sua candidatura. Os trabalhadores, que sofrem de destruição de direitos, de corte de salários e contrarreformas sob o governo Lula, sentem na pele que a conciliação de classes só traz retrocessos e desgraças. E trabalhar pela vitória de Boulos é fortalecer a política de traições das direções sindicais e populares, que se negam a mobilizar as massas e radicalizar suas lutas pela defesa das condições de vida. Ou seja, é preparar mais derrotas para os trabalhadores.
A direção da Apeoesp e a maioria da oposição classista que votarão em Boulos foram contra qualquer medida de resistência em defesa dos 40 mil professores categoria O demitidos, muito menos a greve. A direção dos trabalhadores da Sabesp, dos ferroviários e metroviários, que chamam a votar em Boulos, se negaram a organizar a luta de massas para derrotar as privatizações, e assim acabaram favorecendo o avanço do direitista Tarcísio, que já leiloou a Sabesp e as linhas da 7 e Intercidades da CPTM, sem enfrentar resistência. A direção do Sinpeem e grande parte da oposição que chamam a votar em Boulos abortaram a greve do funcionalismo, e o governo Nunes teve mãos livres para atacar o direito de greve, avançar nas terceirizações e nas escolas cívico-militares. Correntes e partidos que dirigem o movimento contra o genocídio palestino rejeitam convocar atos de ruas massivos e radicalizados, para não interferir nas campanhas eleitorais, e não criar condições para seus candidatos serem criticados ou repudiados por setores da direita que poderiam votar em Boulos.
Se Boulos for eleito, as direções e partidos governistas estarão pela contenção e desmonte das greves e lutas, em nome da “governabilidade” e das ameaças da ultradireita, como já fazem até o cansaço com o governo de Lula/Alckmin. No ato da Frente Palestina São Paulo (FPSP) de 18 de agosto, um membro do PT disse que é melhor ter um “aliado” na prefeitura do que continue um direitista no governo. Arcary soma-se a esse apelo, apesar de que isso signifique calar a boca perante o fato de que Boulos incorporará em seu gabinete – se eleito – empresários, aliados de Nunes até a véspera, ex PMs repressores, e até sionistas que defendem (direta ou indiretamente) o genocídio palestino.
O chamado de Arcary a ter “coragem” e “lucidez estratégica” se reduzem a não fazer nada que possa “espantar” eleitoralmente as camadas médias que não compactuam completamente com o bolsonarismo. Para superar a falta de apoio de “uma fração da classe dominante” a Boulos, não oferece qualquer orientação. Melhor se calar sobre isso, e preservar as últimas tinturas socialistas que lhe restam.
Dois anos antes das eleições que enfrentaram Bolsonaro e Haddad, acontecia a ruptura no PSTU (2016), e a fração que saía formava o MAIS, hoje Resistência. A ruptura foi anunciada como produto da divergência perante o golpe institucional contra Dilma Rousseff. Mas, as eleições de 2018 mostrariam o real conteúdo da ruptura à direita do MAIS/Resistência: abandono da tática eleitoral da frente de esquerda socialista, para adotar a tática da frente de esquerda reformista do PSOL, que nada mais é que uma via direta à submissão de setores da esquerda ao PT e à direita aliada a esse.
A política oportunista de Arcary espelha as vacilações de classe da pequena burguesia: oscila à esquerda sob impulso do avanço do proletariado na luta de classes, ou ainda se direitiza sob a pressão da burguesia. Nas condições em que a crise de direção revolucionária se aprofunda e arrasta correntes para o revisionismo, e o proletariado não avança na luta pelas suas reivindicações e com seus métodos próprios, a virada burguesa dos revisionistas (CST, MES, Resistência, MRT, PSTU etc.) vai se assentando cada vez mais, destruindo passo a passo qualquer herança trotskista e classista, que defendem somente em palavras. Nos sindicatos que dirigem, as direções centristas negociam no campo ditado pelos capitalistas, rejeitando defender as reivindicações dos explorados. E desse modo rifam a independência de classe e subordinam a luta de classes à democracia e instituições burguesas, por meio das quais os capitalistas impõem as privatizações e ajustes, o parasitismo financeiro e as contrarreformas malditas.
Arcary não traz nada novo, apenas reveste de um tom intelectual o que é praxe da política burguesa. Copia a tática e a política do PT nas eleições de 2018 e 2022, e a apresenta como elucubração brilhante de seu próprio cérebro, envernizando com tinturas “socialistas”, o que é feito pelo reformismo há décadas. O único “novo” é que afunda de vez nas traições, capitulação e conciliação de classe dos governistas, arrastando um setor iludido da vanguarda a ser cúmplice da política reacionária da burguesia.
Os revisionistas da Resistência, como todas as correntes centristas do Psol, abandonaram a tática da “Frente de Esquerda” que as uniu no passado junto ao PSTU, para defender sua independência organizativa perante os governos burgueses com a chamada “oposição de esquerda”. Defendem agora como “estratégia socialista” a subordinação (política, organizativa e eleitoral) à frente ampla burguesa que constituiu um governo pró-imperialista e de ataques contra as condições de vida das massas.
A conquista da independência de classe exige construir a “oposição revolucionária” para combater o governo e as burocracias sindicais (de direita e de esquerda), e defender a estratégia proletária no momento em que os centristas arrastam amplos setores da vanguarda a servirem de peões para os interesses da burguesia e de seus agentes da frente ampla burguesa. Exige chamar as massas a darem as costas ao parlamentarismo e democracia burguesa, e a ecorrerem à ação direta e coletiva para impor suas reivindicações. Na conjuntura eleitoral, opor a tática da unificação da vanguarda e das massas ao redor do programa e dos métodos que expressam sua luta revolucionária pela tomada do poder, contra o cretinismo eleitoral e a unidade democratizante que serve à burguesia para manter sua ditadura de classe.
Chamamos a Votar Nulo em defesa da estratégia revolucionária e da construção do partido-programa que a encarna: o Partido Proletário Revolucionário Internacionalista/PPRI.
